War on race ou epistemicídio?

Precisei de umas três tentativas antes de conseguir assistir a Spinning into butter, filme sobre o racismo camuflado da fase pré-politicamente correta estrelado por Sarah Jessica Parker. Talvez seja o fato de ver a Carrie de Sex and The City obscura, brunée (sim, ela está apagada com cabelos castanho escuros e sem qualquer brilho no olhar) e sinceramente derrotada que me fez insistir no filme que está em cartaz na rede Telecine neste mês.

Ao final, valeu a pena. Sem frescura, sem hipocrisia, o filme mostra um racismo que está no âmago da sociedade norte-americana e se concentrava (pelo menos na época em que Rebecca Gilman escreveu a história que discute o politicamente correto da década de 1990) nos afro-descendentes (esta palavra perdeu o hífen ou não?).

Lento e duro, mas importante para quem reflexiona a questão racial, o filme não tem nada de blockbuster. E ele me permitiu descobrir a história de Little Black Sambo, que podia ser uma das nossas histórias de negrinhos perdidos no Brasil antigo. Quando um dos membros do conselho universitário a cita numa reunião, ele nos faz pensar que para alguns membros das minorias (e vale aqui dizer que eu me sinto minoria, porque fisicamente me identifico mais com meu lado asiático do que germânico) ser perseguido por suas diferenças é tão comum (quase natural) que é difícil não sê-lo.

[Uma das cenas do filme mostra a personagem de Sarah no antigo trabalho onde ela era minoria e a visão dela como única branca no meio de tantos negros é a da própria minoria que se dissolve. Lembrou-me de quando, no Japão, o Gui era o único causasiano em meio aos orientais e parecia um estranho, um “alien”. Tudo é realmente relativo!]

Sair deste jugo social que se impõe sobre os negros (asiáticos, indígenas e nos EUA os hispânicos também) pode ser tão complicado quando viver nele – assim como ser mulher com direitos é ainda tão complicado para tantas de nós, visto que em países como o Brasil ganhamos direitos iguais aos dos homens há menos tempo do que houve a abolição da escravatura – é, livros como Mundos de Eufrásia (de Claudia Lage, que entrevistei aqui) e Um toque na estrela (Benoite Groult, que comentei aqui) andaram me influenciando muito na visão das conquistas femininas dos últimos 150 anos.

E tudo isso aconteceu quando eu descobri um programa no Canal Brasil, Espelho, idealizado e apresentado por Lázaro Ramos. O primeiro episódio que vi tratava de Epistemicídio e entrevistava a doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora e fundadora do Geledés (Instituto da Mulher Negra) Sueli Carneiro.

A palavra, um neologismo, é interessante e sonora. Segundo o programa, poderia ser explicada como “morte do conhecimento e que acontece toda vez que um grupo de pessoas – ou uma nação – mais forte do ponto de vista bélico, econômico e/ou cultural domina um outro grupo, a ele impondo uma série de opressões, inclusive um tipo específico de cultura”.

A cultura que nos foi imposta dizia que os homens são superiores e que dentre eles os homens brancos são melhores e por isso podem nos ditar regras, definições, assumir uma postura paternalista de quem detém a verdade e por isso o direito de nos guiar – a seu bel prazer ou segundo seus interesses – e que a nós resta seguir, confiando nossas vidas à sua sabedoria.

P.S. O Geledés promove nesta quarta-feira, 09/09, o Seminário Violência Racial em São Paulo. Detalhes podem ser conhecidos aqui.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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