Quando o táxi é mais barato do que carro

Se você for como eu, meio New Yorker, que prefere a combinação metrô + taxi para seus deslocamentos, deve sentir uma pontadinha de vontade de abandonar o carro quando vê notícias como a que a Folha de S. Paulo mostrou no domingo. Lá estavam bons exemplos de gente que deixou de ter carro, optando por esta vida mais prática e que, segundo a matéria, é mais barata também. Ao ler que a primeira personagem era uma aposentada de 69 anos, quem não pensa em largar o carro já vai pensando “mas aposentado, é fácil ficar sem carro!”, não é mesmo?

Verdade, é mais fácil usar transporte público quando a gente não pega metrô (ou ônibus e trem) em horário de pico! Mas tem bons motivos para deixar de usar o carro, como os cálculos feitos pelo professor de finanças pessoais da Fundação Getúlio Vargas, Samy Dana, que comparou os custos anuais para manter um carro e para andar de táxi. Segundo sua matemática, que não consideram o custo baixo do transporte público, mas sim a conta para quem trocar carro por taxi, tem muita gente que poderia abrir mão do carro.

Para quem roda até 15 km por dia entre ida e volta (do trabalho, por exemplo), o táxi sai (1%) mais barato do que manter um veículo de R$ 40 mil (preço médio dos carros novos vendidos no país).

O custo anual para rodar aproximadamente 5.500 km com carro particular é de cerca de R$ 17.300. Isso quando o dono arca com combustível e todas as taxas, como inspeção, seguro e estacionamento. A depreciação do veículo também está inclusa_o Datafolha calcula que o carro perde 7% do valor ao ano.

A conta foi feita considerando um carro médio (o valor do carro, se aplicado, renderia R$ 300 por mês). Se fosse um modelo de carro popular (de R$ 25 mil e com motor 1.0, mais econômico), a conta muda e o táxi só compensaria para quem roda até 10 km/dia e o custo anual para percorrer 3.600 km seria de R$ 12.463. Fiz as contas e, apesar de termos toda vida organizada perto de casa, como quando saímos para reuniões vamos longe e gostamos muito de viajar de carro, para nós a conta ainda não é compensadora.

[Curitiba] Trânsito na frente da Ópera de Arame

Mas, admito, duas coisas me chamaram atenção na matéria: saber como gastamos sem perceber (a gente não faz todas as contas, mas tem muitos gastos indiretos por usar o próprio carro) e confirmar minha desconfiança de que a tarifa de táxi na capital paulista é cara (custa quase o dobro da de Buenos Aires) – se você mora em outra cidade pode comparar: aqui, além dos R$ 4,10 iniciais, há o acréscimo de R$ 2,50 por quilômetro rodado e depois das 20h o valor aumenta 30%. Ainda assim, como dizia uma das entrevistadas (que deixou o carro depois da Lei Seca e descobriu que saia mais barato do que pagar vallet e estacionamento), em muitas situações acho que o taxi, mesmo mais caro, compensa porque nos livra de riscos (como dirigir tarde da noite, cansados ou com reflexos mais lentos por conta de algum jantar ou coquetel) e nos deixa livres para ocuparmos o tempo dispensado no translado para alguma coisa mais útil (ler, falar ao telefone, trabalhar no celular, sei lá). É uma conta que, mais do que feita em km e reais, deve ser feita por cada um de nós sobre a vida qualificada que desejamos ter.

E a sustentabilidade, como fica?

Pois é, a troca ajuda só por reduzir a quantidade de carros vendidos. Na prática do trânsito, é uma troca relativa. Na matéria o especialista em engenharia de tráfego Sérgio Ejzemberg ponderava que “tanto faz usar táxi ou carro – porque o veículo individual vai ocupar o mesmo espaço na rua. A solução mais adequada é o transporte coletivo, como o metrô“. Mas ele mesmo admite, “as pessoas só desistirão do carro quando houver um transporte coletivo decente – com o mínimo de conforto”.

Infelizmente não é assim. Mas, se a gente se empenhasse de forma coletiva, creio que poderia ser. Quer um exemplo? Horário de entrada no trabalho! Todo mundo precisa mesmo entrar no trabalho no começo da manhã? Eu acho que não! No Japão, onde há um uso maior de transporte coletivo (e são raros os taxis!), há horários diversificados. Quando eu morava lá, há uma década, as fábricas começavam os turnos entre 6h30 e 7h30, as escolas um pouco mais tarde e os escritórios às 10h. As crianças saiam da escola por volta das 15h e em seguida começávamos a ver o fluxo de trabalhadores acabar seus turnos de 8h (ou pouco mais, para quem faz hora extra, que é devidamente remunerada lá) até o começo da noite, quando já tinha outro turno chegando nas indústrias ou na área de entretenimento.

E se a gente não precisasse se apinhar no trânsito na mesma hora, como seria? Uma das coisas que aconteceria seria o que flagrei na foto abaixo, tirada numa terça-feira ao meio-dia na linha Verde do metrô de São Paulo, perto da Estação Tamanduateí: carro vazio e tranquilidade. 😉

Meio dia e a linha verde está totalmente vazia na estação Tamaduateí - dimencionamento errado ou falta hábito de metrô para o público deste lado da ZL?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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