Vovó, única e insubstituível

E com a Vó Gorda #aos11meses #aniversario

Há dias estamos falando sobre o Dia da Avó. Tudo começou com uma comemoração na escola dos meus filhos e minha dúvida sobre o que fazer: as avós deles não moram aqui, seria certo mandá-los para aula neste dia em que os colegas fariam sachês e tomariam chá com suas avózinhas? Segui meu coração: convidei uma vizinha de edifício que tem 70 anos, adora meus filhos e poderia ir representar o papel. Enzo aceitou, foi orgulhoso lá e explicou que não era sua avó, mas era uma boa amiga-avó. Mas Giorgio, que também adora esta vizinha, não aceitou: ficou sem jeito e me falou baixinho: – Mas mamãe, vão pensar que é minha vó de verdade e a vovó Ita vai ficar triste. Admirei sua altivez e a lealdade com a vó querida, que é minha mãe e um dos esteios da vida dele. Ao mesmo tempo também me vi nele. Eu não conheci meus avós, que já eram falecidos quando nasci, mas nunca consegui colocar ninguém no lugar deles.

Cresci ouvindo histórias e construindo, peça a peça, uma imagem do que eles seriam como pessoas e sonhando com os avós que seriam para mim. Vô Juca, pai da minha mãe, jornalista e idealista, foi uma referência intelectual para mim. Apesar de ouvir mil histórias sobre ele, foi na biblioteca que herdamos dele que o decifrei. Falavam-me dele os títulos, as anotações a caneta tinteiro nos trechos que gostava, páginas não abertas de livros que deve ter descartado. E os artigos, que como hoje são os blogs, há tempos fizeram sua voz interior falar mais alto. Do meu Ditian (avô em japonês, o meu vindo de Fukuoka) eu herdei a coragem de empreender e a capacidade de comunicação. Minha batian (avó) também o tinha: fez diários a vida toda, nos quais divagava e refletia o desenvolvimento da grande familia que formou aqui, sem perder os laços com sua familia em Niigata.

Com a Batian (Vó japonesa) e minha irmã Sheron #aos3 #aniversario

Muito tradicional e receosa, ela não aceitou o casamento de meu pai com uma “gaijin” (estrangeira) e simplesmente não compareceu. Nem tampouco veio conhecer a primeira neta, apenas mandou-me um presente quando eu já tinha nove meses. Mas ao conhecer minha mãe praticamente se mudou para nossa casa e tive uma infância rica e diferente, meio bilíngue e cheia de brincadeiras antigas e curiosas por conta dela. Eram outros tempos em que as avós eram senhoras aposentadas bordando ou fazendo crochê com seus vestidinhos e anáguas (quem lembra disto?) e viviam na dependência de seus filhos ou maridos.

Hoje as avós são outras. Minha mãe e minha sogra trabalham, apesar de sempre falarem em aposentadoria. Estudam, independente de sua formação anterior, sempre em busca de aprimoramento pessoal e no ano passado uma terminou o mestrado, outra o segundo curso superior. Dirigem seus próprios carros, são donas de seu dinheiro, enfim, decidem suas vidas. Nada parecido com as avós que eu tive, exceto por uma coisa: são doentes pelos netos.

Minha avó materna era doente por mim (cheguei logo após sua viuvez e ainda com instintos maternos aos 49 anos) e o carinho dela nunca me deixa. Ela me deu o sentido de ancestralidade: conheci sua avó (minha tataravó) e sua mãe (minha bisavó) era uma visita frequente mesmo anos depois do falecimento de minha vó. O amor é assim: se faz presente, independente do tempo que passe (no nosso caso são quase 20 anos). Penso na reação dela, na sua satisfação com cada etapa de minha vida, no carinho que daria para meus filhos, no orgulho que sentiria de mim e esta sua presença amorosa faz com que ela continue presente. Mesmo morando longe há dois anos e meio, vejo como os avós de meus filhos também são presentes no dia-a-dia deles. A internet nos ajuda, então posto os desenhos e textos deles nos respectivos blogs, o que ajuda muito nas conversas telefônicas.

Minha vida de blogueira começou assim, com fotologs para os tios e avós corujas. As fotos na geladeira ajudam e mais que tudo, a identificação de características dos ancestrais em um e outro traz a família de volta, dá a eles (e a nós) sensação de fazer parte de algo maior, como no filme Tigrão, em que ele e a turma do Ursinho Pooh buscam construir a árvore da sua família. Os avôs nos dão as raízes, eles são o porto-seguro de onde saímos e para o qual sabemos que podemos voltar, não importa o que aconteça. Novos ramos podem surgir nas nossas árvores, até enxertos (assim meu sogro se refere a mim e os outros genros e nora), mas não podemos trocar as raízes. Foi o que vi na reação do Giorgio com o Dia da Avó: a consciência de que é impossível colocarmos outras pessoas no lugar dos avós. Podemos ter bons amigos mais velhos, mas vô é uma figura única e insubstituível.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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