destaque / relacionamentos

Um dia desses, já nem sei mais como, um texto apareceu na minha timeline e eu cliquei para ler.

Veio de encontro a muita coisa que eu acredito, sobre as quais falo em casa ou com amigos, e até algumas pautas daqui do blog: a necessidade urgente que o Brasil tem de deixar de ser o Brasil.

Não estou minimizando o nosso valor, nossa cultura, nosso jeito. Amo o Brasil. Mas eu queria um país mais mais justo, mais honesto e mais solidário. Para ter estas coisas, só se as pessoas se sentirem mais iguais.

A desigualdade se forma no modo como nós nos vemos em relação aos outros e isso é muito peculiar por aqui: de uma forma ou de outra, parece que o tempo todo a gente se sente mais ou menos do que alguém e que essa comparação instintiva é o que faz a gente se sentir com algum valor pessoal.

Triste, né?

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Mas, enfim, vamos a alguns pontos do texto Vida de rico, de Ligia Fascioni, que falava sobre a realidade na Alemanha atual (2015):

  • a diferença entre o salário de um operário (ou caixa de supermercado) e de um diretor de empresa é, no máximo, 5 vezes. Isso inclui funcionários públicos de alto escalão, professores universitários doutores, juízes e médicos.
  • o mesmo acontece na Suécia; um professor universitário, com doutorado, ganha, no máximo 2 mil Euros líquidos. Para se ter uma idéia, um almoço no restaurante universitário lá custa 8 Euros. Não é fácil, né? No entanto, esses países são os que se considera como tendo a melhor qualidade de vida.
  • é como se no Brasil, o rendimento máximo bruto de qualquer pessoa que vive de salário fosse R$ 5 ou 6 mil reais. Disso, quase 40% ficam retidos para os impostos, aposentadoria e plano de saúde obrigatório. Pois é, não sobra muito.
  • alemães não têm muita sobra no orçamento, como se pode ver; mas adoram viajar e ler. Então, lavam e passam a própria roupa, fazem a própria comida e limpam a própria casa.
  • não tem pet shop para dar banho em cachorros; os próprios donos se encarregam disso.
  • a maior parte das pessoas compra seus móveis na IKEA e aluga um carro ou reboque para levar a encomenda para casa. Para montar uma cozinha inteira, por exemplo, é só ler o manual de instruções; tem que botar a mão na massa mesmo.
  • os professores (…) são altamente qualificados (…) todos levam marmita e ninguém acha feio. Andam o máximo que podem de bicicleta e, no inverno, de transporte público. Os que têm carro usam modelos menores (aquelas horrosidades gigantes com vidro fumê e ar condicionado ligado no máximo quase não tem aqui, para minha felicidade). Outro efeito colateral é que o trânsito é excelente; a velocidade máxima permitida nos bairros é 30 km/h e eu nunca vi engarrafamentos na hora do rush.
  • os prédios não têm porteiro e uma vez por semana vem uma empresa terceirizada varrer as escadas. Quando chega uma encomenda e não estou em casa, sempre tem um bilhetinho na caixa do correio avisando com qual vizinho está o pacote; é só ir lá pegar (e aproveitar para fazer um social). Às vezes a gente também fica com correspondência de vizinhos.
  • é claro que tem gente rica também (geralmente donos de grandes negócios). Mas eles jamais destratam serviçais, simplesmente porque aqui não há subcategorias menores, como no Brasil. As pessoas ricas também metem a mão na massa, por uma questão de filosofia mesmo.

No Brasil, ainda trazemos indícios da cultura escravagista; todo mundo quer ter alguém para mandar (e, de preferência, humilhar e maltratar, para mostrar quem é que manda). O que puder ser terceirizado, será. As pessoas contratam outras para fazer as coisas mais básicas, de levar cachorro para passear até levar o lixo para a rua; e isso é em todos os níveis. A moça que trabalha de empregada e mora na favela paga alguém para fazer faxina na casa dela; certeza.

(verdade: minha faxineira tem orgulho de dizer que não limpa a própria casa, tampouco passa a própria roupa)

É a cultura da sinhazinha moça e do senhor de engenho levada às últimas conseqüências.

Fico triste quando vejo a vida girar em torno na ostentação no nosso país; como as pessoas não têm vergonha de ganhar 30, 40, até 50 vezes mais que outras (sendo que boa parte é funcionária pública) e ainda acham isso o máximo; ficam esnobando o sucesso como se fosse mérito próprio, e não uma distorção do sistema. É um tal de quem consegue ganhar mais para comprar um carro maior, mandar o máximo que puder com uma prepotência totalmente alheia à realidade das coisas, que chega a doer. Seria apenas ridículo, se não fosse tão dramático.

A mordomia é irresistível (quem não gosta), mas qual é o preço disso tudo?

 

Fico vendo as notícias do Brasil e fico pensando: não seria a hora das pessoas acordarem e passarem a viver como ricos de verdade?

Das empregadas e nossa vida de primeiro mundo…

Em outro texto, há alguns anos, eu perguntava:

Não seria hora de começarmos a viver como no Primeiro Mundo?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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