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Existem as mulheres fortes e as mulheres que ainda não descobriram a sua força

Sempre estive do lado feminino, até quando vivia rodeada de homens e por isso o @avidaquer tem uma história de mais de uma década falando de empoderamento feminino como uma das suas bases de conduta.

Para ajudar neste esclarecimento, contei até histórias minhas, muito pessoais, por aqui, como a da Delegacia da Mulher. E tenho feito campanha pelos direitos das mulheres em situação de vulnerabilidade social desde muito antes da Lei Maria da Penha ser aprovada. Uma década antes, por sinal, uma reportagem minha sobre a prostituição infantil na Tríplice Fronteira (aquela que a gente visita para ver as Cataratas e comprar bugigangas) ganhou prêmios no Paraná.

E neste trabalho de formiguinha, eu também sempre sugiro que esta “casa” é de todos e acolho por aqui histórias, relatos e impressões de quem estiver “buscando um lugar”.

Foi assim que o texto que publico hoje chegou a mim. Publico-o anonimamente, mas com a segurança de quem confia na autoria e na veracidade da história que não é só desta mulher, mas de muitas meninas mundo afora, aquelas que eu já contei que sofrem guardando “Segredos Segredíssimos” e as que precisam muito de nós para se reposicionarem na sociedade que lhes deu as costas em momentos de grande necessidade e profunda solidão.

eu amo a mulher que me tornei porque eu lutei para ser ela

Seria cômica, se não fosse trágica, a postura que tenho diante das diversas notícias sobre o assunto; dos links que pipocam na minha timeline sobre o assunto.  Leio cada palavra com um nó na garganta, com frio na espinha, com vontade de ir consolar a vitima e imaginando o que eu faria caso pudesse fazer com que o estuprador sentisse cada segundo de dor dela. Mas eu não me envolvo nessas questões, não opino sobre o assunto, eu realmente me calo.

Porque falar sobre é recordar as situações que passei – sim, no plural. É lembrar do choro queimando o rosto, da sensação de impotência, da dor física, da revolta, das lembranças que te acompanham por anos e que podem te pegar de surpresa, a qualquer dia, a qualquer hora.

Na adolescência meu comportamento mudou radicalmente. Perdi muitos amigos. Sem ter em quem confiar, inclusive na família, eu guardei tudo para mim. Há uns meses contei para uma das poucas amigas que sobraram dessa época e ela disse que agora fazia sentido a pessoa que me tornei. Eu descontei minha dor em todos, fui cruel até com meus amigos e, ao invés de ter nojo de sexo (o que eu sempre achei que seria mais comum), eu o utilizei para destruir toda felicidade que estivesse próxima, incluindo a minha. Magoei pessoas, destruí relacionamentos e fazia isso com um sorriso diabólico no rosto, com um cigarro no canto da boca e um copo de pinga com mel e limão na outra. Eu perdi muito peso. E enquanto não estava usando o sexo para castigar outra pessoa, eu escondia meu corpo. Eram muitas cicatrizes aparentes. Eu achava que merecia me castigar por ser cruel com os outros, mais ainda: eu achava que merecia sofrer por ter despertado o desejo de alguém que me era tão próximo e tão amado – e que era culpa minha ele ter abusado de mim por mais de meses, inúmeras vezes.

Bem aos poucos fui melhorando. Graças ao primeiro namorado que tive, eu relaxei, mas ele nunca soube de nada. No segundo namoro tive confiança para falar um pouco do que aconteceu, sem citar quem e isso me ajudou muito. Ele não podia voltar no tempo, mas ele soube lidar com meus demônios e me fazer acreditar que eu não era a pessoa horrível que eu estava tentando ser há tantos anos. E isso foi ótimo. Foi tirar um peso do peito de uma maneira que não sei explicar.

Então, em julho de 2008, após uma festa à fantasia open bar, meus amigos resolveram ir ao Chico Hamburger, ali em Moema, São Paulo. Eu não tinha comido nada o dia todo e o tanto que eu havia bebido tinha feito um estrago daqueles. Disse para minha amiga que ficaria dormindo no banco do carro, com parte das janelas abertas, pois achava que não passaria bem. E foi o que eu fiz, de uma forma tão profunda que só acordei mesmo quando tinham 4 mãos em mim. Duas estavam nos meus seios, outra apertava minha bunda e a outra estava dentro de mim. Eu dei um berro, fiquei sóbria em segundos. Saí do carro, comecei a xingar os 4 manobristas, sim eram 4 mesmo, de tudo que era jeito, perguntando se eles gostariam que fizessem isso com a mãe deles. Eles responderam categórico: “nossas mães não se vestem de puta”. Eu estava fantasiada de Betty Boop, alcoolizada e eles acharam que isso, por mais que eu estivesse dormindo dentro de um carro no estacionamento, lhes dava o direito de tocarem meu corpo. Eu gritei, chorei. Não havia ninguém. Estava sem celular. Voltei pro carro, tranquei todas as janelas. Engoli essa história junto com as lágrimas. No dia que o caso da jornalista do R7 veio à tona, contei para uma amiga. E só. Ela foi extremamente solidária.

Mas este não seria o último. Há poucos anos o mesmo algoz da adolescência ressurgiu, mas desta vez eu fiz um escândalo tamanho, bati, vociferei. Nada pior aconteceu. A não ser o fato de ser tragada pelas lembranças, de sentir uma dor, de vomitar e ficar dias em estado de choro. Meu marido perguntou o que eu tinha. Contei para ele. Tudo (com exceção da história do Chico Hamburger). Ele não acreditava, ficou perplexo. Ele me abraçou, chorou e pediu que eu o perdoasse por ele não estar lá para me proteger. Ficou em cuidados extremos. Não tentou sequer algo mais íntimo que um beijo cordial até que eu pedisse. Ele me pediu uma explicação: como eu tinha passado por tudo aquilo e ainda gostava de sexo do jeito que eu gostava. Não é fácil explicar até hoje, mas acho que é um pensamento que me deparo quase sempre.

Tenho em mim, ainda, o pensamento que as vítimas devem renegar sexo até o fim da vida. E acho que é o tipo de pensamento que deve passar na cabeça de tantas outras pessoas. Mas também sei que esta não é a verdade. Que por mais que eu sente com amigas e amigos na mesa de bar e fale de sexo como quem fala do tempo, que gosta muito de fazer sexo, quando o assunto abuso vem à tona, eu me transformo. Não entendo a lógica de um estuprador, mas se você usa roupa curta, bebe e gosta de sexo, você está dizendo sim para tudo e para todos. 

Amigos me perguntam porque eu caminho até 8km para ir ao trabalho ao invés de pegar ônibu,s/metrô/trem (lotado). E eu penso: é o medo! Medo de acontecer algo assim, medo da reação que posso ter e ainda passar por agressora (afinal, estamos falando de um país machista), medo da autoridade não fazer nada e eu ainda sofrer alguma ameaça por desacato à autoridade; medo do que possa acontecer – seja pegar uma doença, seja engravidar – e levar isso para o resto da vida. Andar nas ruas de São Paulo também não garante que não vá me acontecer algo, nada garante. Por isso é tão desolador ver notícias sobre este assunto. Eu não mudo mais meu comportamento, o jeito que eu me visto. Mas evito certos locais. Até prendo a respiração e aperto o passo quando estou na rua e escuto outra pessoa. Sorrio quando vejo que é uma mulher. Mas é desgastante viver prendendo a respiração, viver em estado de alerta permanente.

Mas a verdade, como pude sentir na pele, é que isso pode acontecer em qualquer lugar, vindo de qualquer pessoa. Solução? Não sei te dizer! Acho lindo quando as pessoas falem que isso vai mudar só por base da educação. Por motivos óbvios, penso diferente. A gente entende e se solidariza com muitas dores, mas só quando passamos por ela compreendemos certas coisas. Não estou defendendo crime combatido com violência. Mas com certeza é preciso mudar não só a base, como também o topo.

  

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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