entretenimento

Os dois livros, no melhor estilo pocket book (que amo, porque posso carregar comigo) foram presentes da @tebenas via @hedraonline.

“Cada singular coisa
Sempre neste mundo
Muda e está mudando.
Com a mesma luz contudo
A lua segue brilhando”

Os Poemas da Cabana Montanhesa, parte dos clássicos da poesia medieval japonesa, foram traduzidos e, acima disso, interpretados para os brasileiros por Nissim Cohen. É interessante notar a multiplicidade cultural que se encerra aí: nascido em Istambul (1930), ele viveu boa parte da vida em Israel e mudou para o Brasil pouco antes de conhecer o budismo na década de 1970 (sim, naquele auge da orientalização dos artistas, fase aúrea para o budismo) e desde então o engenheiro de formação passou a ser um estudioso (e um especialista) do tema. Desta orientalização vem sua capacitação para nos contar em que Japão surgiu Saigyo (1118-1190), filho de samurais que aos 23 anos deixou a carreira militar e se tornou monge budista, alternando períodos de isolamento a longas peregrinações.

Gosto muito de ler sobre a cultura de meus ancestrais, por isso já estudei um pouco da história da cultura japonesa. Encantei-me com a versão dos Poemas da Cabana Montanhesa porque nos traz, de forma sucinta porém não superficial, uma visão da formação deste povo que tem o respeito de tantos e que formou sua cultura da absorção (e adaptação) das manifestações de povos que soube admirar (e eventualmente subjugar, como fez com os de Okinawa e da Coreia em tempos distintos).

A Voz dos botequins e outros poemas, de Paul Verlaine  nos presenteia com um outro mundo. Em primeiro lugar por ter a seleção e a tradução do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), num trabalho feito para integrar o volume Paralelamente a Paul Verlaine, lançado por ele em 1944. Vê-se nas escolhas parte do que seria o combustível do movimento modernista que culminou na famosa Semana de 1922, com o cuidado técnico que só ele, reconhecidamente dotado de domínio técnico, poderia auferir à tradução.

Acho que comecei a saber quem era Verlaine quando estudei francês. Ouvira falar da “trindade sagrada do simbolismo francês”, quando, por sugestão de Eduardo e Mônica (Renato Russo mudando a história), ouvi falar de Arthur Rimbaud (o outro poeta da tríade seria Stéphane Mallarmé). Talvez por ele ser um dúbio em tantas coisas em sua vida (vale ver a biografia para entender), é fácil encontrar um pouco de si em Verlaine. Gostei de um trecho escolhido pelo organizador da edição da Hedra, Marcelo Tápia, que citava Ornestaldo de Pennafort (tradutor da obra Fêtes Galantes, de Verlaine, para o português), que dizia ser a obra do poeta francês

“toda ela impregnada da vaga sedução lunar das coisas antes sugeridas do que ditas, mais musicadas do que escritas; poesia de delicadas nuances, de misteriosas ressonâncias, de ritmos sabiamente partidos e vazada num estilo que é um misto de sutileza artística e simplicidade popular”.

O que ele “canta” é uma vida na surdina, daquela que se não vivemos, gostaríamos imensamente de ter vivido. E o que queremos da poesia senão exatamente a chance de viver emoções ainda que não sejam nossas?

En sourdine

Calmes dans le demi-jour
Que les branches hautes font,
Pénétron bien notre amour
De ce silence profond.

Na surdina

Calmos, na sombra incolor
Que dos galhos altos vem,
Impregnemos nosso amor
Deste silêncio de além.

(e o poema continua deixando claro que os amantes estão vivendo a madrugada ao ar livre…)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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