“Menos, mãe, menos”… O que seu filho diria sobre o sharenting?

“Sharenting é uma corruptela de duas palavras em inglês usada no texto do Guardian fazendo uma combinação entre a maternidade/paternidade (“parenting”) e o compartilhamento non stop (“sharing”)”

sharenting

Em 2009 participei de um debate numa Campus Party e uma das participantes acabara de lançar um livro que reunia textos feitos para o filho desde a gestação. Eu vinha já de 4 anos de blog sobre consumo de cultura em família e 2 anos num site colaborativo de pais que desabafavam suas histórias. O que na época comentamos foi que os filhos iam nos cobrar pela falta de privacidade e de “propriedade” das suas histórias de vida, pois, de certa forma, nós, como coadjuvantes desta história (Os pais são coadjuvantes ou “coprotagonistas” da história dos filhos?) contávamos tanto que ela deixava de ser deles. E olhem que nosso foco era comportamental, nada de contar detalhes como o desfralde e outros embaraços daqueles que antigamente se restringiam ao álbum de fotos do bebê que a mãe mostrava para a visita num jantar entre amigos.

Esta história me veio à mente quando li o post do youPIX “Sharenting: por que compartilhar tudo da vida do seu filho pode ser um problema?” que levantava questões interessantes sobre o fenômeno das mães e pais em tempos de Instagram – se bem que desde o Fotolog e o Orkut isso acontece, mas as novas redes sociais super integradas nos fazem ver mais vezes as mesmas “fotos de bebês e crianças fazendo bebecices, criancices e fofices ilimitadas”.

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A questão nem é o quanto eles invadem a timeline do seu Facebook e Instagram em um dia qualquer (porque com filtros e listas para ver os updates você resolve isso num instante, como já ensinei aqui), mas o fato de que a era do Sharenting nos leva algumas questões, tão sérias quanto as que nos incomodavam há pouco tempo, como o acesso à pornografia e imagens pesadas que pululam na internet e a gente gostaria de evitar que as crianças vissem. Como lembra o texto, se antes o medo era “não deixar que as crianças vejam”, agora a preocupação é evitar que “as crianças sejam excessivamente vistas”.

(Sim, eu posto fotos dos meus filhotes, meu instagram pessoal tem imagens de família, mas eu periodicamente revejo e até apago algumas e tento evitar fotos que exponham demais a imagem deles… não sei se ajuda, mas me mantém alerta pensando antes de postar, o que já me policia na “corujice” e já postei sobre os 11 mandamentos do Instagram)

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Veja alguns motivos para você pensar bem antes de postar aquela foto linda do seu bebê:

  • Privacidade e segurança: desde o fotolog e o orkut eu sou daquelas que avisa os amigos quando vê uma foto da criança usando biquini ou em situação que pode incentivar pedófilos. Em particular, se tenho amizade suficiente, comento: “Não seria melhor tirar esta foto do ar? Ela pode atrair pessoas que você não queria e ser alterada digitalmente…” Parece exagero, mas não é! Como lembrou o texto do youPIX, a internet também é conhecida como Terra de Ninguém e a coisa mais fácil do mundo é alguém usar uma imagem online para qualquer tipo de coisa.
  • Vaidade Doriana: li alguns posts recentes que falavam exatamente desta obsessão #minhavidaéincrível que o youPIX definiu bem como “sair espalhando pra meio mundo de gente que seu arco-íris tem mais cores, que seu sorvete é mais gelado e que seu sorriso tem mais dentes” – e aproveitar que foto de criança sendo criança na internet rende muito mais “likes” que a imagem do seu café da manhã. Quer repensar? Vale ler o post da Silma Matos, “Família Doriana, detergentes e afins“.
  • Formação de caráter – na minha infância quem tinha tudo era chamado de mimado. Hoje além de ter tudo, as crianças contam com uma assessoria de marketing para mostrar que o “seu tudo é top” – e sobre este tema vale ver o post da Milene Massucato, Ela é top, capa de revista: mãe blogueira“. Meus filhos costumavam pedir para eu fotografar suas esculturas de LEGO e massinha de modelar, assim como digitalizar desenhos, mas a geração atual pede para ser fotografada e sigo algumas crianças no Instagram que mostram o tédio das suas vidas com “egoshot” de suas próprias fotos no espelho ou da “cara de ai, que saco” feita com a câmera frontal do celular…. será mesmo que até o ócio e a vida vazia precisam de registros ao longo do dia?

Creio que não. E concordo com a preocupação de especialistas em comportamento, como a que cito abaixo:

“Parte da forma como uma criança forma sua identidade envolve ter informações privadas sobre si mesma e ter a garantia de que isso continue assim. Esta condição está sendo destruida pelas mídias sociais. Não diferenciar o público e o privado pode ser muito perigoso [para a formação da personalidade].”
Aric Sigman, psicólogo, na reportagem The pros and cons of ‘sharenting’

Para todos nós, pais, vale a dica do youPIX que, como um “mea culpa”, republico ipsis literis:

#FicaADica: antes de postar a próxima foto do seu filho em alguma rede, pare e pense até que ponto isso é de fato um momento de registro ou uma exposição desnecessária de quem ainda não tem idade pra dizer: “menos”.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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