Yves de La Taille: “As crianças notam contradições éticas”

Quem já viu este vídeo (campanha australiana, creio que de 2006) nunca mais esquece. Em Children See, Children Do, somos colocados forçosamente diante do que o exemplo representa para uma criança. Se você nunca viu, pare alguns minutos e veja. Se já viu, sempre vale rever.

Ao ler o conteúdo que compartilho com vocês neste post eu pensei muito no tal vídeo, que já postei aqui há anos. Sim, eu estou fora, neste horário devo estar atravessando o Oceano Atlântico a caminho de Paris. Mas deixo para vocês a reprodução de uma entrevista interessante que li há alguns dias na Época. Nela o especialista em psicologia moral Yves de La Taille, um francês que se naturalizou brasileiro, autor de Moral e Ética: Dimensões intelectuais e afetivas, nos convida a pensar como uma criança enxerga os costumes e as atitudes de seus pais e professores.

Partindo as impressões de um garoto sobre a ética do mundo adulto, seu novo livro, Ética para meus pais (Editora Papirus), La Taille mostra, através da sensibilidade infantil para os desvios e as contradições éticas e morais dos adultos (segundo li, o personagem vê, registra e usa essas falhas para construir seus próprios costumes) e nos coloca frente a frente com o desafio de ensinar pelo exemplo.

Segue a reprodução da entrevista (tão boa que não resisti a colocar aqui):

O personagem principal de seu livro parece um refém da ética de seus pais…
Sim, pela idade dele, ali por volta de 7, 8 anos, ele ainda é refém da ética dos adultos com os quais convive. As noções de moral e ética começam a aparecer cedo na criança, por volta de 3, 4 anos. É quando ela começa a perceber que há diferença entre deveres rotineiros, como tomar banho e comer na hora certa, e os deveres morais. Nessa fase, a criança é heterônima, ou seja, ela entrou no mundo da moral e da ética, mas costuma esposar os valores do meio onde está. Só a partir dos 9 ou 10 anos é que ela se torna autônoma e começa a demandar critérios racionais, além de usar apenas fontes prestigiosas, como pais e irmãos, para decidir o que é certo ou errado.

Isso significa que a ética é aprendida pelo exemplo dos pais?
Dos pais e da escola. No livro, ética tem um sentido global, e não o tradicional, só voltado para o bem e para o mal. Ética são costumes, e costumes não nascem inscritos no DNA de ninguém, por isso as influências sociais são essenciais na formação ética e moral. Para a criança, essas influências vêm da família e da escola. Tomás, o personagem principal, observa e narra situações em casa e com professores e colegas da escola.

Há uma receita que garanta que os filhos aprendam ética e moral?
Não. O principal que os pais devem ter em mente é que crianças são extremamente observadoras. Elas olham muito, apesar de ainda não serem capazes de raciocinar ou fazer deduções com aquilo que estão vendo. O comportamento dos pais, portanto, é essencial. Principalmente porque, desde pequenos, os filhos percebem as contradições entre o discurso dos pais e sua prática. Eles notam as contradições éticas. E isso fica lá guardado com a criança, que constrói, em cima disso, seus próprios costumes e atitudes.

Há alguma passagem do livro que exemplifica isso?
A da festa de aniversário de Tomás, organizada pelos pais em um bufê infantil caro, com muitos convidados (o personagem pediu para os pais uma festa em casa, para convidar apenas seus três melhores amigos. Mas os pais acharam “muito pouco”). Ele não se divertiu na própria festa, não gostou. Ele tem a sensibilidade para não gostar, mas não racionaliza isso, ou seja, não sabe dizer o porquê.

As escolas conseguem ensinar ética para os alunos?
A escola poderia ter estratégias pensadas e conscientes para trabalhar essa questão. Mas em geral não tem. O que elas têm em excesso são regras. Ou seja, são muito legalistas. O que pode e o que não pode está escrito, vem dos regimentos internos. Se aparece uma situação que não está prevista no regimento, ninguém sabe o que fazer. É claro que a escola, assim como a família, não pode garantir a formação ética das pessoas. Há sempre o imponderável. Não é como alfabetizar a criança ou ensinar matemática. Essas coisas, se não há problemas com a criança e a escola for boa, podem ser garantidas. Mas não comportamentos éticos. O que dá para fazer é trabalhar algumas questões, criar um terreno fértil.

Em algum momento a discussão sobre ética nas escolas se mistura com a discussão sobre bullying?
Deveria. Um agressor demonstra uma lacuna ética ou moral ao humilhar e bater em alguém. É uma fraqueza de senso moral. Agora, se as escolas trabalham pela questão moral e ética o problema do bullying, aí eu tenho dúvidas. A tendência é a escola “psicologizar” a questão. Ou seja, tratar o agressor como alguém que tem problemas em casa. Não nego que alguns dos agressores tenham, sim, problemas, mas no geral as escolas ignoram a questão do bem e do mal. Para mim, o mal existe. Em muitos casos, os agressores acham que a violência é brincadeira – e, se é brincadeira, pode.

O que vemos muito nas escolas brasileiras são campanhas pontuais para combater o bullying ou para falar sobre ética. Isso funciona?
Tem efeito zero – ou até perverso, porque passa a ideia de que, se é assunto para uma campanha, então não precisamos olhar para isso no dia a dia. Muitos trabalhos benfeitos sobre o tema também são projetos ou iniciativas individuais de professores. Não funciona. Claro, é melhor ter isso do que não fazer nada, mas a ética é cotidiana, tem de ser trabalhada o tempo inteiro. Não se trata de criar uma disciplina específica para isso. O que a escola, como instituição, tem de cuidar é do convívio diário entre alunos e professores.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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