O mundo multicor (e não só cor-de-rosa) que quero para minha filha

Desde que descobri que serei mãe de menina, depois da experiência de viver por mais de uma década só com filhos homens, tenho me apercebido de uma faceta bastante feminista em mim.

A primeira coisa que notei foi que o tal “mundo rosa” não me atrai. A segunda é que não pretendo sucumbir ao universo das princesas e do consumismo feminino. Os três são pontos que as pessoas sempre comentam comigo apontando como inevitáveis quando eu conto que terei uma menina.

Mas serão mesmo um caminho que toda menina deve seguir?

Uma pesquisa me fez reforçar as reservas a este mundo cor-de-rosa dos contos de fadas.

Durante um ano a antropóloga Michele Escoura estudou a influência das princesas da Disney em crianças e publicou um trabalho que nos dá uma dimensão do que as princesas fazem com a cabeça das meninas. Segundo li, em pesquisa publicada pela USP (Universidade de São Paulo) e FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a pesquisa observacional (com um universo de 200 meninas na faixa dos 5 anos de três escolas no interior de São Paulo) mostrou que muitas crianças, independentemente da classe social, tinham algum material escolar com temática das princesas, de lápis à mochila, e que isso servia para que elas mesmas se reafirmassem para as pessoas como meninas.Infelizmente as meninas se identificam mais com as personagens clássicas, como Cinderela e Bela Adormecida, justamente as que estereótipos de feminilidade.

(sim, o consumismo ajuda a reforçar esteriótipos e isso não é só papo de gente chata não!)

Uma das metodologias de pesquisa envolveu a exibição de dois filmes da Disney para as crianças: Cinderela, uma princesa mais tradicional que está sempre à espera de alguém para resolver seus problemas, e Mulan, que tem comportamento mais rebelde e pró-ativo. Ao final da exibição, Michele formou uma roda de discussão com as crianças e percebeu que muitas delas não percebiam a Mulan como princesa porque tinha roupas ‘feias’, não usava maquiagem e, principalmente, porque ao final do filme não ficava claro se a personagem havia se casado. “Elas tinham mais identificação com a Cinderela, sabiam de cor todas as falas do filme. Já a Mulan, que era uma princesa chinesa, poucas haviam assistido ao filme. Quando pedi que elas representassem no papel a parte do filme que elas mais gostaram, uma das crianças desenhou a Mulan com cabelos loiros”.

Segundo análise da antropóloga, há pouco espaço para aprender a diversidade no dia a dia das crianças e isso começa a se manifestar primeiro dentro de casa.

“Quando uma menina nasce tem toda aquela imagem de que ela é delicada, meiga, uma princesinha. Existe um consentimento dos pais em relação a essa ideia, além de uma imposição de mercado que é restritivo: cor de menina é rosa e de menino é azul. Menina gosta das princesas e da Barbie, meninos do Ben 10”.

No artigo que citei, relembrava-se as história das princesas Disney, começando por Branca de Neve, lançada em 1937, passando por Cinderela e Aurora (Bela Adormecida), da década de 1950. No final do século XX as princesas voltaram a aparecer com força, com comportamento um pouco mais rebelde e beleza diferenciada, com personagens como Bela, a sereia Ariel, Jasmine de Aladim, Pocahontas, Mulan, Tiana (de A Princesa e o Sapo, uma das minhas favoritas) e Rapunzel (de Enrolados), sem falar na sensação de 2012, Valente.

Neste Dia da Mulher, o primeiro no qual penso como “mãe de menina”, estou divagando sobre o tema e pensando qual o problema da minha filha gostar das princesas da Disney ou ter bonecas Barbie ou se vestir com roupas cor-de-rosa?

Sinceramente, isolados estes fatores não significam muito. Como já comentei aqui, minha mãe sempre me vestiu de azul marinho, sua cor favorita e isso não me fez masculinizada. Pelo contrário, amo vestidos e quando entrei na faculdade (e as cobranças dos meus pais por “uma carreira” começaram a abrandar porque eu estava encaminhada) eu fiz curso de corte e costura e cheguei a costurar meu próprio vestido de noiva.

O problema é reduzir as expectativas, sonhos e brincadeiras sobre os planos de vida de uma mulher nas princesas que a menina vai ter como ideais. Como enfatizou a antropóloga, “os pais devem ter consciência de que é preciso criar crianças mais abertas a enxergar outros referenciais”. Michele Escoura reiterou em entrevista que filmes, músicas e produtos não podem ser a única fonte de informação sobre o que é ser feliz.

“As princesas da Disney carregam consigo um conteúdo que acaba funcionando como uma restrição da ideia do que é ser humano, enquanto mulher. É necessário garantir que a formação das crianças tenha também outros tipos de exemplos. A diversidade existe, e as crianças devem saber que não há apenas uma maneira de ser feliz, bonita e aceita.”

Ainda hoje vejo debates nas redes sociais sobre as brincadeiras de menino e de menina, como se o lado lúdico das crianças pudesse ser separado e sexualizado. Vale sempre lembrar: a não segregação de gênero é muito benéfica, principalmente quando o assunto é brincar. Quando você estimula seu filho a se divertir com vários tipos de brinquedos, dá a ele a chance de desenvolver habilidades que vão ser importantes para o futuro dele.

Estivemos separando vários livros e brinquedos dos meninos nestas férias para decidir o que guardar até que a irmãzinha cresça. No meio das coisas, nos vimos, nós 4 (os meninos também!), pensando que temos que guardar legos para ela criar e os livros e bonecos de dinossauros (“caso ela queira ser paleontóloga, mamãe”, considerou um deles), além de muitos carrinhos (“porque você dirige, ela também pode ser boa motorista!”, lembrou o outro). Assim como eles tiveram a fase de pedir panelinhas para brincar (e achamos joguinhos lindos, multicoloridos) porque viam o pai, avós e tios cozinhando por prazer e para contribuir com o cotidiano, Manu vai ver a mãe e as outras mulheres da família realizando tarefas que não são nem de princesa nem de gata borralheira, serão de seres humanos adultos, maduros e produtivos, que convivem em sociedade naturalmente, sem precisar de esteriótipos para saberem onde e como se portar.

Este tema surgiu para mim exatamente no dia em que fui tomar vacina no posto de saúde e na espera ouvi da atendente o papo sobre “os sofrimentos que a pequena viverá com dois irmãos mais velhos” e como é inevitável que eles peguem no pé e a proibiam de namorar e etc! Argumentei que quando ela for adolescente eles estarão vivendo suas vidas adultas, possivelmente estudando fora e ela me perguntou: “E a menina, vocês também vão deixar morar fora para estudar?”. Minha resposta resolveu o impasse: “Faço votos de que sim! E por que eu desejaria um futuro inferior aos dos meus meninos para minha filha?”

Efetivamente o machismo é um conceito arraigado na nossa sociedade, mas me nego a aceita-lo calada!

E vocês, também ouvem coisas assim no cotidiano?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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