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Alguns personagens as redes sociais aproximam da gente de um modo incomparável. Ao acompanhar uma figura pública no seu perfil podemos ter uma percepção real de seus valores – ou daquelas que a pessoa autoriza seus redatores mostrarem! – e vsmis descobrindo afinidades e diferenças também.

Foi assim que me aproximei das ideias da juíza da Vara de Família Andréa Pachá e, embora muitas vezes eu discorde das suas posturas politicas, gosto da forma como ela traz para o leitor a realidade das histórias comuns dessa área do Direito no Brasil.

  

Há pouco tempo descobri seu livro ‘A vida não é justa’, no qual a juíza nos apresenta “casos e acasos de histórias que presenciou em seus anos de profissão”. 

Filha de pais separados que conseguiram se manter próximos para preservar a família para os quatro filhos, me vi nessa pergunta que é um dos motes do trabalho:

Será que existe mesmo justiça quando o amor acaba e um casamento chega a seu fim? 

Quando sofre violência, quando tem coragem de denunciar e é desqualificada, quando volta atrás e perdoa a mulher acaba sendo responsabilizada sempre. Sofre porque é mais fraca, sofre porque é sozinha, sofre porque desiste, sofre porque não sabe o que deseja.Sofre porque é apedrejada e julgada por outras mulheres.Vamos interromper esse ciclo perverso. A culpa pela violência de gênero é sempre do agressor. E ponto.
E como aqui no blog falamos, desde antes da Lei Maria da Penha, sobre a violência doméstica, com coação física ou moral, trago uma das histórias da juíza para mostrar um pouco das obras dela. 

  
MAS EU AMO AQUELE HOMEM…

Andréa Pachá – A vida não é justa

Ed. Agir
  Naquele dia, Marli respirava melhor. Arrumada e maquiada, o único resquício das marcas avermelhadas do mês anterior só podia ser percebido por quem então a tivesse visto.

  A lembrança do rosto roxo e do braço queimado pelo ferro de passar eram imagens que nunca consegui esquecer. Mas o pior foi o olhar de Marli, opaco e constrangido. Se fosse dado aos olhos o direito de falar, aqueles confessariam um sentimento de culpa e medo. Marli tremia. Sentia-se responsável pela humilhação que sofria.

  Mais de dez anos de casamento. Um histórico de violência permanente. A primeira agressão veio logo após o nascimento do primogênito. Preferiu calar. O choro do bebê estressava mesmo. Tinha certeza de que não voltaria a acontecer. Foi só uma sacudida. Ele estava nervoso. Não tocaram no assunto e, depois de um tempo, a vida retomou seu rumo.

  Toda dor sepultada no silêncio cria raízes profundas. Ainda que permaneça embaixo da terra durante algum tempo, um dia, de repente, brota devastando a superfície ao redor.

  Foi o que aconteceu. Tempos depois, alimentada pelo silêncio e pelo medo, a violência emergiu com nova roupagem. Desfilava na passarela de um circo dos horrores, ora vestida de ameaça, ora de agressões verbais. Em algumas ocasiões, com poucas luzes e nenhuma plateia, os trajes de violência física machucavam o corpo e aniquilavam a alma.

  No início, Marli acreditava, sinceramente, na transitoriedade da dor. Mas, alimentado pela omissão, o domínio de Estevão se ampliava e confinava a mulher numa prisão sem trancas aparentes.

  Algumas poucas vezes ela pensou em reagir, em falar com alguém, em procurar a Polícia. Tinha vergonha. Suas amigas jamais a perdoariam por ter ficado tanto tempo calada. Sua mãe não aceitaria sua submissão voluntária. Todos cobrariam uma reação da qual ela não era capaz. Sentia-se culpada porque era vítima.

  Fragilizada, o único colo que encontrava, por mais paradoxal que parecesse, era o do próprio marido. Passado o estado agudo da violência, Estevão a acolhia. Chorava. Enchia-lhe de carinho e jurava nunca mais. No final, ela pedia desculpas. Muitas vezes, se amavam.

  O ciclo não terminava. Possivelmente, a roda giraria até o fim da vida dessa forma, não fora a publicidade do último descontrole.

  Acordados pelos gritos da mãe, os filhos correram para o corredor do prédio. Pediram ajuda. A vizinha ainda chegou a tempo de assistir a uma cena que jamais esqueceria: o ferro cauterizando o braço de Marli, sob o comando feroz e irracional de Estevão.

  Polícia, delegacia, corpo de delito. Não era possível retroceder.

  Ainda não havia a Lei Maria da Penha. Algumas mulheres eram humilhadas quando recebiam o julgamento dos seus processos, que terminavam com a condenação dos agressores ao pagamento de cestas básicas. Outras, ainda nas delegacias, eram desencorajadas a fazer registro da ocorrência, com a pergunta inoportuna:

  – Mas aposto que a senhora provocou ele, não foi?

  Marli precisava, com urgência, do afastamento de Estevão da casa. Procurou uma advogada. Num átimo de coragem, vomitou toda a dor experimentada em quase uma década.

  Marquei uma audiência sem a presença do marido. No início, envergonhada, Marli não conseguia falar. Só chorava. Procurei deixá-la mais à vontade. Disse que estava acostumada com situações como aquela. Tentei minimizar a importância da sua experiência. Infelizmente, os processos de violência doméstica eram muitos. Eu mesma já presenciara violências mais perversas (como se fosse possível comparar a dor).

  – Marli, nada do que você contar vai me surpreender. Essas coisas acontecem com gente. Você não é a primeira e, lamentavelmente, não será a última.

 O relato de Marli me embrulhou o estômago. Fortalecida pela minha intervenção, ela narrou com detalhes a agressão sofrida. O medo, os socos, os pontapés, a humilhação do rosto sangrando na frente das crianças, o desespero que a levou para o corredor onde, diante de perplexos vizinhos continuava a apanhar sem reação ou resistência.

 Não tive dúvidas. Afastei Estevão de casa e o processo seguiu.

 Na sua resposta, o marido tentou desqualificar a denúncia. Era um homem de bem. Trabalhador, excelente pai, nunca deixou faltar nada em casa. Vivia para a família. O descontrole causado, possivelmente por algum medicamento, foi isolado. Sentia-se injustiçado. Saiu de casa como um criminoso. Não concordava com a separação.

 Agora, estávamos ali. Prestes a começar a audiência para decidir se o afastamento do lar seria definitivo. Embora todos tivessem sido intimados, apenas Marli e sua advogada estavam presentes.

 Antes de iniciar a sessão, a advogada pediu a palavra:

 – Excelência, eu estou aqui hoje apenas para cumprir minha obrigação profissional.

 O tom da voz era grave. Presumi que havia algo errado. Ela prosseguiu:

 – Não tenho muito a dizer. Trouxe dona Marli aqui para que ela explique a decisão que tomou.

 Marli enrubesceu. Num sussurro, me confidenciou que pensara melhor. Gostava muito de Estevão. As crianças sofreriam com a separação.

 – Ele está muito arrependido, doutora. Aprendeu a lição. Nós vamos tentar outra vez.

A advogada interrompeu e, com toda autoridade, sentenciou:

– Já avisei para ela que, se apanhar de novo, não me procure!

A advogada estava pessoalmente agredida com a decisão de Marli. Sentia-se desprestigiada. Como mulher e como profissional, não podia admitir a hipótese de um retrocesso naquele contexto.

Marli me olhou nos olhos e concluiu:

– O que é que eu posso fazer doutora? Eu amo aquele homem…

– Doutora – falei para a profissional –, nós não estamos aqui para julgar a sua cliente. Cada um é livre para escolher o seu caminho.

– Marli, a opção é sua. O que eu posso fazer é garantir que, se não funcionar e você voltar a ser agredida, eu o afasto novamente de casa. Por favor, fique atenta. Você não é obrigada a se separar. Muito menos é obrigada a se submeter a qualquer violência.

Prossegui:

  – Se você permitir, deixo uma sugestão que pode ajudar. Procura uma terapia. Se fortalece! Qualquer escolha é mais verdadeira quando se tem liberdade e autoestima. Amor só rima com dor nas poesias. Não é possível amar quando um se submete ao domínio do outro. Pensa nisso…

  Ultrajada, a advogada não se conformava com a escolha de sua cliente. Foi um processo difícil, as provas eram favoráveis. Sairiam vitoriosas. Como Marli jogava no lixo todo aquele tempo de trabalho e dedicação?

  O argumento final veio de Marli. Encarando sua patrona, falou:

  – Doutora, eu entendo tudo o que a senhora disse. Eu sei, também, que não quero nunca mais passar a humilhação que passei. Mas ele me prometeu, jurou mesmo que nunca mais me encosta a mão. Eu prefiro acreditar.

Olhou nos meus olhos e encerrou:

-A gente não escolhe aonde coloca o desejo.

  Pensei em fazer um discurso sobre igualdade e justiça. Não era o palanque adequado. Desejei boa sorte. O combate à epidemia da violência de gênero precisava de ações políticas mais abrangentes e efetivas. Marli, naquele momento, só precisava de coragem. E compaixão.

(Creditos: a história e as imagens são do Facebook público de Andrea Pachá)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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