Viver com menos – quando o pouco é suficiente

“A simplicidade ultrapassa a adoção de uma atitude menos consumista, mas não significa um rompimento total com a sociedade de consumo. Implica fundamentalmente em trocar o supérfluo pelo essencial.”

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Frequentemente explico para as pessoas que voltamos do Japão, onde moramos por dois anos no início do nosso casamento, com uma visão minimalista da vida. Dependendo da referência que a pessoa tenha do país dos meus ancestrais noto uma cara de anuência ou surpresa. Quem pensa no Japão tradicional e nos conceitos “zen”, entende como algo meio metafísico. Quem pensa no Japão moderno não consegue entender como o consumismo de lá pode ser minimalista.

A verdade é que, depois de ter vivido os dois primeiros anos de casamento num lar que era uma casinha de bonecas, ao mudar para o outro lado do mundo e refazer tudo, fomos nos libertando de muitas convenções que não necessariamente eram escolhas nossas, objetos de desejo que tínhamos ou necessidades que refletiam nossa realidade. Fizemos a casa que parecia mais confortável dentro do que conhecíamos e foi ao “desvestir” esta casa e esta vida que notamos o que queríamos de verdade. Nestes 17 anos de casados nós acabamos refazendo o conceito de lar várias vezes: lá dentro do Japão 3 vezes, depois aqui, quando remontamos a casa em Curitiba ao comprar nosso primeiro apartamento, ao mudar para Sampa cinco anos depois e agora com a chegada da Manuela.

Fizemos um processo de escolha longo de praticamente tudo que guardamos nestes 8 anos de Mooca para abrir espaço no apErtamento para a bebê ter espaço. Neste trabalho de triagem, que exigiu esvaziar o escritório para criar o quarto do bebê, fomos vendo como acumulamos coisas e como carregávamos objetos que não eram tão importantes, eram pouco (ou nada!) usados, como mantivemos alguns itens só porque ganhamos ou lembravam certa fase. Algumas coisas eram grandes e saíram por uma questão prática de total falta de espaço, como o jogo de copa da minha avó, uma herança querida que sempre esteve conosco, com mesa para seis pessoas e dois balcões com cristaleira em imbuia maciça que tinha quase 80 anos de vida. Tive festinhas de aniversário nele e meus filhos também viveram o mesmo, mas era hora de admitir que não cabia mais na nossa cozinha, na nossa vida cosmopolita e que já não era mais a nossa cara.

Nos quartos, com a chegada de Manu, colocamos novos papeis de parede e pintamos as paredes (nós mesmos, numa diversão familiar de “um cômodo por final de semana”) e deixamos apenas as camas. Nem cabeceiras, nem mesas de apoio, deixamos os espaços livres e com o mínimo. Agora entramos nos quartos, que ganharam luzes indiretas para dar um clima acolhedor, e nos sentimos imediatamente descansados. Simples assim.

Os jogos de sofá, daqueles para receber visitas (com 2 e 3 lugares, etc e tal) já tinham ido embora há alguns anos. Percebemos que não eram confortáveis para nos acomodar juntinhos e que as visitas realmente queridas sentavam nos futons no chão como nós gostamos de fazer, em torno da mesinha de centro, para comer “finger food”, jogar ou conversar até ficar de madrugada. Com o espaço fácil de livrar na sala, podemos jogar videogame, dançar, ensaiar música com nossos instrumentos musicais e até fazer yoga. Precisa de mais? Aqui não.

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Não conseguimos abrir mão de parte dos livros, embora tenhamos doado coleções de anos de assinatura de gibis, tenhamos libertado dezenas de livros não infantis e dos CDs, pois estamos cada dia mais ouvindo música por streaming no iPad e lendo e-books. Temos TVs e equipamentos na cozinha, não chegamos ao extremo de brasileiros citados na reportagem Viver com menos, mas quando comparo nossa realidade com a maioria das famílias, acho que estamos nos esvaziando aos poucos, simplificando cada vez mais. Ter máquina de pão é ter objetos, sim, mas por outro lado, fazemos nosso pão, é uma volta à simplicidade de outra forma. Cozinhar diariamente com ingredientes frescos e evitar comidas industrializadas é um jeito de simplificar.

A matéria traz personagens que fizeram uma redução do estilo de vida ao essencial e afirma que eles (os entrevistados) não se conhecem, mas comungam dos mesmos ideais quando o assunto é a maneira de consumir, sendo parte de um fenômeno social que já começa a ser debatido e pesquisado. Jelson Oliveira, da PUC-PR, é um dos estudiosos do tema e está concluindo o livro “Simplicidade”, que será lançado até o final do ano, abordando o “culto de viver com menos” e o fato de não ter nada a ver com pobreza.

“Adotar a ideia da simplicidade é estar disposto a abrir mão do excesso de bens de consumo. O aumento da procura por outra forma de viver é um sintoma de cansaço com a uma sociedade altamente consumista.”

Criados na cultura digital, os adeptos da simplicidade voluntária subtraem móveis, roupas, sapatos, livros, qualquer bem de consumo considerado supérfluo de suas vidas. Ainda que seja um fenômeno social contemporâneo sem líderes nem regras, alguns usam o espaço virtual para divulgar suas ideias. Eu mesma uso o termo minimalismo para explicar minha casa há anos e não sabia que tinha tanta gente parecida comigo e que se apoia neste movimento cultural do século passado que faz uso de poucos elementos fundamentais como base de expressão.

Gostou? Pois aqui tem um bom motivo para se juntar a nós:

Segundo o relatório “Estado do Mundo — 2010″, da ONG WorldWatch Institute, apenas um terço da população mundial consome mais do que a Terra é capaz de repor. Os outros dois terços da população do mundo sequer conseguem ir às compras, já que apenas garantem sua própria sobrevivência.

E para explicar a quem te achar estranho, eis aqui três argumentos da pesquisadora Dulce Critelli, terapeuta e professora de filosofia da PUC de São Paulo. Para ela estes fatores levam ao crescimento da tendência minimalista pelo mundo:

  1. o conceito de slow food que, ao criticar os efeitos padronizantes da fast food, reforçou a crítica ao ritmo da vida atual
  2. a crise econômica que diminuiu o poder aquisitivo das pessoas e as fez repensar seus gastos
  3. os movimentos de preservação ambiental que não cansam de chamar a atenção, por meio de relatórios e documentos, para o excesso de consumo

E se não bastar, pense nisso:

16% dos países mais ricos do mundo são responsáveis por 78% do consumo total. Isso já ultrapassa o que o planeta é capaz de repor. Agora pensemos na certeza de que o número de pessoas que compram em alta intensidade irá aumentar nas próximas décadas. O planeta aguenta?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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