a vida quer

A primeira coisa que você precisa saber antes de ler esse texto é que eu nasci e fui criada na Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, que já foi considerado um dos mais violentos do Brasil. Hoje vivo do outro lado da ponte, mas são 18 anos de periferia contra meses em um dos bairros mais “chiques” da cidade e poucos anos no meio da classe média. Então, não consigo me sentir 100% daqui ou de lá, não consigo achar normal quando alguém diz que um trabalho mal feito é “coisa de favelado”, da mesma forma que não me enquadro nos termos “madame” ou “patroa”. E acho engraçado quando na feira ou no açougue o atendente sempre insinua que eu não moro aqui e que trabalho em casa de família. De certa forma, ele está certo, eu trabalho em casa e para a minha família e estou só de passagem. Sempre.

O que ainda me dói é ouvir, na aula de MBA de uma das instituições de ensino mais caras da cidade, comentários como “Empresas farmacêuticas costumam se instalar em bairros bem ruins, que só têm ladrão, como Parelheiros”, vindo de um professor que nunca deve ter atravessado a ponte, pego um ônibus ou conversado com alguém do bairro que ele criminaliza.

O que me dói é saber que muitas pessoas da Brasiândia ainda devem mentir o bairro onde moram, no currículo ou em conversas com amigos do trabalho, por medo de serem mal vistas ou, pior, excluídas de processos seletivos ou círculos sociais. Só quem já usou o velho truque do “moro perto da Freguesia do Ó” sabe o que é isso.

“Ah, mas esse comentário é uma exceção ou piada”, você, que nunca teve seu ônibus parado para uma revista policial às vésperas do Natal, pode achar que estou exagerando, mas hoje, eu ouvi uma história que retrata bem a situação em que nós ainda vivemos. Na aula de pilates, nesse bairro rico em que vivo, uma senhora de classe alta comentou: “Semana passada foram dois rapazes mal encarados limpar o ar condicionado do prédio onde trabalho. Perguntei se eram dessa região, porque estranhei a falta de ‘modos’, já que entraram olhando tudo, um deles se sentou numa cadeira sem pedir autorização ou ser convidado, e eles me responderam que não, que eram de uma COHAB (conjunto habitacional popular) não sei onde”, nisso a senhora fez uma cara de desaprovação, como se viver na periferia fosse atestado de mau-caratismo ou coisa pior.

E sabe o que mais? Ela continuou a sua história, que teve o seguinte desfecho: “acho que mais pessoas no prédio tiveram a mesma impressão, porque quando fui conversar com o síndico, ele disse que os rapazes foram mandados embora”. Nessa hora eu não consegui disfarçar a cara de indignação, mesmo sem falar nada. Ela, percebendo, tentou amenizar dizendo que eles não mandaram os rapazes embora, apenas dispensaram a empresa em que eles trabalhavam e contrataram outra, “melhor”.

Porque morar na periferia te faz “pior”, pensei, com os olhos cheios d’água.

Fui covarde, confesso, não consegui dizer uma palavra, me concentrei no exercício, para não extrapolar a raiva que eu estava sentindo.

A mesma senhora que reclama que os jovens da COHAB não têm modos e faz com que eles percam o trabalho, é a que depois os acusa de não trabalhar e de viver as custas do governo. O mesmo professor que diz que em Parelheiros só tem bandido e reclama pelas empresas escolherem bairros afastados, também fica puto com as faixas de ônibus “beneficiando os pobres”, que precisam cruzar a cidade para conseguir trabalhar. Mas, quer saber, nada disso que me deixa tão puta quanto a imagem que eles continuam pintando de nós, que nascemos e fomos criados na periferia, que, independente de ficha criminal, somos taxados como “culpados”, pela exclusão que nos submetem diariamente.

Eu não vivo mais na periferia, é verdade, mas o que eu aprendi lá vive em mim. E isso é motivo de orgulho e alegria.

Não será nenhum professor, madame ou outra pessoa que fará com que eu me envergonhe de ser quem eu sou, de vir de onde eu vim, de ter aprendido na prática que pontes são feitas para aproximar as pessoas, não para dividí-las.

Como diz a música do Marcelo D2:

“Nunca esquecer de onde eu venho, nunca esquecer do meu empenho, nunca esquecer da família e dos parceiro, nunca esquecer que eu já fui feliz sem dinheiro.”

Aproveito esse post para divulgar o lançamento do livro “Um país chamado Favela“, do meu amigo Renato Meirelles com o Celso Athayde, que ajuda a rebater o preconceito com base em números e fatos sobre quem vive nas periferias. Em São Paulo, o evento será na próxima quinta-feira, dia 7 de agosto, a partir das 18h30, na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi. No Rio, o lançamento será dia 14 de agosto, a partir das 19h30, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. O livro também é recheado de boas histórias de superação e do dia a dia das favelas no Brasil, que movimentam impressionantes 63 bilhões de reais por ano. Eu vou, e você?

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.

@talitaribeiro

Apaixonada por palavras e viagens, gestora em formação, jornalista não praticante, esposa, amiga, prima-irmã, filha, neta, futura tia e mãe.

Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas