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“The bus [to school] will be full of children the boys’ age, their foreheads pressed against the glass, gazing at the unfurling landscape, the fields and hills and forests”

  
Um dos motivos que me faz simpatizar mais com unschooling do que com honeschooling é saber que essa situação das crianças de olho comprido nos interesses que estão no mundo real, mas vivendo “presas a uma mesa de estudos” com a teoria forçando um comportamento social antinatural para suas idades, é o que as escolas fazem com nossas crianças, destruindo a curiosidade, a sagacidade e o interesse pelo mundo e pelo outro que depois buscamos com tanto afinco reviver na idade adulta e raramente volta igual.

Meu querido “recheio do sanduíche” #aos12 me faz pensar nessa escolha todos os dias…

E quando leio relatos como o de Ben Hewitt no texto Why You Should Take Your Kids Out of School, meu coração até se aperta.

Mas é quando leio Ricardo Semler afirmando “trocaria uma aula de matemática por uma hora de videogame”, é que perco mais uma parte da esperança na educação formal.

😔

Ele tentou fazer sua revolução quando eu tinha exatamente a idade dos meus nerds, 12 e 15 anos. Nos anos 1980, Semler ficou famoso por seu livro que contava como revolucionou a gestão de sua empresa, a Semco. Ele criou um modelo em que os funcionários avaliam e escolhem os próprios chefes e não têm horário ou mesmo obrigação de aparecer no escritório. Os lucros explodiram, levando o sistema a ser copiado em várias partes do mundo.


Maluco e com tudo do modelo de sociedade dos sonhos, né?

E de escola? Será?

Nas décadas que se passaram desde o sucesso de Virando a própria mesa, Ricardo Semler se tornou crítico impiedoso do nosso modelo de ensino e fundou (no começo dos anos 2000) o Instituto Lumiar, que mantém, em São Paulo, duas escolas particulares e uma pública.

Dizem que nas suas escolas não há a figura tradicional do professor, as turmas são agrupadas por faixas etárias ampliadas e os alunos escolhem em que ordem trabalham os tópicos do currículo.

Preciso contar da reação dos meus filhos adolescentes quando nossa amiga Elenara indicou um artigo sobre esse modelo educacional para lermos juntos?

Foi um dia depois de um papo longo que ela, arquiteta que seguiu todo modelo tradicional (da escola ao mestrado), teve com meus garotos durante um almoço. Fiquei como ouvinte, fingindo nem prestar muita atenção, curiosa com os pontos que ela levantava para os dois pensarem sobre o que desejam, o que gostam e o que acham que fazem bem.

As perguntas de um e as respostas do outro foram também uma aula sobre os adolescentes, dessas que a escola tem deixado de oportunizar há tempos – se é que um dia o fez!

Não conheço a metodologia escolar do Semler na Lumiar, mas admito que como mãe eu tendo a dois comportamentos: manter na escola por pura socialização (não só com colegas, mas com o modelo social atual) e fazer no restante do tempo o máximo de unschooling possível. 

Mesmo vivendo na maior cidade da América Latina e com condições financeiras para “escolher” a melhor escola, eu não mudaria o restante das nossas vidas (moradia, comunidade, rotina de transporte) para buscar uma escola melhor. Por isso creio que sou uma mãe da linha unschooling, pois prefiro salvar meu tempo para dividir o que sei e descubro com meus filhos, aprendendo juntos o tempo todo.

Mas, para quem ficou curioso com as críticas de Semler e suas propostas, salvei dois trechos.

“Hoje, o conhecimento de todos os professores de uma boa escola cabe num pen drive. Por que estamos usando o cérebro das crianças para armazenar conhecimento, quando um minuto de pesquisa no Google resolve? No ano 1400, ou mesmo em 1900, era necessário. Hoje, é imbecilidade institucional, que apenas desgasta e elimina a magia do conhecimento, que vai se esvaindo na medida em que se pedem equações inócuas ou descrições de átomo, formatadas por escritores de terceiro time, que ganham para criar nomenclaturas rasas.”

  

 

“A ideia dos defensores da decoreba é que qualquer matéria ou conteúdo é útil – que é o ato de memorizar que desenvolve o raciocínio. Com base na ciência cognitiva não vejo estudo algum que indique correlação entre conteúdo insosso e habilidade cerebral. Há, por outro lado, estudos claros provando que o videogame desenvolve habilidades sensoriais, espaciais e de coordenação motora. Os defensores da decoreba são a favor de substituir uma aula por dia de matemática por videogame? Eu sou. Outros educadores falam da diminuição do tempo de atenção. Em 1909, a Universidade de Chicago descobriu que era de 52 minutos. Em 2004, o estudo foi refeito e indicou uma atenção de oito minutos. A meninada, logicamente, tem oito minutos de paciência para o conteúdo vazio e inerte que está nas apostilas. Por outro lado, coloque seu filho para passar de fase num game de batalha cibernética – volte depois de quatro horas e lá estará ele, ainda tentando passar de fase. É preguiça e covardia defender que devemos empurrar goela abaixo matérias áridas, ao invés de usar a nova tecnologia para fazer do aprendizado algo entusiasmante.”

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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