a vida quer

kurosawa_hinamatsuri.jpgUma das primeiras imagens que tive do Japão foi do kimonô e de bonecas vestidas com toda formalidade. Adorava uma em especial, que minha mãe (apaixonada pela cultura japonesa) comprou na loja Tokyo, em Ponta Grossa, minha cidade natal. Era esguia, com a pele muito branca, um belo coque no alto da cabeça, postura altiva mesmo com um bebê (uma outra bonequinha também vestida de kimonô) preso às costas, à moda oriental. Reinava linda, maravilhosa, poderosa e inacessível no alto da “arca oratório” da sala de jantar. Enfim, um dia convencemos minha mãe de tirá-la de lá e acabamos desmanchando a seda com a qual era feita sua roupa, seu rosto, seu cabelo. Mas a imagem daquela mulher povoou sempre meu inconsciente.
Eis que um dia eu vejo no filme Sonhos (Yume) de Akira Kurosawa uma homenagem àquele modelo de boneca. Não era o mesmo, mas para mim, soou igual. Kurosawa relembrava nesta obra de vários sonhos que teve e neles estão retratos do imaginário japonês. Dois me remeteram imediatamente à minha Batian, às suas histórias cantadas em japonês (só depois traduzidas, muito resumidamente, para o português), e a tudo que minha infância teve de nipônico. O casamento da raposa (Kitsune) é um dos mais belos em fotografia. Batian falava que em dia de chuva e sol (não era casamento de espanhol), a raposa se casava e como não gostava que ninguém a vigiasse, trazia a chuva para espantar os bisbilhoteiros, mas deixava o sol para iluminar sua festa e a grandiosidade de seu cortejo. A imagem, que sempre foi linda da minha imaginação, é maravilhosa no filme!
O outro sonho infantil que Kurosawa conseguiu materializar foi o das bonecas do Hinamatsuri ganhando vida. Hinamatsuri é o festival das bonecas ou dia das meninas no Japão e é comemorado no dia 03 de março. A tradição, vinda da China mas há muito incorporada pelos japoneses, diz que a má-sorte pode ser passada para as bonecas neste dia e as pessoas podem se desfazer delas jogando-as no rio. Agora isto é traduzido em cuidados com as bonecas, caso contrário elas podem se vingar dos donos. A idéia é tão arraigada em mim que, confesso, por toda minha infância eu tive as bonecas mais arrumadinhas e limpinhas da região, mesmo brincando muito com elas. E nunca consegui pegar no sono sem antes coloca-las todas deitadas… risos. Como sempre tive insônia (fui uma criança bem notívaga), eu achava que não dormia porque elas estavam desconfortáveis… (gargalhadas!).
Ontem tive um dia tão cheio de trabalho e um começo de noite de atropelos que não pude postar, mas hoje eu o fiz no meu blog dekassegui, relembrando meu primeiro dia das bonecas lá no Japão, há dez anos, e deixando links para os posts de quem está lá neste ano.

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P.S. As imagens são pinturas do próprio Kurosawa da época da pré-produção do filme. Nele há outras histórias (fora Um raio de sol através da chuva – do casamento da raposa- e O jardim das pessegueiras – das bonecas do hinamatsuri) que merecem destaque: A tempestade – no qual alpinistas encontram-se com Yuki-onna, uma espécie de sereia da neve da mitologia japonesa – O Túnel – um dos três pesadelos retratados no filme, conta o drama de um oficial do exército – Corvos – belíssimo, com imagens de quadros de Vincent Van Gogh em ação – Monte Fuji em vermelho – outro pesadelo, desta vez um pesadelo nuclear – O demônio que chora – ultimo pesadelo, com uma recontagem pós-apocalíptica de uma clássica fábula budista de mesmo nome – O vilarejo dos moinhos.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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