Os não objetivos educacionais 30 anos depois

Outro dia li um update de um amigo que trazia este texto, publicado por Tião Rocha há 30 anos.

Nele o educador, antropólogo e folclorista brasileiro, autor de obras de desenvolvimento cultural e comunitário, além de membro de várias organizações de fomento a iniciativas na área – como o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento/CPCD,  que trabalha com educação popular e com desenvolvimento comunitário a partir da cultura – fala sobre os não objetivos educacionais e nos ensina muito.

Há exatos 30 anos (1984) eu escrevi e publiquei os “NÃO OBJETIVOS EDUCACIONAIS”.
A estratégia era: se nós não os praticássemos, o resto seria lucro.
A questão era “não cair na vala” e reproduzir nas novas gerações o que se passou conosco.
Revisitando este documento, sinto que ele, infelizmente, ainda é atual.
Não Objetivos Educacionais:
• criar uma relação desigual (ou a dialética do “senhor-escravo”) entre crianças e adultos;
• fazer da criança um objeto do interesse dos professores e pais, vista como “ser sem vontade e vida própria”;
• repassar os nossos modelos e qualidades de vida como “soluções” para as crianças;
• pensar na criança como “página em branco” onde podemos escrever o “nosso” livro;
• ver a criança como “adulto que não cresceu”;
• cortar das crianças seus sonhos e criatividades;
• acreditar que nossos conhecimentos são únicos e verdadeiros;
• criar nas crianças o espírito possessivo de competição, concorrência e individualismo;
• produzir pessoas omissas, alienadas e sem identidade cultural;
• ensinar às crianças que “o mundo é dos mais fortes, mais espertos ou mais ricos”;
• podar o espírito crítico, observador e inquiridor das crianças;
• fazer das crianças e principalmente dos professores, eficientes e cordatos cumpridores de tarefas e repetidores de idéias e conceitos alheios;
• criar uma escola que seleciona;
• preservar o conceito de escola como um lugar “chato”, onde o autoritarismo reina, o castigo impera, a prepotência governa e a desigualdade domina;
• manter a escola como um lugar onde se entra, mas não se permanece; onde se matricula, mas não se continua; onde se estuda, mas não se aprende.

É isso:

“Escola é um meio, educação é um fim”
Tião Rocha

Tião abre o documentário Quando sinto que já sei (78 minutos, 2014, Brasil).

Trata-se do registro de práticas educacionais inovadoras que estão ocorrendo pelo Brasil, com depoimentos de pais, alunos, educadores e profissionais de diversas áreas sobre a necessidade de mudanças no tradicional modelo de escola. Questionamentos em relação à escola convencional e a percepção de que valores importantes da formação humana estavam sendo deixados fora da sala de aula foram os motivadores do “movimento”, que, por dois anos, levou os realizadores a conhecer a fundo iniciativas em 8 cidades brasileiras – projetos que estão criando novas abordagens e caminhos para uma educação mais próxima da participação cidadã, da autonomia e da afetividade.

Lindo, não? E me lembra o livro de André Gravatá, Volta ao mundo em 13 escolas, que tem download gratuito no site da Fundação Telefônica. 😉

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.