Vilania ou a vontade de ser atendido?

[Post originalmente publicado no Mãe com filhos em 05/04/2009.]

Uma discussão se formou há uns meses sobre a vilania infantil. A grande motivadora é uma personagem infantil de novela, que levou o Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro a “conversar” a maior emissora de TV do Brasil. Eu, que há tempos discuto o trabalho infantil no entretenimento, estou de olho nos desdobramentos do tema, mas, como não acompanho a novela, demorei para entender a gravidade do envolvimento da atriz Klara Castanho com a personagem Rafaela em “Viver a Vida”.

O Ministério Público existe para representar legalmente a sociedade. Neste sentido, é de sua competência observar e notificar situações desconfortáveis, como o trabalho infantil artístico. Ele “deve ser comedido, observando não só os aspectos legais mas, principalmente, eventuais reflexos que determinado personagem pode provocar no desenvolvimento da criança”.

Os reflexos é que estão em questão nesta semana. A revista Época traz uma reportagem sobre a maldade infantil, tipificada na TV pela menina Rafaela, que manipula a mãe e pessoas próximas graças à sua inteligência arguta, não raro conseguindo alcançar seus objetivos. No caso dela, pelo que entendi consultando amigas que são “telespectadoras 2.0″ (como @srtabia, gente que assiste novela e compartilham no Twitter suas opiniões!) e especialistas em TV (como @alerocha, autor do livro Poltronacolunista de TV do Yahoo), a menina não é exatamente má, apenas usa sua esperteza para ser atendida em suas vontades ou necessidades – me contaram que um dos motivadores dela é voltar para a cidade onde está seu “pai” postiço e onde vivia com a mãe.

A reportagem de Martha Mendonça, no entanto, nos mostra que a maldade ou o egoísmo infantis podem ter um componente mais grave do que a vontade de ser atendido: e aí entra a vilania, a perversidade infantil. Segundo especialistas entrevistados, um conjunto de atitudes pode caracterizar um comportamento perverso e devem ser vistos com atenção pelos pais e educadores:

– mentiras cada vez mais elaboradas

– tentativas constantes de manipulação pela via emocional ou por chantagens

– roubos frequentes e prática de vandalismo

– maldades sistemáticas (com irmãos, amigos, empregados domésticos) sem sinais de culpa ou arrependimento

– gosto por experiências mórbidas com animais

– nenhuma tolerância à frustração (crianças demonstram pouca tolerência à frustração, é diferente de “nenhuma tolerância)

– explosão exacerbada ao ser contrariado

– mania de culpar os outros por seus erros (sem assumir parcela alguma da culpa)

– egocentrismo muito exacerbado (na idade em que já deveriam ter capacidade de se identificar e solidarizar com os outros)

– pouca ou nenhuma mostra de solidariedade

– arrogância extrema, até mesmo com os pais, professores, avós

– demonstração de prazer ao ferir e humilhar o próximo

Não quer dizer que a imaturidade ou o desejo de ser atendido em suas vontades seja vilania infantil. Todos nós quando pequenos temos curiosidade mórbida, momentos egoistas e, até os 4 ou 5 anos, vivemos num mundo egocêntrico, ainda sem a percepção do outro bem definida. O que acontece com o ser humano que chamamos de “perverso”, que tem transtorno de conduta, é que ele não consegue desenvolver a percepção do outro e a falta de limites e de acompanhamento dos pais – duas constantes nas famílias atuais – favorece o desenvolvimento do transtorno.

filho mimado não será um psicopata, mas qualquer criança que não é repreendida pelos pais sobre seus erros tende a crescer pouco civilizada, não é mesmo? Por isso, vale a pena ficarmos de olho nestes comportamentos equivocados e corrigir o que acharmos que está longe do ideal enquanto há tempo, afinal, como diziam nossas avós, “é de pequenino que se torce o pepino!’.

P.S. Se o trabalho artístico infantil lhe interessa também, vale ler Meu filho é uma estrelaCrianças não são crianças para sempre.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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