Águas das Florestas no #diadaterra

Rio Tietê, clicado na região de Itu, SP

Há dias ouço as crianças falarem com entusiasmo sobre o Dia da Terra. Os canais infantis criaram programação especial e até mesmo os sites educativos têm especiais para marcar a data, que, a bem da verdade, é mais do que o Dia da Terra. Deveria ser o dia de amar a terra.

E a Terra é mais do que o composto orgânico no qual plantamos e colhemos os alimentos, de onde viemos e para onde vamos, aquele que nos dá o chão firme para pisar. É nossa casa, nosso lar, o lugar onde vivemos e que, literalmente, nos dá a vida a todo momento. Ontem eu falava ao telefone com uma amiga e brinquei dizendo que no Dia da Terra eu queria falar da Água. Sem água a terra perde o valor e a gente não sobrevive, mas pouca gente lembra disso…

Tenho acompanhado como consumidora (e moradora do Planeta) a questão da água com grande preocupação.

Há pelo menos uma década e meia eu ouço amigos, especialistas em meio ambiente ou em urbanismo, tratarem do tema com atenção especial, relembrando questões pontuais de reservas hídricas brasileiras.

eu, Juliana Antunes (Agência de Sustentabilidade), Fábio Góis (EcoDesenvolvimento) e Milena Wiek (Menina que joga).
Eu, Juliana Antunes (Agência de Sustentabilidade), Fábio Góis (EcoDesenvolvimento) e Milena Wiek (Menina que joga). Foto de Filipe di Domenico (Conversa Sustentável).

Eis que na semana passada eu estive, a convite do Instituto Coca Cola, numa das regiões que ONU considera como área de conflito iminente no Brasil por falta de água, sendo comparada ao sertão nordestino. E não fui longe de minha casa, viajei pouco mais de 100km em direção à região de Jundiaí, Itu, Campinas. Lá, na companhia de outros social media players interessados na prática sustentável (Educa Já, EcoDesenvolvimento, Conversa Sustentável, Agência de Sustentabilidade), pude conhecer parte do trabalho realizado pelo SOS Mata Atlântica.

Ciceroneados pela equipe da fundação, capitaneada por Malu Ribeiro (jornalista que milita na área ambiental desde que ninguém falava sobre o tema!), pudemos conhecer em teoria alguns dos projetos para neutralização de carbono que têm lugar na região e verificar in loco os resultados de um deles, o Água das Florestas Tropicais Brasileiras, que se propõe a recuperar e proteger mananciais de água através da recomposição florestal de margens de rios e lagos. O programa se iniciou em 2007 justamente na bacia do Ribeirão do Piraí (que é das mais ricas em água e também das mais propensas a brigas pela água), mobilizando a sociedade a preservar e criar áreas de plantio de espécies nativas da Mata Atlântica.

Maquete da bacia do rio Tietê

As desavenças pela água não são por conta da escassez do recurso, mas sim pela quantidade de habitantes e a disponibilidade de água limpa nos rios e efluentes da região. As cidades por onde os rios passam até querem ajudar, mas estão presas umas às outras, dependendo das vizinhas e de suas decisões governamentais para conseguir resultados efetivos no preservacionismo. Vendo o mapa de São Paulo em relevo e ouvindo os relatos dos técnicos do SOS confesso que tive momentos de desânimo… mas o projeto que desenvolvem na região – que visitamos na fazenda Capoava, uma das primeiras a aceitar o desafio e se assumir como preservacionista com apoio do Águas da Floresta – é tão bom que recobramos o ânimo não só no sucesso da empreitada, mas na capacidade de reação da humanidade.

Uma das vistas da floresta recuperada na Fazenda Capoava, em Itu, SP. Onde se vê floresta já teve cana de açúcar, café e outras produções agrícolas importantes na história da economia brasileira.

Chamou minha atenção o modelo, que opta por se aproximar e prover de condições os proprietários conservacionistas produtores de água, que passam a receber recursos financeiros por serviços ambientais prestados em suas propriedades, mas com benefícios claros para toda sociedade como o sequestro de carbono e a produção da água. Assim, de espaço uma vez taxado de inútil, a área de conservação ambiental no entorno dos seus rios (a mata ciliar) passa a significar um ponto de sustentabilidade econômica e incentivo para o exercício de outras atividades de produção sustentável.

E como isso funciona? Há um fundo o pagamento do serviço ambiental na área restaurada que mune o proprietário de uma estrutura para garantir como retorno à Coca Cola:

  • Crédito de carbono: à medida que a floresta for crescendo ela vai sequestrando o carbono e o proprietário irá receber por isso durante 30 anos
  • Produção de água: segundo nos explicaram, se o proprietário deixa de lotear a terra e construir um condomínio em cima desta nascente, que lhe traria um lucro imediato bem significativo, e com esta ação ele propicia que a população se beneficie desta água, a sociedade e as empresas que distribuem esta água terão que pagar por isso. Este pagamento vem através de uma cobrança pelo uso da água proporcional à quantidade de água que ele ajuda a conservar

E qual o alcance do projeto?

A meta de reflorestamento é de três mil hectares de matas ciliares, começando na Serra do Japi, Alto do Tietê, nas proximidades de Jundiaí, perfazendo um investimento de R$ 27 milhões até 2011, com previsão de replantio de 3,3 milhões de árvores.

E não é uma ação comercial, puro “green wash”, tem um lado educativo e de ativismo social importante. O monitoramento da qualidade de água – que é o principal objetivo da iniciativa – é feito com a participação de escolas e um trabalho de conscientização da população local sobre a necessidade de conservação dos recursos naturais. E os proprietários, como Bia, da fazenda Capoava, contam outras vantagens além da recuperação das florestas e rios, pois o replantio impacta a biodiversidade da fauna e da flora, melhorando também a qualidade do clima e da água e trazendo até novas oportunidades de emprego para a região.

Se a recuperação de áreas de florestas naturais é importante, quando localizadas às margens de cursos d’água é obrigatória.

P.S. Tirei uma centena de fotos na viagem e estão todas no Flickr. Mas não resisti e juntei-as num videozinho também (tá bom, como sempre, falta música, preciso colocar mais opções de música no meu HD…)

[update] Relembrando outros Dias da Água e debates sobre o tema por aqui:
São as águas de março, fechando o verão… é a promessa de vida no meu coração…
Navega São Paulo em família
E se São Paulo fosse uma metrópole fluvial?
Águas das Florestas no #diadaterra
De onde vem a água que você bebe?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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