a vida quer

Não tive tempo de escrever aqui sobre os catarinenses, apesar de estar atenta à situação e informada por amigos e familiares que temos lá. E hoje meu marido, que nasceu em Santa Catarina (não no Vale do Itajaí, já no planalto, em Lages), me mandou uma mensagem linda. Compartilho-a aqui na íntegra com todos para reflexionarmos. Deixo também, na imagem, informações para quem queira ajudar com doações materiais. Nós limpamos guarda-roupas aqui e levamos tudo ao Corpo de Bombeiros, lembrando de levar além de roupas e calçados, edredons, lençóis, enfim, coisas que uma pessoa que vai montar uma nova casa precisa.

Estive em Blumenau numa Oktober Fest em 1990 e vivi uma enchurrada forte, que me deixou sem condições de voltar à casa da família que me hospedava e pude sentir de perto como aquele povo é maravilhoso. Aprendi o real significado da palavra solidariedade quando uma familia nos viu na chuva tentando avançar para chegar ao bairro onde nosso amigo morava e nos acolheu, no escuro, sem nos ver direito, dando-nos abrigo, roupas limpas e quentes, comida e carinho. Na manhã seguinte, quando o sol saiu, fui com minha irmã (e outros colegas de Interact Club) a um abrigo e passamos o dia inteiro ajudando a separar donativos. Aquelas horas estão entre as mais importantes que já vivi. Criamos um vínculo sem par e minha adolescência mudou naquela noite, aprendi que eu posso fazer diferença e que sempre temos a chance de agir e fazer o bem.

Segue o texto do e-mail que Gui me enviou e era assinado por Luiz Fernando Gigena (não sei quem é, se é mesmo o autor porque é um daqueles e-mails de corrente, tipo spam):

“Hoje 27 de novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar. A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta “folga forçada” a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter aonde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.


As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagens claras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando e descrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas.

Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos. As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recupera-la no seguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.

Que aquela entidade superior que cada um acredita e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:

– Que se aproveitaram a situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros
– Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assim como a estrutura física da mesma.
– Que pediam 5 reais por um litro de água mineral.
– Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás.
– Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas.
– Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas.
– Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava.
– Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para não ter suas casas saqueadas.
– Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração.
– Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.

Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:

– Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma.
– Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver.
– A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença.
– À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida.
– Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul.
– Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras que trouxeram caminhões e caminhões de mantimentos.
– Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram com veteranos.
– Aos Bombeiros e Policias locais que resgataram, cuidaram , orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas.
– Aos Médicos Voluntários.
– Às enfermeiras Voluntárias.
– Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos.
– Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exercito que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso.
– Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar.
– Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade.
– Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa.
– Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem.
– Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos.
– Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem.
– A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa.
– A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou.
– A todos que oraram por todos.
– Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas.
– Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira.
– A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente.
– A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém.
– A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.

Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:

COMEÇAR DE NOVO

Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa laje

É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente. Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescer como ser humano.
Pelo menos é a minha hora, acredito.

Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério
Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires
Até que me deram abrigo e alimento
Eu tinha aversão a Judeus
Até darem remédios aos meus filhos
Eu adorava exibir a minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com hipotermia
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida
Até que tive fome
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava os idosos
Até participar dos resgates
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome
Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos
Eu não ouvia rádio
Até ser ela que manteve a minha energia
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias
Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos
Agora nem tanto
Eu vivia numa comunidade com uma classe política
Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora
Eu não lembrava o nome de todos os estados
Agora guardo cada um no coração
Eu não tinha boa memória
Talvez por isso eu não lembre de todo mundo
Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio
Graças a Deus
Vamos começar de novo.

Anônimo

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas