Ter filhos sobre duas rodas

Não estou acompanhando a novela Viver a Vida, mas fico sabendo de várias coisas pelo Twitter e pela imprensa, tanto que acompanho o drama vivido pela personagem de Aline Moraes (que tem até um blog) e sabia que a história dela é baseada na experiência real da jornalista paulista Flávia Cintra. Nesta semana uma matéria de Kátia Mello revivia uma parte importante da vida de Flávia: a maternidade. Tetraplégica, ela é mãe dos gêmeos Mateus e Mariana (de 2 anos e 7 meses) e conta na reportagem que sentiu uma nova forma de discriminação e preconceito quando engravidou.

Esta visão deve mudar. A psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi Maia, do Núcleo de Estudos em Sexualidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autora do livro Sexualidade e Deficiências, defende que o portador de deficiência pode levar uma vida sexual ativa e pode construir uma família, mas tanto a grávida como a mãe cadeirante sempre vão precisar de apoio adicional.

Especialistas são unânimes em afirmar: “Não deixe que amigos, familiares ou até médicos façam com que você não tenha um bebê”. E concluem: “Embora haja riscos de complicações relacionadas à gestação, você pode reduzi-los e administrá-los com cuidados de um pré-natal adequado e um planejamento apropriado”.

Embora respondam por uma parte grande da nossa população – são 6 milhões de pessoas, 27% do total dos 25 milhões de deficientes físicos – os deficientes com mobilidade reduzida ainda passam incólumes nas estatísticas. Segundo li, o IBGE ainda não discrimina o gênero dos deficientes e, no próximo censo, previsto para este ano, isso também não deverá acontecer. Talvez por isso os médicos também não saibam orientar tão bem os pacientes sobre a maternidade, que exige cuidados especiais.

Fiquei contente por saber que esta realidade pode mudar e não é só para quem pode pagar por isso. São Paulo inaugurará em março o primeiro serviço de atendimento à saúde da mulher com deficiência, num projeto piloto baseado no Hospital Municipal Maternidade-Escola de Vila Nova Cachoeirinha que será depois expandido para outros hospitais da rede municipal paulista. São camas especiais para exames ginecológicos, mamógrafo para que a gestante faça exames sem sair da cadeira de rodas e um equipamento (tipo guindaste) para transferi-la da cadeira para a cama. E me alegra saber que não é só maquinário: médicos, enfermeiros, terapeutas, psicólogos serão treinados e saberão atender a mulher cadeirante cientes de que ela não é diferente, apenas precisa de cuidados diferentes.

Lendo a matéria Ter filhos em Duas Rodas e acompanhando os relatos notamos que as dúvidas das mães são as mesmas, lembrando aquela frase que diz que “mãe é tudo igual, só muda de endereço”. Outra entrevistada, Marcela Cálamo Vaz (43 anos, paraplégica e mãe de Ricardo, de 10 anos, e Luís Felipe, de 5) relembrava:

“Será que vou conseguir trocar fraldas, será que vou conseguir colocá-lo sozinha no berço? E se eu derrubar meu bebê ou ele engasgar, quem virá para socorrê-lo?” Como ela dizia, “não é fácil ser responsável por outras vidas.”

Qual o segredo destas mães?  Um que talvez você também use: elas conhecem muito bem suas limitações e costumam criar soluções antes que os problemas apareçam. E ao invés de tentarem ser supermães e supermulheres, elas sabem usar a rede de apoio (família, babá, empregada) para fazer tudo dar certo sem se desesperar!

Creio que muitas de nós pode aprender bastante com esta atitude não é mesmo?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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