A favor de uma vida em família qualificada – e na luta pelo desarmamento infantil

“Entre 11 e 15 de abril, o Sou da Paz, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar, vai promover a Semana do Desarmamento Infantil. A idéia é promover a desvalorização da arma de fogo por meio da troca de armas de brinquedo por brindes como gibis, ursos de pelúcia, quebra-cabeça e outros presentes – além de disseminar informações sobre a entrega de armas de fogo para os adultos.”
(Saiba mais no blog Desarma SP)

Semana do Desarmamento Infantil do @isoudapaz por @Chilli_com e @avidaquer

Há algumas semanas Ana Carolina Moreno (@anarina) me contou que iniciara um trabalho para o Instituto Sou da Paz (@isoudapaz) e que planejavam uma campanha pelo desarmamento infantil. Infantil? Sim, como acontece na campanha para entrega de armas por adultos, a ideia é de que na Semana do Desarmamento Infantil as crianças se desfaçam voluntariamente de seus brinquedos que são réplicas de armas ou que fazem alusão ao uso de armas e violência nas brincadeiras.

Eu nunca comprei armas para meus filhos e que eu lembre os meninos tiveram dois conjuntos de brinquedos que faziam referência a isso: um jogo de dardos do Buzz Lightyear que tinha um revolver para diparar os dardos no alvo e um kit de espada e escudo de Gladiador. Ambos foram presentes das madrinhas (nossas irmãs, minha e do Gui) e eu demorei um tanto para conseguir me desfazer dos brinquedos (bons, que não estragavam nunca) porque tinha este vínculo afetivo.  Fora isso, arminhas e espadinhas que são brindes em festas juninas, daqueles brinquedos de R$ 1,99 eu sempre consegui guardar no pacote e me desfazer com facilidade. Nunca doei, eu jogava no lixo mesmo – com dó, por ser plástico, ser novo, mas não achava certo dar para outra criança.

Aqui em casa evitamos videogame o quanto foi possível e ele ainda é um brinquedo usado com o controle e, mais importante, a presença dos pais. Os livros, gibis, jogos de computador, programas de TV, enfim, o consumo de cultura é filtrado pela presença da família – daí termos uma TV na sala, onde todos estão juntos e onde temos que concordar sobre o que veremos em família. Os livros, CDs, DVDs e revistas ficam no escritório comum, um espaço onde se faz tarefas, desenha, lê, guarda-se coisas, tudo com o filtro familiar.

E por que tanto papo de filtro? Porque cada vez que vejo casos de bullying, de violência doméstica, de agressões sociais, de surtos psicóticos, me parece (desculpem o “simplismo” aqui) que a pessoa vivia uma vida sem comunidade, sem o filtro social que a convivência em família pode trazer. A presença de outros – nem que seja da irmã chata, como a Candance de Phineas e Ferb – questiona motivações, valores, decisões e nos faz pensar antes de agir, de escolher, de mudar. Quando as crianças passam a ter um mundo muito individualizado, muito privativo, elas ganham por um lado, mas perdem este vínculo emocional que permite que tenhamos um “Grilo Falante” a nos chamar atenção quando como Pinóquio perdemos um pouco o rumo. Nem sempre o Papai Gepeto estará lá, daí a importância do convívio para que as palavras de sabedoria que o convívio traz sejam o “eco” da boa consciência de cada um.

Um pouco disso – e muito mais – o que está na carta pública que um grupo de mães escreveu ontem e convidou seus contatos a publicarem em seus espaços (blogs, Facebook, e-mail) como uma forma de protesto sob os moldes de uma blogagem coletiva. E como eu já me comprometera em participar da Semana do Desarmamento Infantil, cá estou, reunindo os dois temas tão afins, costurando a colcha de retalhos da minha timeline na web e aproximando grupos que no fundo buscam a mesma coisa. E nesta busca coletiva, ganhamos ontem o apoio da Chilli, empresa de comunicação de Araquara onde trabalha a sempre solícita Márcia Ceschini, que criou imagens de campanha para Semana do Desarmamento que tenho divulgado na Fanpage do blog há dias. Obrigada a todos os envolvidos – e se você que me lê quiser, sinta-se à vontade para postar tanto as imagens quanto a carta pública em seus espaços, apoiando a causa que é uma só:  a busca de um futuro melhor para todos.

Semana do Desarmamento Infantil do @isoudapaz por @Chilli_com e @avidaquer

CARTA ABERTA ÀS MÃES E PAIS:

“Que futuro terão nossos filhos?

Aproveitamos o sentimento de indignação e tristeza que nos abalou nos últimos dias para convoca-los para uma mobilização pelo futuro das nossas crianças. A tragédia absurda ocorrida na escola em Realengo (Rio de Janeiro) é resultado de uma estrutura complexa que tem regido nossa vida em sociedade. O problema vai muito além de um sujeito qualquer decidir invadir uma escola e atirar em crianças. Armas não nascem em árvores.
A coisa está feia: choramos por essas crianças, mas não podemos nos deixar abater pelo medo, nem nos submeter aos valores deturpados que têm regido nossa sociedade propiciando esse tipo de crime. Não vamos apenas chorar e reclamar: vamos assumir nossa responsabilidade, refletir, trocar ideias e compartilhar planos de ação por um futuro melhor. Então, mães e pais, como realizar uma revolução que seja capaz de mudar esses valores sociais inadequados?

Vamos agir, fazer barulho, promover mudanças! Acreditamos na mudança a longo prazo. Precisamos começar a investir nas novas gerações: a esperança está na infância. Vamos fazer nossa parte: ensinar nossos filhos pra que façam a deles.

Se desejamos alcançar uma paz real no mundo,
temos de começar pelas crianças. Gandhi

O que estamos fazendo com a infância de nossas crianças?

Com frequência pais e mães passam o dia longe dos filhos porque precisam trabalhar para manter a dinâmica do consumo desenfreado. Terceirizam os cuidados e a educação deles a pessoas cujos valores pessoais pensam conhecer e que não são os valores familiares. Acabamos dedicando pouco tempo de qualidade, quando eles mais precisam da convivência familiar. Assim, como é possível orientar, entender, detectar e reverter tanta influência externa a que estão expostos na nossa longa ausência? Estamos educando ou estamos nos enganando?
O que vemos hoje são crianças massacradas e hiperestimuladas a serem adultos competitivos desde a pré-escola. Estão constantemente expostos à padronização, competição, preconceito, discriminação, humilhação, bullying, violência, erotização precoce, consumo desenfreado, culto ao corpo, etc.

O estímulo ao consumo desenfreado é uma das maiores causas da insatisfação compulsiva de nossa sociedade e de tantos casos de depressão e episódios de violência. Daí o desejo de consumo ser a maior causa de crime entre jovens. O ter superou o ser. Isso porque a aparência é mais importante do que o caráter. Precisamos ensinar nossos filhos que a felicidade não está no que possuímos, mas no que somos. Afinal, somos o exemplo e eles repetem tudo o que fazemos e o modo como nos comportamos. E o que ensinamos a nossos filhos sobre o consumo? Como nos comportamos como consumidores? Onde levamos nossos filhos para passear com mais frequência? Em shoppings?

Quanto tempo nossos filhos passam na frente da TV? 10 desenhos por dia são 5 horas em frente à TV sentados, sem se movimentar, sem se exercitar, sendo bombardeados por mensagens nem sempre educativas e por publicidade mentirosa que incentiva o consumo desde cedo, inclusive de alimentos nada saudáveis. Mais tempo do que passam na escola ou mesmo conosco que somos seus pais!

Porque os brinquedos voltados para os meninos são geralmente incentivadores do comportamento violento como armas, guerras, monstros, luta? A masculinidade devia ser representada pela violência? Será que isso não contribui para a banalização da violência desde a infância? Quando o atirador entrou na escola com armas em punho, as crianças acharam que ele estava brincando.

Nós cidadãos precisamos apoiar ações em que acreditamos e cobrar do Estado sua implementação, como o controle de armas, segurança nas escolas, mudança na legislação penal, etc. Mas acima de qualquer coisa precisamos de pessoas melhores. Isso inclui educação formal e apoio emocional desde a infância. É hora de pensar nos filhos que queremos deixar para o mundo, para que eles possam começar a vida fazendo seu melhor. Criança precisa brincar para se desenvolver de forma sadia. É na brincadeira que elas se descobrem como indivíduos e aprendem a se relacionar com o mundo.

Nós pais precisamos dedicar mais tempo de convivência com nossos filhos e estar atentos aos sinais que mostram se estão indo bem ou não. Colocamos os filhos no mundo e somos responsáveis por eles! Eles precisam se sentir amados e amparados. Vamos orientá-los para que eles sejam médicos por amor não por status, que sejam políticos para melhorar a sociedade não por poder, funcionários públicos por competência e não pela estabilidade, juízes justos, advogados e jornalistas comprometidos com a verdade e a ética, enfim!

Precisamos cobrar mais responsabilidade das escolas que precisam se preocupar mais em educar de verdade e para um futuro de paz. Chega de escolas que tratam alunos como clientes.

Não temos mais tempo a perder. Ou todos nós, cedo ou tarde, faremos parte da estatística da violência. Convidamos todos a começar hoje. Sabemos que não é fácil. E alguma coisa nessa vida é? Vamos olhar com mais atenção para nossos filhos, vamos ser pais mais presentes, vamos cobrar mais da sociedade que nos ajude a preparar crianças melhores para um mundo melhor! Nossa proposta aqui é de união e ação para promover uma verdadeira mudança social. A mudança do medo para o AMOR, do individualismo para a FRATERNIDADE e para a EMPATIA, da violência para a GENTILEZA e a PAZ.”

A carta pública tem assinatura de:
Ana Cláudia Bessa www.futurodopresente.com.br
Cristiane Iannacconi www.ciclicca.blogspot.com
Letícia Dawahri
Luciana Ivanike www.lucianaivanike.blogspot.com
Monique Futscher www.mimirabolantes.blogspot.com
Renata Matteoni www.rematteoni.wordpress.com

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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