Um tapinha não dói

Quem se lembra desta música infame? Ela era moda no primeiro verão do meu filho e lembro de uma vizinha poucos meses mais velha do que ele que com apenas um aninho dançava este funk e fazia a “pose” (de cachorra) batendo nas nádegas. Era deprimente. Aquela menininha, de quem não tive mais noticias desde que mudei do prédio, era uma possível vítima destes tapinhas que não doem – mas deixam marcas na personalidade da criança para sempre.

Outro dia, num comentário num relato de Vida Real do Mãe com filhos (e que, claro, não publicamos), uma mãe aconselhava a outra assim:

“Não sou a favor de violência, mas uns tapinhas ás vezes são necessários…Não tapinhas que machuquem, mas “tapinhas morais”…Entende ?!?”.


Não, gente, não entendo! Entendo que qualquer relacionamento deve ser construído com base no respeito. E respeitar fisicamente a pessoa é um dos princípios disso. Instruo meus filhos a não aceitarem que as pessoas abusem fisicamente deles – e isso vai além de abuso sexual ou bullying, diz respeito a tudo. Precisamos ensinar nossas crianças desde cedo que agressão e carinho não são a mesma coisa e que eles não devem aceitar um pelo outro. É como aquele conto do Roberto Shinyashiki da Carícia Negativa, do livro A Carícia Essencial (que pode ser lido aqui). Na falta de carícias positivas, o ser humano passa a aceitar as negativas (agressão física, maus-tratos, xingamentos, etc) para não ficar sem nada.

Quando vejo casos absurdos, como o do bebê agredido pela patroa da mãe (e a mãe era babá na casa da agressora!), da menina torturada em Goiás e tantos outros eu percebo que uma forma de pensar é ensinar às pessoas que ninguém merece a agressão. Não sei se este trabalho de formiguinha que fazemos nos blogs funciona, se conversar e orientar as pessoas que trabalham para nós ajuda, mas é preciso persistir. E, na dúvida, acionar Conselho Tutelar e outros órgãos competentes.


E o que é o Conselho Tutelar?

Projeto de Lei do Senado Federal, PLS nº 5.172/90, ele nasceu como “um órgão administrativo, permanente e autônomo, não jurisdicional, tendo por finalidade o atendimento dos direitos da criança e do adolescente”. Mas vejam, a lei diz também que: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

Gosto de pensar no Conselho Tutelar como um “bedel” da sociedade. Sua não é atender os direitos, é zelar para que os que devem cumpri-los o façam. Por isso, como explica André Karst Kaminski no site Âmbito Jurídico,  “os conselheiros tutelares necessariamente não precisam ser técnicos, nem ter qualquer formação universitária ou curso superior, seu trabalho é zelar, é ter um encargo social para fiscalizar se a família, a comunidade, a sociedade em geral e o Poder Público estão assegurando com absoluta prioridade a efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes, cobrando de todos esses que cumpram com o Estatuto e com a Constituição Federal”.

Dados do Unicef informam que 80% das agressões físicas são causadas por parentes próximos, numa conta que sugere que de hora em hora morre uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais. Estes dados internacionais não são desmentidos pelos nacionais, conforme mostra o Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (Sipia), que concentra  informações de denúncias dos Conselhos Tutelares de todo o país. Em 2007 a Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani) informava que 12% das 55,6 milhões de crianças menores de 14 anos são vítimas de alguma forma de violência doméstica por ano no Brasil – o equivalente à média de 18 mil crianças por dia.

Pesquisando sobre o tema, descobri também que o dia 04/06 é o Dia mundial contra agressão infantil. Quem sabe nesta data podemos fazer um belo movimento na blogosfera, numa blogagem coletiva e várias ações de adesão nas redes sociais? Quem se junta a mim nesta cruzada?


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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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