Ser gay é estar numa sinuca de bico! (por @maxreinert)

Olha…. não tá fácil! Ultimamente, “ser gay” no Brasil tem sido uma situação, no mínimo, confusa. Todos os dias pipocam histórias, notícias, acontecimentos, bizarrices que nos provocam as mais distintas sensações para a “comunidade”.

Fernanda Montenegro na novela Babilônia

Por um lado, temos a fantástica notícia de que o STF enfim reconheceu o direito à adoção de casais homoafetivos. É mais um passo para que os homossexuais sejam tratados de maneira igual perante a lei. Nem melhores, nem piores. Nem babás de luxo, nem pais solteiros. Apenas um casal homoafetivo que tem desejo de adotar uma criança e que, agora, vai poder passar por todos os trâmites legais (como qualquer outro casal interessado em adotar) para oferecer um lar para alguma criança que precisa dele.

Ainda olhando pelo lado positivo, temos a estreia de uma novela “das 9”, na principal emissora do país, que traz duas personagens maravilhosas interpretadas por Fernanda Montenegro e Natália Timberg. Com idades para serem nossas avós, elas mantêm um relacionamento na trama de mais de 30 anos e – o horror, o horror – ainda demonstram afeto e já protagonizam um beijo gay no primeiro episódio do folhetim. Ou seja, não há possibilidade de levantar uma discussão de forma mais consistente do que essa. São duas divas, com carreiras imensas interpretando personagens e defendendo-os brilhantemente. Ponto pras meninas!!!

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Só que daí, junto com esses avanços, começa a aparecer o pavor travestido de “moral e bons costumes”. Como contra cara da decisão do STF, temos o tal do Estatuto das Famílias, que segue sua infame sanha de definir núcleo familiar formado por um homem e uma mulher.  Temos também a declaração infeliz de Domenico Dolce – estilista da grife Dolce e Gabbana – exaltando a família “tradicional” e atacando a inseminação artificial. Temos a bancada evangélica fazendo moção de boicote para a novela….se bem que, tudo isso já meio esperado.

O que apareceu de inusitado nesses dias foi perceber uma grande parcela de homossexuais “questionando” o “mau gosto” de colocar duas senhoras “velhas” se beijando na novela (a quantidade imensa de aspas é proposital). Essas “beeshas” – eu posso chamar assim, sou viado, me deixa – dizendo que é um desrespeito esta cena ter ido pro ar! Sim…. vocês leram corretamente: “gays”, “beeshas”, “viados” reclamando da cena que já é praticamente um marco na história da teledramaturgia brasileira.

Como disse o Wilson Nemov, neste post aqui, “(…) Quando duas pessoas como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg colocam mais de 50 anos de carreira em jogo pra lutar por vocês, chega a ser vergonhoso que vocês não revejam o modo que pensam sobre si. Duas das pessoas mais respeitadas do país não se importam em serem chamadas de “velhas safadas” no auge dos seus 80 e alguns anos. Será que você, com 20 e poucos, devia mesmo estar se escondendo?

Outra coisa que me saltou os olhos foi a quantidade de amigos e conhecidos que vi reclamando por postagem sendo excluídas do facebook (até tu, Mark?). Os casos que acompanhei iam de simples desabafos até denúncias por violência… o que os unia? A questão da homossexualidade.

O mais emblemático deles, até por ser uma postagem pessoal e nem um pouco explícita, foi a de Luciano Almeida (não tenho o link), que dizia o seguinte:

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Voltando de uma festa meus amigos comentaram: Nossa, tinha muito viado hoje. Sendo que de 600 pessoas naquele lugar não lembro de ter visto nem 10 gays. Quando eu entrei em publicidade, disseram que só tinha viado no curso. De 120 calouros não tinham 15 gays. Já devem estar dizendo por aí que “na novela só tem viado”, sendo que de uns 100 personagens 7 são gays. Ser viado é isso. Estar presente e visível já é lotar um ambiente. Basta existir que já acham que você é demais.

 

Como comentei esses dias com Samanta Shiraishi, quando conversávamos sobre essa imagem aqui acima, acho que o processo de conquista de direitos iguais tem dado mais  coragem para os homossexuais se assumirem como tais (sim… longe das grandes cidades ainda existem imensos armários que estão se abrindo somente agora). Não é uma questão de terem mais ou menos gays no mundo. Mas sim, não se envergonhar de ser como são e se mostrarem inteiros para a sociedade. Como já disse a personagem de Fernanda Montenegro na novela, “a sociedade tenta esconder pessoas como eu. Não consegue. Não vai conseguir nunca.”

Então, é preciso ficar atento com esse desejo de invisibilidade. Essa pretensa invisibilidade que a frase solicita, no sentido de “somos todos iguais” é até bonita em sua essência ideológica, mas volto a citar o Nemov porque ele escreveu antes – e melhor… sim, já virei fã – o que eu penso sobre o assunto: (…) É importante diferenciar, principalmente nesta fase em que somos atacados diariamente em qualquer exposição de afeto pública, que é um beijo GAY. É importante diferenciar que o beijo GAY não tem espaço (…) É beijo gay porque gay não é tratado de maneira igual e é preciso frisar que TODA EMISSORA e TODO AUTOR que coloca um beijo GAY em horário nobre, é corajoso e enfrenta a “sociedade de bem”. É beijo gay e a gente é diferente, sim. Sem precisar ter a menor vergonha disso. Ser minoria não é ser menos.

É isso. Ser gay no Brasil, neste momento, é isso. Essa sinuca de bico de ter que se afirmar como cidadão e ao mesmo tempo não se transformar em um estandarte ativista que você nunca teve o desejo de ser. É resguardar seu direito de ser o que você quiser. De ser masculino, de ser feminino. De ser Trans. De ser extremamente visível e de ser extremamente discreto. Não porque alguém lhe disse que TEM QUE ser assim. Mas porque você É assim.

Sempre lembrando que, para algumas pessoas, apenas ser gay (não importa de qual tipo) já é demais!

Nota da Editora:

#emdefesadetodasasfamílias Eu sou contra a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família!  E você?  http://www.avidaquer.com.br/eu-sou-contra-a-definicao-de-familia-como-nucleo-formado-a-partir-da-uniao-entre-homem-e-mulher-prevista-no-projeto-que-cria-o-estatuto-da-familia-emdefesadetodasasfamilias/

Já tínhamos nos posicionado sobre o tema muitos vezes e muito recentemente aqui:

#emdefesadetodasasfamíliasEu sou contra a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e…

Posted by A Vida Como A Vida Quer on Segunda, 2 de março de 2015

E na estreia da novela, um post na fanpage gerou muita controvérsia:

Pronto, gamei! #Babilonia estreou impecavelmente boa! Quem perdeu o primeiro capitulo por favor, veja no site e…

Posted by A Vida Como A Vida Quer on Segunda, 16 de março de 2015

E hoje Talita Ribeiro, colaboradora do blog, publicou um excelente texto no Brasil Post:

“Marco Feliciano, proteja as famílias brasileiras: boicote seus patrocinadores de campanha”, diz @talitaribeiro,…

Posted by A Vida Como A Vida Quer on Quarta, 25 de março de 2015

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Dramaturgo, Ator, Diretor, Light Designer, Blogueiro... e, às vezes, hablo spañol! Motivos de orgulho: vive dignamente trabalhando como artista no Brasil... quer maior motivo de orgulho do que esse? Fundador da Téspis Cia. de Teatro.

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