Rolezinho: diversão ou baderna? O que eles nos dizem sobre o direito à cidade?

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Os rolezinhos, encontros de jovens em shopping centers que começaram em dezembro em São Paulo e se espalharam pelo país, ainda estão dando o que falar. O Centro Ruth Cardoso promove uma roda de conversa sobre o tema: “Rolezinho: diversão ou baderna?”

Além de jovens integrantes do movimento, participam do bate-papo os jornalistas Leonardo Sakamoto e Leandro Beguoci; os sociólogos Eduardo Graeff e Simone Coelho e o publicitário da plataforma Causa Brasil, Felipe Attílio.

Acredito que podemos antever parte do papo a partir das posições de alguns dos participantes. O jornalista e doutor em Ciência Política Leonardo Sakamoto, autor do Blog do Sakamoto, foi entrevistado sobre o assunto para o artigo “O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?”.

“A maior parte da molecada que vai aos rolezinhos não quer fazer nenhum protesto e sim curtir e ser curtido. Não são politizados, como também não era a maioria dos que foram às ruas nas jornadas de junho. Mas o cutucão, se não é o objetivo, acaba sendo o efeito colateral, pois a presença deles naquele espaço provoca uma reação violenta. Daí, há dois caminhos para analisar os rolês: quem são e o que querem esses jovens e o porquê da reação de determinados grupos sociais, sejam eles do centro ou da própria periferia.
Shoppings são bolhas, oferecem a garantia de que nada vai acontecer com você se estiver lá dentro comprando. Da mesma forma que cercas eletrificadas mentem sobre a proteção de casas, que carros blindados mentem sobre a proteção de famílias, que a presença de uma arma de fogo mente quando promete afastar qualquer risco real.
Quando centenas de “intrusos” ameaçam invadir essa realidade virtual, querendo fazer parte dela, seus usuários sentem que ela se desligou de repente e entram em pânico. Porque esse grupo de garotos e garotas talvez não entenda, mas é exatamente deles que parte do povo que se refugia em shoppings quer fugir. Fisicamente. Simbolicamente.”

Gosto muito de um viés desta discussão que li por recomendação de um amigo jornalista e apareceu no texto da cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro Machado. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford, ela trouxe algumas questões que nos convidam a um olhar mais interessante sobre este caso, partindo de uma pesquisa que fez em 2009 com jovens da periferia de Porto Alegre.

Sobre a ida ao shopping:
(palavras de Rosana)
“Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping. Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência.”

Isso me lembrou um artigo e infográfico compartilhado por uma amiga ainda nesta semana, vejam só:

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Sobre a classe C ou D:
(Opinião minha)
Voltaremos aqui à Classe C e blá blá blá, mas também a uma realidade que incomoda muita gente da antiga classe B e um pouco à classe A: agora todo mundo pode participar, com maior ou menor esforço, da sociedade de consumo. Parcela-se em mais vezes, mas até a Disney é acessível.
Minha faxineira tem um fogão melhor ou mais novo que o meu e seus filhos viajam de avião para visitar a avó em Pernambuco, situações se igualdade que a geração dos meus pais não sonhava viver. Eu me sinto feliz por isso, mas quem tinha nestas pequenas diferenças a segurança do seu lugar diferenciado no mundo deve sofrer e se ver angustiado.

Sobre o rolezinho organizado:
(concordo com as palavras de Rosana)
“Não há uma grande diferença do rolezinho organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), eu vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas médias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.”

E você, o que acha?

Se quer pensar e conversar sobre o tema, junte-se a nós hoje (13/02/2014), às 18h, no CRC (rua Pamplona, 1005, SP-SP).

P.S. O assunto já esteve na pauta de outro encontro nesta semana, no Itaú Cultural, realizado pela Énois – Inteligência Jovem, abordando questões como consumo, ocupação do espaço público e políticas para a juventude, com a participação de uma organizadora de rolezinho, Dricca Navas, do coordenador de juventude do município, Gabriel Medina, e da jornalista do site Cidade para Pessoas, Natália Garcia.

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Leonardo Sakamoto perguntou aos jovens presentes, participantes do movimento na Zona Sul, como foram os protestos nos shoppings Ibirapuera e Campo Limpo. Houve contradição sobre os jovens irem aos locais para consumir ou se encontrar, num quase debate, abafado pela timidez dos jovens.

Na roda de conversa “O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?”um jovem que se apresenta como participante dos rolezinhos em shoppings faz uma declaração emblemática, contando de sua primeira experiência de preconceito e exclusão, quando foi ao shopping ver uma peça de teatro e ele e os amigos (convidados por conta de um projeto social) tiveram que tirar os sapatos e sofreram revista dos os seguranças para entrar. Ele conta que ele e os colegas reagiram “cutucando” as pessoas no shopping onde ficava o teatro, passeando pelos corredores com taças cheias de chocolates, brindes do teatro.
Na fala, nomes de filmes, de personagens de novela e muitas marcas mostram como a sociedade de consumo se faz presente na vida deles e molda suas expectativas e seu comportamento.
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Os “fluxos de rua” foram muito citados na roda de conversa “O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?”, mas você sabe o que são?
Segundo nossa colaboradora @alinekelly, que mora em região onde estes encontros de jovens são comuns, o fluxo é um encontro nas ruas e em espaços públicos em que jovens se reunem para dançar e festejar. Geralmente uma pessoa com um carro que tem um som bem alto garante a música e outros trazem bebida, uma combinação que garante a festa. Aline conta que em 2012 a prefeitura tentou proibir que acontecessem os bailes nas ruas e com isso os jovens da periferia começaram a buscar outros locais para realizar os seus encontros.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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