Cultura é o que modifica o jeito de olhar e ouvir #SemanaMundialdoBrincar

Semana

Começou hoje e, em teoria, acontece até o dia 26/05 a quarta edição da Semana Mundial do Brincar promovida pela rede Aliança pela Infância (@infanciaalianca). Digo em teoria porque nesta semana os 20 estados nos quais a organização conta com núcleos de atuação farão atividades, mas, nas nossas famílias, nas escolas e nos grupos que atuam a favor da infância saudável estes dias de brincar são indefinidos, sem data para acontecer e para eles basta a boa vontade de ser criança e de valorizar a infância à nossa volta.

A SMB ocorre às vésperas do Dia Mundial do Brincar, comemorado no dia 28 de maio, buscando sensibilizar a sociedade sobre a sua importância, num trabalho incansável para reunir crianças e idades e culturas diferentes, fomentando a prática do brincar de forma coletiva e em espaços públicos e privados.

A abertura da semana aconteceu hoje no SESC Itaquera, com apresentação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e também no Parque das Bicicletas, com apresentação do projeto Acalanto para gestantes. Acompanhei algumas das cenas no instagram e adoraria ter ido!

(Mas, com bebê de menos de 1 mês em casa, nem pensei né?)

O legal é ver a brincadeira sair do espaço doméstico ou de puro lazer, como os parques, e ir para a escola. Neste ano, pela segunda vez, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo confirmou a participação de suas bibliotecas no programa – Álvares de Azevedo, José de Anchieta, Monteiro Lobato, Rubem Borba, Vicente Paulo Guimarães. Além das atividades lúdicas, durante a Semana também serão realizados debates, palestras e mobilizações. Como a brincadeira é essencial para o lazer e fonte de prazer, a semana traz uma ampla reflexão sobre o tema para pais e educadores para favorecer a construção de uma infância digna.

Pela primeira vez, o Núcleo de Pesquisa do Brincar da PUC-SP participa da ação e vai realizar três atividades gratuitas, no dia 21 de maio, das 14 e às 21 horas: Brincando no Quintal, no Museu da Cultura e Brinquedos e brincadeiras (oficinas para pais, professores e outros interessados) na rua Monte Alegre, 984; e Brincando na Brinquedoteca, na rua Monte Alegre, 1.104, em São Paulo. No dia 25/05 acontece o 3º Sábado Brincante da Luz e Lápis, com atividades das 10h30 às 13h30 no Parque da Barragem de Guarapiranga, em São Paulo. No GRAAC e no Hospital Samaritano de São Paulo, haverá contação de histórias para as crianças.

Em 2012, 60 municípios do País realizaram atividades simultâneas durante a SMB, dos quais 15 capitais – o dobro comparado a 2011. No total, 76.242 pessoas participaram ativamente, sendo 57.571 crianças e 18.671 adultos. A expectativa é reunir, neste ano, 60 mil crianças e 30 mil adultos em 70 municípios do País.

A Aliança pela Infância é uma rede social fundada em 1997, na Inglaterra, pelo educador Christopher Clouder. Presente em 20 países, tem atuação permanente na disseminação desses temas e, mais recentemente, na abordagem das questões do impacto da exposição das crianças à programação televisiva. No Brasil, a Aliança foi criada em 2001 e nos primeiros 10 anos de atuação atendeu mais de 15 mil crianças. Foi formada por um grupo de pessoas lideradas por duas pedagogas, referências no trabalho dirigido à criança e à educação: Ute Craemer, fundadora da Associação Comunitária Monte Azul, conhecida pela disseminação da pedagogia Waldorf entre as comunidades de vulnerabilidade social; e Adriana Friedman, antropóloga especializada no brincar, coordenadora do NEPSID – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento e autora de vários livros. A Aliança pela Infância no País tem 14 núcleos em cidades brasileiras: em São Paulo, na capital, Botucatu, Holambra e Campinas; na Bahia, em Salvador, Sapiranga e Serra Grande; em Minas Gerais, em Juiz de Fora e Carmo da Cachoeira. Os demais núcleos estão em Aracajú (SE), Florianópolis (SC), Campo Grande (MS), Nova Friburgo (RJ).

Você pode compartilhar as suas atividades brincantes desta semana no seu blog (no “blogaço“) ou nas redes sociais usando a hashtag #SemanaMundialdoBrincar.

E vale lembrar o que enfatizamos há anos neste blog em posts sobre o Brincar Desestruturado: não há fórmula para brincar exceto soltar a imaginação, libertar-se das amarras e ser criança. As crianças não precisam disso, mas nós, adultos, podemos aproveitar movimentos assim para exercitar nossa capacidade de deixar de lado o consumismo, os modelos e brinquedos prontos, as histórias imutáveis e simplesmente deixar a natureza lúdica falar por nós, tornando-nos simples novamente.

Afinal…

Cultura não é o que entra pelos olhos e ouvidos, mas o que modifica o jeito de olhar e ouvir.

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Toda programação oferecida pela Semana Mundial do Brincar é gratuita e a ação conta com apoio institucional do Instituto C&A, Instituto Alana e da Associação Mahle. Acompanhe no blog semanamundialdobrincar2013.wordpress.com.

P. S. Quer saber mais? Confira a entrevista com Giovana de Souza, gestora da rede Aliança pela infância, na Folha de S. Paulo:

O evento terá uma roda de conversa para discutir os “desafios do brincar”. Qual é a maior dificuldade hoje?

O grande desafio é o respeito por essa ação. Não temos espaços adequados para que as crianças possam brincar. E nós, adultos, temos uma ansiedade muito grande, o que faz com que nossos filhos tenham contato com o brincar de uma forma dirigida, muitas vezes por meio de recreadores. Há pouco respeito pela atividade quando ela tem um fim em si mesma. As crianças acabam tendo agendas cheias, mas há pouco espaço para estarem sozinhas e se divertirem.

A situação se repete nas escolas?
Sim, mas é uma conquista no âmbito da educação infantil que nossos professores tenham uma formação que contemple o brincar. Isso é importante. Por outro lado, quase não há tempo para se divertir livremente. Temos apenas o recreio, que não é muito longo, gira em torno de 15 minutos. É preciso tempo para trabalhar com a imaginação, para inventar brincadeiras e brinquedos não-estruturados.

Qual deve ser o papel dos adultos nas brincadeiras?
A criança demanda uma atenção e os pais devem atuar como mediadores. Ter atenção com o espaço onde os filhos vão brincar, ver se o local é seguro, se não tem cacos de vidro, essas coisas. Depois de preparar o ambiente, os pais devem respeitar o tempo para que a brincadeira aconteça, sem dirigir aquela atividade. É um desafio para nós, talvez porque a gente tenha esquecido como é… Nossa vontade é entrar logo na situação e direcionar, esquecendo nosso papel de observador. Se não for assim, a criança irá contribuir com o quê? O mais grave é que se ela não exercita a criatividade na primeira infância, quando é que isso vai acontecer? É por meio do brincar que a gente descobre o mundo e se conecta com a essência do humano.

Como as crianças brincam nas diferentes regiões de São Paulo?
As mudanças nas brincadeiras estão muito relacionadas às questões de segurança. As crianças da periferia ainda brincam nas ruas com outros meninos e meninas e isso é muito importante, porque exercitam uma série de vivências, como a capacidade do perdão. Uma criança que more no centro, por exemplo, e não encontre espaços adequados para brincar, tende a ficar em casa ou ir a casa de um amigo. A característica dessa brincadeira muda. Não dá para brincar de pega-pega em casa, ou pelo menos é mais difícil.

Que estratégia é possível adotar para que as grandes cidades tenham bons lugares para brincar?
Esse é um desafio político. O ator “criança” não é considerado no planejamento das cidades. As calçadas são esburacadas, são poucos os espaços de convivência coletiva seguros para que crianças e bebês possam brincar. Temos algumas iniciativas de ocupação de praças, mas essa não é a regra e aí ficamos reféns da insegurança.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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