Vovós no volante – e ativas na sociedade. Este é o futuro!

Como o país se ajustará à realidade de que em poucos anos não seremos mais o Brasil jovem, mas sim uma sociedade equilibrada e madura na qual os adultos mais velhos terão que ser inseridos em projetos sociais, culturais, tecnológicos e econômicos como parte importante a ser integrada nos planos de governo com mais do que assistencialismo ligado à saúde e previdência?

Preconceito contra mulheres no volante - das primeiras motoristas às vovós que ainda dirigem - crédito da foto Montagem sobre prints de sites http://www.avidaquer.com.br/vovos-no-volante/

Minha mãe adora dirigir. Não sei se consigo imaginar sua vida sem poder dirigir, que dirá sem um carro dela. Depois dos 60 ela assumiu como condição alguns confortos extras, como câmbio automático, e felizmente não vive ainda uma situação que a chamada “melhor idade” vivencia no trânsito: o preconceito.

Incrível, não é mesmo? A pessoa é “idosa” (no Brasil passou dos 60 é idoso, às vezes antes disso já tem gente sendo incluída na terceira idade) tão cedo numa realidade na qual vivemos cada vez mais e melhor a idade madura. Uma reportagem de Marli Olmos mostrava outro dia quatro histórias de paulistanas desta faixa etária e que são desbravadoras novamente na questão do trânsito. Se tornaram condutoras de veículos quando isso ainda era um privilégio para poucos homens no Brasil – uma das senhoras, que tem “mais de 90 anos”, foi das primeiras a tirar carta de motorista quando as mulheres alcançaram este direito no Brasil – e agora são da primeira geração de vovós ainda no volante em grandes cidades.

Às vezes estou no trânsito e vejo estas senhoras com seus carros impecáveis dirigindo tranquilas e impassíveis em avenidas como a 23 de Maio – outro dia até tentei fotografar uma que estava num Corcel I intacto, parecia saída do subúrbio de Don Draper no seriado Mad Men, uma coisa linda de se ver.

Mas a realidade delas parece não ser tão doce. Embora ainda sintam muita segurança ao dirigir seus carros – as senhoras da reportagem tanto tinham Fuscas originais de 1982 quanto Volvos hidramáticos com poucos anos de uso – e não raro sejam as condutoras oficiais de netos (como já foram de filhos), elas sofrem uma grande pressão familiar para deixar de usar carro e parar de se expor aos perigos.

Daí eu me lembro de duas senhoras queridas da minha vida. Minha vizinha, dona Tereza, que aos 80 anos sofria quase “crises de abstinência” da falta de seu carro, companheiro de uma vida inteira (o esposo tinha um problema motor e ela foi sempre a motorista da família, papel que perdeu quando passou a ter problemas ósseos na bacia) e eu ouvia relatar com carinho detalhes da sua vida no vai e vem de São Paulo. Minha vizinha, como as senhoras da reportagem, não tinha histórico de multas, acidentes e descuidos ao volante.

Já minha avó Maria, que hoje teria perto de 90 anos, era uma anciã dependente de taxis quando aos 61, atravessando uma rua em Curitiba, sofreu um grave acidente e fraturou o fêmur, resultando numa recuperação lenta que trouxe à tona outros problemas de saúde até então ocultos e abreviou sua vida. Faleceu às vésperas de completar 64 anos, tendo vivido as últimas décadas bastante limitada em alguns aspectos, creio, por conta da falta de independência e autonomia.

Afinal, até quando pode vovó no volante?

A legislação não estabelece limite de idade para parar de dirigir, cabe a cada condutor saber quando parar. É importante ser cuidadoso com alguns detalhes porque, no trânsito, estamos ligados numa rede com outras pessoas e todo risco não é só individual, é coletivo.

André Horta, analista de segurança viária, lembra que é importante cuidar com alguns detalhes:

  • Visão e audição: Com o passar dos anos há alterações na capacidade visual e na auditiva e dirigir se baseia muito nestas funções. Quem pretende continuar dirigindo deve verificar graus de óculos e fazer exames periódicos de audição.
  • Legislação: as regras formais e informais de trânsito mudaram muito – o motorista deve se manter sempre atualizado sobre as mudanças nas sinalizações.
  • Coordenação motora: com a idade, há uma mudança natural na coordenação motora e por isso vale a pena evitar trafegar por longos períodos nos horários de pico nas vias urbanas mais congestionadas, assim como evitar dirigir em dias de muita chuva ou em áreas com neblina e deixar de fazer manobras mais arriscadas, como conversões à esquerda.

Sei que faço apologia da vida com menos carro (e mais transporte público), mas aqui discuto mais do que deixar nossos velhinhos terem carro próprio ou não. Levanto com os leitores o debate sobre a importância de repensarmos a inserção destes adultos maduros na sociedade. Quando fui ao Senado Federal em abril esta foi minha pergunta aos senadores na entrevista que concederam aos blogueiros: “Há planos para atender as mulheres que chegam à terceira idade com a perspectiva de décadas de vida produtiva pela frente?“.

E pergunto aos leitores: vocês conhecem projetos que vão além do assistencialismo e realmente incorporam esta parcela tão importante, intereressante e crescente da nossa sociedade?

Fica aqui meu convite para este pensar coletivo e meu pedido de que se os leitores souberem de projetos ou histórias de pessoas que caracterizem esta mudança de foco com relação à “melhor idade”, por favor, compartilhem nos comentários.
🙂

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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