Regina Vogue: 40 anos democratizando a cultura infantil

Entrevista que fiz com Regina Vogue e foi publicada no Desabafo.

Regina Vogue: 40 anos democratizando a cultura infantil

Falar de teatro infantil em Curitiba é falar das produções de Regina e seus filhos Mauricio e Adriano Vogue. Além de serem um paradigma de bons espetáculos infantis, o grupo de Regina, sua trupe e seu espaço, são sinônimos de um celeiro de bons profissionais da área na região. Poucos não trabalharam com Regina em algum momento de sua vida, não privaram da convivência de sua família artística.

Quando se descobre a história desta artista e mãe, entendemos porque ela prioriza e incentiva os novos talentos. E passamos a admirá-la por ser capaz de reconhecê-los e fomentá-los, inclusive em sua própria família.

Como muitas mulheres artistas, Regina desbravou sua terra para exercer sua profissão. No sul, “fugiu” com um circo tradicional aos 16 anos e logo conheceu o Circo Teatro de Pavilhão. Nele teve Mauricio, seu filho mais velho, que seguiu seus passos como artista de muitos talentos. Ao mudar-se para Curitiba, descobriu que faltava estímulo para produção de espetáculos infantis e assumiu para si mais um papel: o de produtora. Foi nele que viu em pouco tempo o talento de seu filho caçula, Adriano.

Tenho a honra de conhecê-los pessoalmente, pois são amigos de minha irmã, que levou Enzo aos espetáculos desde bebê. Creio que é por vê-los de forma mais particular que criei esta impressão de que eles são uma simbiose maravilhosa, em que os filhos e a mãe compõem um organismo incrível. Aos três, tenho que ser justa, é preciso incluir a assessora Nicole, braço direito deles há muitos anos.

Em abril de 2004, Regina foi homenageada com a curadoria do “Espaço Teatro Regina Vogue”, no Shopping Estação, na capital paranaense. Nele a artista continua seu trabalho incansável de oferecer cultura de qualidade às crianças e adultos e onde busca “a democratização da cultura para todas as classes sociais”.

Desabafo: Como esta parceria de mãe e filhos aconteceu e como segue tão harmoniosa?
Regina Vogue: Sempre tive o pensamento de que meus filhos seriam livres para seguir o caminho que quisessem. A ligação dos dois com a arte foi bem diferente. O Mauricio quase nasceu embaixo de uma lona de circo e acredito que não foi por acaso, pois desde pequeno trabalhou nos palcos e cresceu aprendendo a profissão de ator. Conforme o seu amadurecimento desenvolveu percepção suficiente para assumir outras funções sendo a principal de diretor teatral. Já o Adriano, sua introdução definitiva com a arte foi aos 16 anos de idade, foi meu assistente de produção na primeira montagem que realizarei após desfazer a sociedade com outro produtor. O que seria temporário acabou se tornando definitivo e com esta montagem iniciei uma nova etapa como produtora tendo meus dois filhos, cada um com o seu talento, ajudando nas montagens que fizeram me tornar uma produtora de qualidade.

Desabafo: Adriano atua como Produtor e Mauricio como Diretor de grande parte dos espetáculos. Como é para a mãe ter os filhos no comando?
Regina Vogue: Sinto-me segura em saber que mesmo em momentos que não estou presente, a busca do meu trabalho estará sendo continuada. Sabemos que toda empresa familiar tem suas peculiaridades que muitas vezes não soam positivamente. Mas como equilíbrio, buscamos respeitar o “papel” que cada um representa para o desenvolvimento do nosso trabalho.

Desabafo: Regina começou no circo, onde teve e criou Maurício. Qual a influência da arte circense nos seus espetáculos infantis?
Regina Vogue: Na verdade, minha primeira e única participação num Circo Tradicional foi logo que saí de casa, aos 16 anos. Um ano depois, descobri o Circo Teatro de Pavilhão que utiliza a lona de circo, porém realizava exclusivamente apresentações teatrais e shows musicais. A grande magia do Circo Teatro de Pavilhão é que todos os dias eram apresentados espetáculos diferentes. E esta diversidade de espetáculos, senso de improvisação e ter que fazer todos os dias uma personagem diferente me deu grande influência nas minhas produções, inovar a cada espetáculo e aprimorar cada obra realizada mesmo depois da sua estréia.

Desabafo: Há muito de canto e de dança nos trabalhos e na formação profissional de vocês, o que enriquece os espetáculos teatrais. Que área os fascina mais na concepção de um novo trabalho?
Regina Vogue: Seria injusto pensar numa área específica. É preciso buscar o equilíbrio de todos os elementos para a realização de um grande espetáculo. Desde o canto, a dança, a concepção cenográfica, figurinos, iluminação, entre outros, acredito que uma área complementa a outra.

Desabafo: As montagens da sua companhia são encenadas especialmente para escolas há muito tempo. Que público lhes parece mais competente para a formação de um consumidor de cultura: o que freqüenta com a escola ou com a família? Há uma diferença notável na reação das crianças às peças quando estão com a escola ou os familiares?
Regina Vogue: Com a escola é muito importante devido a participação da criança junto com seus colegas. Isto possibilita uma identificação maior e a troca de idéias com quem também está descobrindo um “mundo novo”. Mas, é com a família aprendemos nossos valores e também o direcionamento para o nosso desenvolvimento intelectual. Porém, sabemos que devido às dificuldades mundo moderno, os pais acabam precisando muito do suporte dos educadores nesta missão.

Desabafo: A companhia tem “pratas da casa” brilhando no cenário regional, como o ator Diehgo Kozievitch (o mais jovem ganhador de um kikito no Festival de Gramado) que cita a infância atuando nos espetáculos da sua companhia como primordial para sua formação artística. A formação de novos artistas é uma meta?
Regina Vogue: Realmente temos como um dos nossos focos de trabalho a descoberta de novos talentos. Sabemos que, como produtores, temos o compromisso de fomentar o mercado de trabalho para quem quer uma primeira oportunidade. E para as nossas montagens é importante a renovação, pois a probabilidade de criarmos algo novo torna-se mais forte. Também temos a possibilidade de aprendermos e nos reciclarmos com estas pessoas.

Desabafo: O sonho de montar um barracão para a companhia se tornou o Espaço Teatro Regina Vogue, num shopping que nasceu para ser um centro de eventos e lazer em Curitiba. Quais os novos sonhos para este espaço?
Regina Vogue: O Teatro com quase três anos de atividades vem buscando um amadurecimento do seu compromisso com a cidade de Curitiba. Ao longo deste tempo, percebemos que nossa principal meta é cada vez mais a democratização da cultura para todas as camadas sociais. Por isso, temos buscado parceiros da iniciativa privada para nos ajudar na formação de platéias.As ferramentas para estas parcerias são as leis de incentivo à cultura. Com elas, as empresas podem colaborar para a criação de diversas ações que possibilitem ingressos mais baratos e até mesmo gratuitos. Apresentações de qualidade para crianças, jovens e adultos e uma programação intensa que possibilitará cada vez mais o fortalecimento da nossa cultura e o crescimento intelectual da nossa sociedade.


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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.