a vida quer

SunFlower_Hope

No final de fevereiro de 2015, tivemos uma notícia maravilhosa! Gravidez do nosso primeiro filho. A felicidade foi tamanha e a montanha russa de emoções também.
Tive sono, não tive enjôos, tive desejo de salada, muita salada. Foram dois meses intensos…

O choque veio quando, no começo de abril, em um exame de rotina, descobri que a gravidez não havia desenvolvido como esperado. Aborto retido, é o que chamam. Eu estava grávida, mas não estava mais, deu para entender? Tive que esperar meu corpo expelir o saco gestacional.

Não foram dias fáceis, optei pelo processo natural, que era demorado e bastante dolorido e não quis fazer nenhuma intervenção cirúrgica. E é sobre isso e todas os sentimentos pós aborto que eu queria falar hoje.

Sou casada há sete anos com meu melhor amigo, uma das melhores pessoas que conheço nesse mundo, que me faz rir, que me constrange de amor, que faz questão que eu seja a mulher que eu quero ser, sem me podar, apenas me apoiando. E ouvir dele que o corpo era meu, que deveria optar pelo o que fosse melhor para mim, com o aval do médico (claro), e que ele estaria ao meu lado não importasse a situação, fez MUITA diferença. Só não posso dizer que fez toda a diferença porque nesse processo, eu tive minha mãe, meu pai, minha irmã e meus dois irmãos do lado, o tempo inteiro. Sem contar com uma rede de solidariedade incrível de familiares e amigos mais próximos. Também sou abençoada em ter um plano bom, que me fez ter a opção de ir num ótimo hospital.

Sei que sem esse apoio constante, eu não teria conseguido superar essa fase. E sei que Deus esteve em todo o tempo colocando as palavras certas nas bocas dessas pessoas e se fazendo presente por meio do cuidado que eu recebia deles. Eu não mereço tanto, mas a Graça, esse favor imerecido, faz com que as coisas fiquem mais leves. Durante todo esse tempo, evitei escrever sobre, mas penso que esse não seja um assunto para ser guardado a sete chaves e, ao contrário do que possa parecer, não sou egocêntrica o suficiente para achar que as pessoas “merecem” ou “devem” ouvir meu lado da história. Apenas sinto que esse assunto ainda é um tabu e, para muitos, motivo de vergonha ou fraqueza.

Tive um excelente apoio da equipe médica que me acompanhou em inúmeros plantões. Mas também tive algumas poucas experiências com médicos que me chatearam bastante. Um deles disse, na maior frieza e enquanto eu chorava, que quando eu começasse a sangrar era para ir ao hospital. Sei que era o procedimento, mas ele foi tão frio e sem paciência que não conseguiu explicar o caso para meu marido e eu fiquei com a missão de detalhar tudo para ele. Levei um choque de realidade de uma médica. Sim, uma mulher. Eu tinha acabado de abortar e ao perguntar se teria algum perigo ficar sangrando daquele jeito, ela secamente respondeu “sim, perigo sempre tem, você pode sair e ser atropelada”. Simples assim. Sem nem uma palavra minimamente amorosa. E eu pensei: “fui atendida por homens que foram muito mais agradáveis que essa mulher”. Eu estava sangrando e ela disse que eu “poderia seguir a vida normalmente”.

Eu não liguei para o que ela disse, sabia do apoio que teria em casa e no trabalho. Mas foi inevitável pensar no número de mulheres que passam por algo parecido e não têm nem um pouco do que tive. Não deve ser nada fácil para elas. Essa necessidade que temos de “ser fortes” acaba de um jeito tão maldoso conosco. A médica não precisava me abraçar e dizer que estava tudo bem, mas poderia apenas me olhar não como uma mulher fraca que acabou de abortar e está fazendo drama demais e sim como uma mulher que passou por um momento difícil e que estava tendo a pior dor da vida (e olha que eu já operei dos rins) e apenas ser solidária.

Talvez sejamos tão ensinadas a olhar a outra mulher como inimiga, como fraca, como indigna de algo que sequer percebemos que muitas vezes somos más umas com as outras. Precisamos mostrar que somos fortes, que damos conta do recado, que conquistamos o mercado, que aguentamos trancos e barrancos. Mas quer saber? Não precisamos de nada disso. Só precisamos de um pouco de amor, solidariedade, empatia e gentileza. Não deveria ser tão difícil.

Se você passou por isso e não teve um rede de apoio como eu tive, não se sinta só. Vai ficar tudo bem. Sério. Pode parecer clichê, mas a verdade é que tudo nessa vida, vira aprendizado. Se você tem vergonha ou medo de falar sobre isso, porque não quer parecer fraca, não precisa se sentir assim, sinta-se abraçada. Se você tem uma experiência parecida, mas não quer falar ou escrever sobre, tente apenas abraçar a mulher que passar por isso e dizer que vai ficar tudo bem. Se você (homem ou mulher) nunca passou por isso na sua família, não se sinta no direito de julgar o que a outra pessoa está sentido, apenas tente praticar um exercício de gentileza e amor e escute o que a pessoa quer falar.

Como uma pessoa que amo muito me lembrou ao ler esse texto, a oração tem um poder que não podemos esquecer. Por muitas vezes, mesmo com todo o apoio e amor que tive, pedir a Deus em silêncio que a dor passasse foi determinante. E quando eu não tinha palavras, ter alguém para orar por mim e comigo foi o que me confortou e alegrou.

Importante lembrar que eu não sou especialista em nada e que sou apenas aprendiz na vida. Estou bem, tenho uma família maravilhosa e amigos verdadeiros que conseguiram fazer as coisas ficarem muito tranquilas, apesar de tudo. Confio e transbordo de alegria e gratidão ao saber que todas as coisas cooperam para meu bem. Se você passou por algo parecido e quer conversar, estou aqui. E é sério, vai ficar tudo bem 🙂 Tenta não esquecer disso!

Cuidem de continuar a crescer no Senhor, e tornem-se fortes e vigorosos na verdade. E que a vida de vocês transborde de alegria e gratidão por tudo quanto Ele tem feito. (Colossenses 2:7)

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Sara Martinez, 30 anos, jornalista, cristã, “mãe” do cachorrinho Billy. Escreve sobre o amor que sente por São Paulo no @pelocentro, onde compartilha dicas da cidade juntamente com sua irmã. Gosta de desenhar palavras coloridas no @fasesinfrases. É maratonista profissional de seriados no Netflix, inscrita em mais canais do que consegue assistir no YouTube e leitora apaixonada. No Twitter e Instagram: @sarafcmartinez.

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