Rainha do Lar não é Deusa Doméstica

Sou a Rainha de um pequeno feudo. É meu, mas eu divido com três nobres cavalheiros a quem eu poderia também chamar de Rei e Príncipes herdeiros, mas , por puro egoísmo e necessidade de autoafirmação eu chamo de Guarda-Costas. Não porque eles são subalternos, mas porque não vivo sem eles, são a minha vida.

Se eu sinto culpa por falar com meus amores assim? Nem um pingo. Talvez um pingo, lá no fundo, porque descendo de duas etnias famosas por sua ridigez e patriarcalismo (ser mistura de japonês e alemão não é nada fácil), mas eu deixo lá, guardada como um recorte de jornal antigo do tempo em que as mulheres não votavam e dos gibis que separavam as turmas em Bolinhas e Luluzinhas.

Rainha do Lar não é deusa doméstica - crédito da imagem: reprodução de site http://virou.gr/jspjUd

Uma vez, na hora do almoço, ainda de pijamas e sem banho (mas a apenas 50 minutos de sair para escola), meu filho caçula me disse que eu sou igual a mãe do Harry e o Balde de Dinossauros. Perguntei o motivo e ele respondeu: ela também está sempre trabalhando. Bom de bico, ele emendou: e você fica feliz trabalhando Mamãe. Verdade. Sou workahoolic assumida, curo um misto de hiperatividade e depressão com muita atividade. Pode ser Borderline ou estou à beira de um Burnout? Pode, afirmo com um sorriso e sem me sentir mal com isso.

Se até uma mãe de desenho animado pode estar sempre ausente – como num retrato de geração, deixando o filho aos cuidados dos dinossauros e da avó Naná – quem sou eu para fingir superpoderes? E a culpa de viver uma rotina maluca que pode ter um almoço delicioso, bolo de chocolate e pão fresco no final da tarde ou simplesmente passarmos dias comendo no restaurante e jantando comida congelada? Jogo-a para escanteio porque há tempos desisti de tentar ser a mãe de avental do Cebolinha, manter a forma curvilínea da mãe da Mônica ou cozinhar bem -e sem parar- como a mãe da Magali.

Mas, convenhamos, elas estavam sempre em casa. Ouço isso também, sabem? É porque eu trabalho em casa há uma década – e comecei quando home office ainda era um conceito vanguardista até na Europa, que dirá no sul do Brasil. Quem era independente e freelance no mínimo optava por um escritório, não tinha a cara de pau de ficar em casa. Mas eu quis e senti culpa também porque não saía de casa, não tinha emprego normal. Como tive bebês nesta época, ninguém acreditava que eu trabalhava, era tratada como uma ama-de-leite nos encontros sociais. Para minha sorte, todo mês saía um exemplar da revista japonesa na qual eu escrevia para provar que eu tinha feito alguma coisa e neste dia a culpa ia para minha recycle bin.

Rainha do Lar não é deusa doméstica - crédito da imagem: reprodução de site http://virou.gr/iErpnH

Ter filhos é motivo de culpa também para minha geração. Seja a dona de casa que não conta para os amigos que vai ter o quinto filho (e quando o faz se desculpa!), ou a executiva bem sucedida que conta em voz baixa que tenta engravidar há um ano (e que já pensa em fertilização), temos sempre alguma culpa aos olhos dos outros. Não estudamos, estudamos demais, fomos apressadinhas, somos muito racionais e planejadinhas, escolhemos a carreira e não a família, desistimos na carreira pela família. Não importa a opção, tem uma falha que cai como culpa na nossa figura. Como tive meus filhos meio junto, por anos me via explicando para as pessoas próximas que não estava grávida de novo. Depois de ter feito faculdade, casado, trabalhado no exterior, voltado, comprado minha casa, etc, me sentia culpada porque eu tive dois filhos de repente. E eu ter que explicar porque não quero mais tentar uma menina? Já ouvi dizerem: ah, mas você não tem jeito de menina mesmo, não ia dar certo.  Pode? Não pode não!

Na falta de mais culpa para incutirem em nós, há uma corrente que nos culpa por não assumirmos nossa feminilidade. Acham que a cobrança é pela falta de vaidade? Não! Escutei isso porque não tive parto normal. Quem não tem parto normal não se apodera do seu corpo, não vive sua sexualidade. E se for viver a sexualidade, tem a culpa do DIU, de não usar pílula, de usar pílula e perder a libido, tem a culpa de não gostar de papai-e-mamãe e a culpa por preferi-lo também. Tem a culpa de ser egoísta e não ter amamentado anos os filhos e a culpa de ter aleitado as crias por tanto tempo que os deixou emocionalmente dependentes.

E quanto aos relacionamentos? Embora a lei tenha igualado os casais com a união estável, a gente ainda se explica e sente uma pontatinha de culpa. Quando eu casei na igreja ainda fazendo faculdade de comunicação, tive que explicar porque era noiva, porque casei de branco e porque não quis usar véu e grinalda – símbolos do quê mesmo, minha gente? De algo que eu orgulhosamente não tinha para levar ao altar. Agora casar com festa é moda e querem que eu sinta culpa porque não tive uma festa mais pomposa. Como se não bastassse, outro dia presenciei uma colega explicar num jantar porque ela não era casada, que apenas vivia junto com o marido há 9 anos. Para minha satisfação – e decepção do interlocutor – ela respondeu orgulhosamente que não casou porque não queria. Ponto. Já pensou em pleno século XXI sentir culpa e se considerar “amasiada”?

Cobram-nos a culpa por comer quando estamos gordinhos (culpa que os outros nos impõem com olhares críticos) e a culpa de preferir comida saudável e não aproveitarmos que podemos comer de tudo se somos magrinhos. Já fui vegetariana e me sentia culpada na casa dos amigos, hoje como carne e tem quem me olhe feio. Não uso açucar há anos e por muito tempo explicava que era por recomendação do gastro por conta do meu estômago.  Só quando engordei um pouco me livrei das perguntas e da culpa por não ser mais natural.

Mas o que é ser natural?

É fazer o que temos vontade, quando temos vontade, se é bom para nós – e, na medida do possível, não fere nem desrespeita o próximo, claro. Depois de tantos avanços sociais no século XX, viver sem culpa o papel de Rainha do Lar, de Deusa Doméstica e todos os outros que escolher é o desafio da mulher atual.

Você está pronta para viver assim?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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