Um divã para dois: comédia ou drama?

“Amar surge da paixão e se expressa nas atitudes conscientes de dedicação ao outro.
Amar não dói! O que dói é a percepção de que não somos amados.”

As frases acima são de um texto muito interessante de Carlos Messa que me lembrou o filme Um divã para dois, sobre o qual queria escrever aqui. O ponto de partida do psicoterapeuta faz com que lembremos de muitas relações – nossas, de familiares ou de personagens, como no caso do filme – nas quais notamos claramente que a dedicação não é retribuída e que o amor não está presente no cotidiano, há uma simbiose (raramente positiva) na qual as pessoas estão juntas por falta de opção ou de coragem para mudar.

Desde que vi a ficha técnica de Hope Springs (Um divã para dois, 2012), com Meryl Streep e Tommy Lee Jones como protagonistas e direção de David Frankel (de “O diabo veste Prada”), sabia que gostaria do filme. E esperava que fosse mesmo uma comédia romântica adulta, como Something’s Gotta Give (Alguém tem que ceder, 2003) e It’s Complicated (Simplesmente complicado, 2009), mas não tinha certeza se era daqueles filmes que valem a ida ao cinema. No entanto, fui ao cinema com os filhotes e descobrimos que o filme deles (Outback) era no mesmo horário deste, daí que meu marido e eu nos vimos, sem planejar, numa pequena sala de cinema cheia de casais de meia idade (entre 50 e 60 anos) e com muitas turmas de amigas nesta faixa etária também. Resultado: os comentários, cutucões, risadas e suspiros ao longo da exibição do filme foram um adendo incrível ao espetáculo da atuação do casal com seu terapeuta, vivido por Steve Carell.

Kay e Arnold são casados há muitos anos e vivem como “colegas de república”, cada um no seu quarto, dividindo o teto e as contas, mas sem intimidade ou companheirismo. Ela, doce e passiva, incomoda-se com o jeito do marido, que mantém uma rotina deprimentemente enfadonha e isolada, sem qualquer vínculo ou parceria com a esposa. Um dia, logo depois do jantar de aniversário de casamento, ela chega ao seu limite e toma uma atitude: compra um pacote de uma semana de terapia de casais com um prestigiado terapeuta de quem leu um livro que lhe encheu de esperanças de reviver o casamento.

E aqui vale um aparte: disse que o filme é uma comédia romântica adulta porque, de fato, as dificuldades sexuais dos casais estão lá, sem piadas escrachadas, mas igualmente sem meias palavras. A necessidade do sexo num relacionamento duradouro é um dos argumentos mais notáveis e a busca dos protagonistas é justamente por este desejo de intimidade que os reaproxime.

Sempre vale lembrar da frase atribuída a Quintana: “O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.”

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As aventuras desta semana são o recheio do filme, que diverte pela sua dramaticidade e exige que estejamos vivendo uma vida muito feliz em casa (ou estejamos ainda sonhando com ela) para podermos realmente nos divertir. Como me disse uma conhecida que está vivendo uma crise no seu casamento, é muito fácil se identificar e sentir profunda tristeza ao se identificar com a dificuldade dos dois de buscarem um entendimento e sairem de seus comportamentos empedernidos para buscar um encontro afetivo que deixaram lá atrás, mas ainda vive em seus corações.

Independente da sua situação pessoal eu realmente recomendo o filme. Tem as melhores qualidades de um roteiro de entretenimento, com beleza, doçura e diversão na medida certa, capazes de nos enternecer e criar a empatia que nos faz levar para casa o coração cheio de expectativas e a mente cheia de ideias em busca de uma realidade melhor.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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