Tempos de paz

Um dos livros mais queridos que li na virada do milênio foi Saudades do Século XX, de Ruy Castro. Nasci no final do século, mas gosto demais de pensar sobre ele e descobrir as estórias por trás da história desta época que dividi com meus pais, avós e bisavós, que foi um dos períodos mais intensos da história da humanidade e cujas consequências meus filhos e netos vivenciarão.

tempos de paz toni ramos dan stullbach

Por conta disso, fiquei animada para ver Tempos de Paz, que trata de uma fase importante da nossa história. Exatamente aquela que foi o auge da vida profissional de meu avô Juca Hoffmann (que mesmo sendo filho de alemães, não foi considerado um inimidgo do Brasil, talvez por já ser dono de jornal e parlamentar na década de 1940) e a pior etapa da vida de meu Ditian Sadanori Shiraishi (imigrante japonês e cheio de opinião, o pai de meu pai foi um dos presos políticos no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, aliás, época em que meu pai nasceu). Como podem notar, esta época me cala fundo e por conta disso sempre leio sobre o período – e recomendo leituras como Olga e Corações Sujos, ambos escritos por Fernando Morais.

Tempos de paz, que acontece numa fase que antecede à rendição alemã, mas já mostra sinais do final da Segunda Guerra Mundial, tem como pano de fundo um combate à parte: de um lado Segismundo (interrogador alfandegário e ex-torturador da polícia política de Getúlio Vargas), de outro Clausewitz (um o ex-ator polonês confundido com um nazista fugitivo). A conversa acontece na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro e parte de uma insólita ideia: Clausewitz (Dan Stullbach, ator que eu admiro por outros papeis sensiveis) teria que provar para Segismundo (Toni Ramos, sempre excelente) que é um ator fazendo-o rir.

tempos de paz Daniel filho Tony ramos Dan stullbach

A coisa é insólita (e conta com a participação de Ailton Graça como Honório) tem um motivo: “o fim da Guerra é o que tira a paz de Segismundo”, que teme a vingança de seus ex-prisioneiros, presos políticos como o Doutor Penna (vivido pelo diretor do filme, Daniel Filho), “num triste retrato de um período crítico da história brasileira que fala do maniqueísmo e da luta pela vida”. Se você quer saber mais (não vou fazer spoiller porque realmente acho que todos devem ver o filme) aqui tem uma resenha ótima de Luiz Carlos Merten, que viu tanto o filme quanto a peça de teatro (Novas diretrizes em tempos de paz, escrita por Bosco Brasil) que insipirou o filme, que estreia nos cinemas no dia 14/08.

E quero deixar um agradecimentos e parabéns públicos para a equipe da Rede Brazucah que tem feito um excelente trabalho que visa estimular conexões entre o cinema brasileiro e seu público – e sempre chama players de mídia social para suas cabines de imprensa.

🙂

P.S. “Eu não imaginava que no Brasil as pessoas também obedeciam ordens!” Seria esta a visão que os imigrantes do século XX tinham do nosso país? Ao ouvir esta frase dita por Clausewitz (personagem de Dan Stulbach) no filme Tempos de Paz,   fiquei pensando na visão que estes novos imigrantes tinham do nosso país. Sabemos que, assim como a corte portuguesa se refugiou aqui nas Guerras Napoleônicas, na Primeira e Segunda Guerras Mundiais recebemos (de braços abertos e sem muito questionamento) imigrantes de todas a origens, com várias opiniões e expectativas sobre nosso país. É um tema para pensar e pesquisar. 😉

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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