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Temos uma tendência a pensar em gênios como seres atormentados por angústias existenciais, frustrações e solidão – a escritora Virginia Woolf, o matemático Alan Turing e até a fictícia Lisa Simpson são estrelas solitárias, isoladas apesar de seu brilho

Temos uma tendência a pensar em gênios como seres atormentados por angústias existenciais, frustrações e solidão – a escritora Virginia Woolf, o matemático Alan Turing e até a fictícia Lisa Simpson são estrelas solitárias, isoladas apesar de seu brilho.

A questão pode parecer um assunto que atinge apenas alguns poucos privilegiados – mas os conceitos e ideias por trás dessa impressão repercutem em quase todos nós. Eu me sinto especialmente tocada porque, mesmo sem ter nenhuma genialidade, sempre fui próxima de colegas que não cabiam no sistema e eram naturalmente excluídos. 

Há 15 anos sou mãe de um destes caras e olha, não é fácil. Não porque eles são complicados como Virginia Woolf ou Alan Turing (personalidades que dá para conhecer em filmes meio biográficos como As Horas e O jogo da imitação), mas porque a maioria deles sofre quieto, como Lisa Simpson, o fato de ser diferente de todo mundo.

E essa diferença é notável em muitos espaços, muito embora na escola ela seja mais visível e incômoda em muitos sentidos. Isso porque boa parte do sistema educacional ocidental ainda é direcionada a melhorar a inteligência acadêmica e, apesar de suas limitações serem conhecidas, o Quociente de Inteligência (QI) ainda é a principal maneira de medir habilidades cognitivas.

Não é incrível que, décadas depois de se falar em Inteligência Emocional e Múltiplas Inteligências, ainda tenha gente gastando fortunas em atividades de treinamento do cérebro para tentar melhorar sua pontuação?

Li um artigo que contava que questionamentos como esse que faço surgiram há quase um século, no auge da Era do Jazz americana, na época em que o teste de QI ganhava popularidade após ter se provado útil nos centros de recrutamento de voluntários durante a Primeira Guerra Mundial. E destes questionamentos surgiram um longo estudo (daqueles que acompanham a vida toda das pessoas) que nos dá uma visão melhor da realidade dos caras com alto Q.I..

Em 1926, o psicólogo Lewis Terman decidiu usar a prova para identificar e estudar um grupo de crianças superdotadas. Ele selecionou 1,5 mil alunos da Califórnia com QI maior que 140 – 80 deles com mais de 170 de QI. O grupo ficou conhecido como os “Termites”, e os altos e baixos de suas vidas ainda são estudados hoje em dia.

Como era de se esperar, muitos dos Termites cresceram para fazer fama e fortuna. Nos anos 1950, eles ganhavam um salário médio que correspondia ao dobro do de pessoas “comuns”. Mas, inesperadamente, muitas crianças no grupo de Terman preferiram profissões menos glamorosas, como policial, marinheiro ou datilógrafo. Os Termites também não foram particularmente mais felizes do que o cidadão americano comum, com os níveis de divórcio, alcoolismo e suicídio semelhantes ao da média da população do país.  

Nos anos 1990, quando alguns dos Termites tinham quase 80 anos, eles olhavam para trás e, em vez de se vangloriar de seus sucessos, diziam ter sido perseguidos pela sensação de que não corresponderam ao que esperavam atingir quando jovens.

A moral da história é que, na melhor das hipóteses, um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida. Na pior, ele pode significar uma sensação maior de vazio.

Isso não quer dizer que todo mundo com um QI alto seja um gênio torturado, como a cultura popular nos faz crer, tampouco que os benefícios de ter uma inteligência abençoada não aparecem como mágica a longo prazo.

Especialistas estudam o tema e uma explicação plausível para esta “promessa que não se cumpre”, é de que a consciência de alguém sobre seus próprios talentos intelectuais seja uma carga pesada.

Em "Mr. Magorium's Wonder Emporium" (A Loja Mágica de Brinquedos, filme de 2007) Natalie Portman é Molley Mahoney, um prodígio que trabalha como vendedora na loja de brinquedos de um cara incrível e crê que só ele tem a mágica de fazer as coisas acontecerem. Ela convive diariamente também com o garoto Eric Applebaum, vivido pelo ator Zach Mills, outro garoto fora da curva, solitário como ela, mas ainda jovem o suficiente para ter fé na vida. Uma referência do filme - um cubo de madeira, que pode ser qualquer coisa ou nada - se tornou um ícone para mim, um exemplo que usei tanto que meu filho já nem me deixa repetir. Mesmo sem falar, eu continuo achando absurdamente verdadeiro.

Isso me lembra outro filme e personagens que demonstram bem como é difícil e exigente ser diferente. Em “Mr. Magorium’s Wonder Emporium” (A Loja Mágica de Brinquedos, filme de 2007) Natalie Portman é Molley Mahoney, um prodígio que trabalha como vendedora na loja de brinquedos de um cara incrível e crê que só ele tem a mágica de fazer as coisas acontecerem. Ela convive diariamente também com o garoto Eric Applebaum, vivido pelo ator Zach Mills, outro garoto fora da curva, solitário como ela, mas ainda jovem o suficiente para ter fé na vida. 

Uma referência do filme – um cubo de madeira, que pode ser qualquer coisa ou nada – se tornou um ícone para mim, um exemplo que usei tanto que meu filho já nem me deixa repetir. Mesmo sem falar, eu continuo achando absurdamente verdadeiro.

Em "Mr. Magorium's Wonder Emporium" (A Loja Mágica de Brinquedos, filme de 2007) Natalie Portman é Molley Mahoney, um prodígio que trabalha como vendedora na loja de brinquedos de um cara incrível e crê que só ele tem a mágica de fazer as coisas acontecerem. Ela convive diariamente também com o garoto Eric Applebaum, vivido pelo ator Zach Mills, outro garoto fora da curva, solitário como ela, mas ainda jovem o suficiente para ter fé na vida. Uma referência do filme - um cubo de madeira, que pode ser qualquer coisa ou nada - se tornou um ícone para mim, um exemplo que usei tanto que meu filho já nem me deixa repetir. Mesmo sem falar, eu continuo achando absurdamente verdadeiro.

E para terminar minhas referências para quem convive com alguém muito inteligente, uma série de TV que tenho acompanhado e está na segunda temporada: Scorpion. A série acompanha a vida de um jovem e excêntrico gênio (Walter O’Brien, vivido por Elyes Gabel), o homem com o quarto QI mais elevado do mundo que resolve oferecer soluções para os problemas da sociedade, criando a Scorpion, uma empresa para a qual recruta pessoas com os melhores intelectos. É interessante vê-lo interagindo com a mãe “normal” (Paige Dineen, vivida por Katharine McPhee) de um garotinho superdotado (Ralph, vivido por Riley B. Smith), vivendo impasses e situações que são características da vida comum e ao mesmo tempo totalmente fora do convencional.

🙂

Katharine McPhee  Scorpoion serie sobre superdotados

iur-2A série mostra como a sensação de fardo – principalmente quando combinada com as expectativas dos outros – é uma constante para muitas outras crianças superdotadas, reforça a percepção do isolamento e é interessante para pensarmos como essa inteligência diferenciada pode ser usada de uma forma colaborativa e instigante, sem exploração nem intolerância. Coisas assim talvez ajudassem casos como o da menina-gênio britânica Sufiah Yusof. Admitida na prestigiada Universidade de Oxford aos 12 anos, ela abandonou os estudos na área de Matemática antes de se formar e começou a trabalhar como garçonete, mais tarde tornou-se garota de programa e ficou conhecida por recitar equações para os clientes durante o sexo. É um caso exagerado, eu sei. Mas nos mostra o quanto é difícil ser normal não sendo igual.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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