Última parada 174

Quem não tem nada a perder não sabe quando parar.

Antes da coletiva da Mostra Internacional de Cinema eu tinha conferido a cabine (sessão para imprensa e convidados) do filme Última Parada 174, dirigido por Bruno Barreto (com roteiro de Bráulio Mantovani e direção de fotografia de Antoine Heberlé) e que é o candidato brasileiro ao Oscar. Adorei o filme, achei terno, verdadeiro e no tom certo para contar a história de dois meninos de rua que sobreviveram à Chacina da Candelária (ocorrida em 1993) e se viram como possíveis filhos da mesma mãe. A vida de um deles terminou no sequestro do ônibus 174 que foi um caso famoso e amplamente noticiado ocorrido no Rio de Janeiro em 2000.

No começo da tarde de 12 de Junho de 2000 o ônibus da linha 174 (Central – Gávea) ficou detido no bairro do Jardim Botânico por quase 5 horas, sob a mira de um revólver, por Sandro Barbosa do Nascimento. Dizem que ao entrar no ônibus ele só pretendia cometer um assalto, fato que o filme questiona. São muitas testemunhas de um garoto atordoado, completamente sem estrutura e sem referência que se vê acuado e reage como pode. Não estou perdoando seus atos – nem é meu papel julgar – mas me colocando no lugar do cineasta e do roteirista que mostraram uma história verídica de forma dura, mas sem recorrer ao clichê de sexo e violência explícitos, acreditando na inteligência do público que consegue antever o que o cinema não precisa sempre mostrar para ser compreendido.

É o caso de pensar na condição humana. Como disse Barreto,

“O drama dessas duas pessoas em busca de afeto e que tentam sobreviver em condições totalmente desfavoráveis poderia acontecer em qualquer lugar e qualquer época – na Inglaterra de Charles Dickens, na França de Victor Hugo, no Brasil, no século XXI.”

Por isso afirmo que o filme é terno sem recorrer ao velho truque de mostrar o Rio ao som de bossa nova. Aliás, como Sandro (Michel Gomes) cantava rap (sem nunca os guardar, preferia esquecer porque na verdade não sabia escrevê-los) a tônica fica na música de Gabriel O Pensador. Ouvir “Sou Playboy filho de papai…” no começo da história nos posiciona quanto à realidade da qual ele sai quando a mãe morre. Mesmo a pobreza é mostrada de forma natural, com os olhos dele, de quem não tinha nada.

No dia do sequestro meu filho mais velho completava um mês de vida. Mãe nova, recém retornada do exterior onde não vemos crianças nas ruas, sofri com sinceridade ao ouvir os relatos subsequentes da história. E hoje me coloco no lugar de Marisa (Cris Vianna), a mãe que pensou ter encontrado em Sandro seu filho Alessandro (Marcelo Mello Jr.) e no de Walquíria (Anna Cotrim) da assistente social que convivia com os meninos de rua. No começo da década de 1990 eu fui voluntária de uma ONG chamada Movimento dos Meninos e Meninas de Rua e os menores ainda viviam sob o impacto e o medo dos casos como o da Candelária e da morte do índio em Brasília. Sem dúvida, me transportei para aquela fase.

Recomendo o filme, sem dúvida. E quem quiser aproveitar para assistir, a Rede Brazuka (que promove o filme aqui) disponibilizou seis ingressos para sortear no A Vida Como A Vida Quer. Para participar basta contar o que faziam da vida na época do Sequestro do ônibus 174 e como o episódio repercutiu na sua vida (você também pode falar das reflexões que fez).  Vale comentário neste post ou post em seu blog (sem esquecer de linkar para eu receber o trackback). Valem os posts e comentários postados até as 23h59 de 24/10, estréia nacional do filme. (tá bom, vou viajar no final de semana, talvez fique a contagem fique para segunda, mas corram, o filme realmente vale a pena!)

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook