Vó Gorda

“O Senhor te abençoe e te guarde!
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno!
O Senhor mostre para ti a sua face e te conceda a Paz! ”
Nm 6,22,26

vo-gorda.jpegA bênção acima é para minha avó Maria Augusta, mãe de minha mãe. Eu sempre lhe pedi “a bênção Vó” nos encontros e despedidas, ao acordar e ao dormir, com aquele beijo na mão retribuído por ela com beijos no rosto. Hoje, quando faz exatos 20 anos que ela se foi, quem a abençoa sou eu. Foi neste exato horário de final de tarde, ao sair da sessão de hemodiálise na Santa Casa, que ela simplesmente não aguentou. O coração parou e, segundo nos relatou um amigo que estava com ela, Vó Gorda sorria contando alguma história sobre nós. Era jovem, tinha apenas 63 anos. Certamente não é idade para deixar a família, mas certas coisas não se escolhe. No entanto, como neta (mais velha e eu sempre digo aos meus primos, para fazer ciúme, que era a favorita) escolho lembrar dela quando tenho vontade e me permitir imaginar como seria ainda tê-la. Ela sempre repetia que seu sonho era me ver fazer 15 anos, um marco na sua visão de mundo. No entanto, sei que se orgulhou mesmo em minha formaturinha de primeiro grau. Analfabeta funcional, apesar de viúva de um jornalista -e dono de jornal- ela via no estudo a maior bênção da vida. Viu os filhas se formarem na faculdade e dos netos não mais esperava, tinha plena certeza de seu sucesso naquilo que lhe parecia o melhor, o estudo, a educação.

Talvez ela devesse ter desejado me ver realizar mais porque faleceu 13 dias depois dos meus 15 anos. Não me viu me formar outras vezes, no segundo grau técnico e na faculdade, não me viu casar, ser mãe, ser feliz. Mas nestes 20 anos eu tenho me permitido imaginar como seria se ela estivesse aqui e creio que esta capacidade de vivenciar seu amor a faz presente. Se olho para trás, parece-me que não foi há tanto tempo e que ela de fato estava aqui, realizando-se com minha felicidade na carreira, na maternidade, no casamento. Digo aos meus filhos que nenhuma bisavó teria um colo tão bom quanto o da vó Gorda e como na história de Bisa Bia, Bisa Bel penso se um dia eu serei esta bisavó que ela não foi. Terei este colo delicioso, o andar quieto no corredor a levar um leitinho morno para a neta que está estudando até tarde, o carinho de se lembrar de comprar meias, enfim, as coisas que fazem as avós serem mais tão diferentes das mães, das tias, das babás.

Hoje é um dia especial. Vejo a vida em sua plenitude, acontecendo à revelia da nossa vontade. E agradeço a Deus pela vida que vivo.

P.S. Hoje também é o dia em que meu sobrinho CJ completa um mês de vida. 🙂

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.