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Adoro romances. Leio estudos, biografias, livros de receitas, revistas e jornais, mas efetivamente o que me apraz é ler romances, entrar na história de outrem. E vive-la como se fosse a minha.

Estou experimentando isso na leitura de Um toque na estrela, de Benoîte Groult (Editora Record). Ao ganhar o livro, na verdade uma provocação de um colega jornalista, senti simpatia pelo belo azul da capa e empatia imediata pela senhora da contracapa.

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Só depois li que o livro tinha vendido 450 mil exemplares na França, onde a tal senhora é uma figura conhecida, uma das mais importantes feministas de sua geração – nascida em 1920, foi uma das primeiras vozes a defender os direitos das mulheres em seu país.

A linguagem, ácida, não deixa de mostrar ternura ao nos apresesentar a realidade na qual se insere a personagem prinicipal, Alice, uma jornalista que se recusa a se aposentar da revista onde trabalha há décadas e onde é considerada aux concours por todos. As vicissitudes de sua vida ao lado do esposo Adrien e as histórias dos filhos Marion e Xavier, mesclam-se aos relatos sobre a percepção do envelhecimento.

Identifiquei-me de cara, não por ela ser mãe, mas porque eu já decidi, desde criança, que vou ficar para semente. Sempre digo que vou passar dos cem anos e esta é uma condição que me imponho na vida. Mas, ao ver como a personagem Alice, que poderia me dizer “eu sou você amanhã” em tantas coisas, me deparo com a realidade que já sou uma senhora estranha e anacrônica para muitos dos meus pares atuais.

“Sabe que, embora eu seja muito jovem, antigamente eu era mais jovem ainda? O que isso significa? Certamente existe aí alguma coisa terrível.”
Afirma Moira, o destino, citando Henri Michaux no capítulo 1.

Notar que a escritora é da “geração que não queria mais envelhecer, depois de tantos séculos em que os papéis nunca mudavam”. Você já pensou sobre isso? Que os nascidos no século XX viram o mundo mudar de tal forma que conheceram a descoberta da adolescência, a valorização da infância e agonizam conscientes de que a velhice é uma realidade inevitável e longa?

Até ler os relatos da autora, transcritos através das memórias de Alice, eu jamais tinha me dado conta de que a mudança fora tão forte e que pegara uma certa geração assim, de sopetão, sem tempo para respirar em nenhuma das etapas do caminho.

Apesar de ler que “dizer o que é a velhice é como tentar descrever a neve para quem vive nos trópicos“, Groult conseguiu me fazer experimentar parte dos dissabores e dos sabores da terceira idade. E eu gostei, sabem? Ri alto e gostoso ao ler sua luta com o computador e lembrei da Rolley Flex e do toca-discos (de até 78 rotações) da minha avó ao ler sobre sua Remington preta e dourada que virou enfeite do hall.

Lembrei de tantos objetos que minha amiga Thereza, uma vizinha de quase 80 anos que foi um oásis intelectual para mim na minha chegada a São Paulo, guardava e dos quais teve que se desfazer ao mudar de apartamento, rendendo-se à dificuldade de viver sozinha sem poder contar com a boa articulação na bacia. Uma mulher que sempre trabalhou, dirigiu seu carro, comandou sua família e sua vida e repentinamente – nem tanto, mas para ela se viu vencida pelo próprio corpo.

Fica a pergunta que me pareceu a síntese da reflexão:

“Como será quando esses velhos sobreviverem até os 120 anos, coisa que não vai tardar a acontecer?”

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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