Torquato Divino Maravilhoso

Ele aparece em fotos ao lado de Gilberto Gil (como essa aí de cima), ao lado de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa e a gente se pergunta quem seria essa figura com cara de bom moço!

 

Não, eu não tinha ideia de quem era Torquato Neto antes de ver “Todas as horas do fim”, o documentário de cerca de uma hora e meia sobre o poeta piauense, que estreou nos cinemas hoje. Talvez você também não tenha. Saí da cabine de imprensa com vontade de escrever uma carta, pra ele, pedindo desculpas! Tardiamente, é claro: Torquato, filho de Heli e Salomé, um dos mais ativos letristas da Tropicália, pai de Thiago, deixou este mundo aos 28 anos, em 1972. Suicidou-se. Uma pena. Fiquei com a impressão que Torquato era mesmo divino-maravilhoso, levando seus poemas, suas dores, seu grito, para a música popular brasileira, onde encontravam espaço pra ecoar. E ecoaram, não resta dúvida. Muito possivelmente você já cantou os versos dele.

 

 

 

 

Saiu de Teresina pra Salvador e, de lá, para o Rio de Janeiro. Sonhava acompanhar os passos de Drummond, de Nelson Rodrigues. O menino que começou a escrever aos 9 anos tinha bom gosto e ambição. Seus impulsos procuravam o que era de vanguarda, junto aos baianos da Tropicália, junto de Helio Oiticica, junto do pessoal do cinema novo, junto de Augusto e Haroldo de Campos, de Décio Pignatari. Ele queria explodir com a linguagem, procurar novos suportes, romper com o passado, usando-o criativamente, criticamente.

O filme não nos carrega didaticamente, pela mão, revisitando a história do poeta. Isso, uma busca no google nos supre. Faz melhor: o documentário de Eduardo Ades e Marcus Fernando realiza um trabalho de montagem incrível, com cenas de filme, imagens de shows, fotografias – é claro, áudio de Torquato – certamente, narração em off com a voz do ator Jesuíta Barbosa, abrindo nossa percepção para o imaginário do artista.

 

“Todas as horas do fim” é o último verso de um de seus poemas.

No fim, podemos não entender o suicídio, mas entendermos a solidão de que ele falava, a incompreensão, o desajuste. Podemos não entender a morte, mas certamente, entendermos que viveu intensamente a vida. Podemos não entender o Brasil (essa geleia geral que, com perspicácia, ele apontou), mas nos orgulharmos do brasileiro inquieto, que nos anos 70 encarnou um Nosferatu de cabelos longos, diante das câmeras, como nesta foto diante da imensidão do mar, do mistério.

Apaixonadamente, Torquato lançou-se em direção à arte. Não teve amizade desfeita, não teve regime militar, não teve dificuldade financeira, bebedeira, nascimento de filho, viagem ou casamento que o parassem. Ele entregou tudo o que podia.

Obrigada, poeta! Obrigada, cineastas. Quanto mais penso e escrevo, mais me ufano. Mais quero conhecer vida e obra. Peço tempo pra preencher as lacunas das histórias que são nossas e nem conhecemos. Talvez também valha a pena o seu tempo.

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.