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Se você respondeu à pergunta do título falando das metrópoles, como São Paulo e Cidade do México, é hora de rever alguns conceitos.

Mas tem um pouco de sentido.

Se os principais fatores de poluição em uma cidade são o tráfego, os sistemas de refrigeração e calefação, a produção industrial e o lixo, pode-se imaginar que quando maior é a cidade, maior é a contaminação.

No entanto, de acordo com um relatório recente da Organização Mundial de Saúde sobre a poluição do ar, apesar da constatação de que as principais cidades da América Latina – como Cidade do México, Buenos Aires, Bogotá, Caracas, Lima ou São Paulo – têm concentrações de material particulado (partículas finas de sólidos ou líquidos suspensas no ar ou PM, na sigla em inglês) maiores que os valores recomendados, não é uma metrópole a campeã.

A cidade mais poluída é Coyhaique, no sul do Chile. Com apenas 63 mil habitantes, é a cidade que tem a mais alta concentração de materiais particulados no continente.

Ninguém diria que este paraíso teria problemas ambientais, não é mesmo?

Entenda:

  • A OMS mede dois tipos de material particulado, o PM10 e o PM2,5, cuja diferença está no tamanho das partículas poluidoras – como sulfato, nitratos e carbono – que penetram nos pulmões e no sistema cardiovascular.
  • Os valores que a OMS considera seguros para a saúde são 20µm e 10µm, respectivamente (1 µm equivale à milésima parte do milímetro).
  • As mais finas são as mais perigosas porque podem entrar no sistema respiratório, e, dali, passar ao sanguíneo.

E em 2014, Coyhaique registrou 75µm de PM10 e 64µm de PM2,5.

Antes de pensar “não vou mais pro Chile!”, vale saber que nosso vizinho é um dos países da região que mais monitora a contaminação do ar em suas cidades. E torna públicos os dados.

Há um ano, eu desisti de uma viagem em família para Santiago, capital do país, porque vi um anúncio oficial do governo chileno sobre a poluição. Eu já tinha até apartamento reservado no AirBnB para a estadia e foi o alerta que me fez voltar atrás (afinal, eu tenho crianças, uma na época com apenas 2 anos) e esta situação só reforçou minha simpatia pelo país.

Por outro lado, já vejo com olhos menos simpáticos quem não divulga estes dados. Para o relatório da OMS, as autoridades chilenas forneceram os dados de mais de 20 cidades, enquanto que países como Argentina, Venezuela e Peru só forneceram os dados de suas capitais.

Que dados será que nosso país colhe e divulga?

No Brasil, o Ministério do Meio Ambiente é que faz a gestão da qualidade do ar, que mais especificamente é uma atribuição da Gerência de Qualidade do Ar (GQA), vinculada ao Departamento de Qualidade Ambiental na Indústria. Segundo o site do MMA, “esta gerência foi criada com o objetivo de formular políticas e executar as ações necessárias, no âmbito do Governo Federal, à preservação e a melhoria da qualidade do ar”.

No site há também mais explicações sobre os padrões de qualidade do ar (PQAr:

Segundo publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2005, variam de acordo com a abordagem adotada para balancear riscos à saúde, viabilidade técnica, considerações econômicas e vários outros fatores políticos e sociais, que por sua vez dependem, entre outras coisas, do nível de desenvolvimento e da capacidade nacional de gerenciar a qualidade do ar. As diretrizes recomendadas pela OMS levam em conta esta heterogeneidade e, em particular, reconhecem que, ao formularem políticas de qualidade do ar, os governos devem considerar cuidadosamente suas circunstâncias locais antes de adotarem os valores propostos como padrões nacionais.

cidade mais poluida do brasil cubatas - Imagem: Lalo de Almeida/Folha Imagem

Lembra dela? Famosa pela poluição causada pela indústria petroquímica, a região de Cubatão, no litoral de São Paulo, é a segunda mais poluída no Brasil e foi 204º do mundo.

E como estão as nossas cidades? Veja alguns exemplos:

  • A região metropolitana do Rio de Janeiro foi a mais poluída do Brasil segundo estudo da OMS, ficando em 144º no ranking mundial
  • A região metropolitana de São Paulo vem logo depois de Campinas, é a quarta mais poluída do país e 268º do mundo. A região metropolitana tem uma média de poluição de 38 microgramas por metro cúbico de ar, duas vezes mais ao ideal recomendado pela OMS
  • A região de Campinas, próxima de São Paulo, está mais poluída do que a capital, sendo a terceira mais poluída do Brasil e a 267º do mundo
  • Curitiba, conhecida por seus parques e por ser uma cidade verde, tem a quinta região metropolitana mais poluída do Brasil e a 360º do mundo

No Brasil os padrões de qualidade do ar foram estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 3/1990, sendo de acordo com esta resolução divididos em padrões primários e secundários. Quem é nerd e gosta de saber mais, pode ver algumas publicações da Gerência de Qualidade do Ar:

– Plano Nacional de Qualidade do Ar – 2009

– 1º Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários – 2011

– 1º Diagnóstico da Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar no Brasil – 2014

– Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários 2013: Ano-Base 2012 – 2014

 

Essas medidas oficiais foram muito criticadas em 2012. Sim, já faz 4 anos, eu sei. Mas o fato é que um estudo realizado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) comparou os limites brasileiros com os usados por EUA, União Europeia e vários outros países, além das últimas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e concluiu que, com exceção do monóxido de carbono (CO) e da concentração de ozônio (O3) respirável, padrão de qualidade do ar adotado pelo Brasil está defasado e a regulamentação no país deixa a desejar com relação aos principais poluentes atmosféricos, como material particulado, dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de nitrogênio (NOx). Pior: a medida para alguns poluentes segue diretrizes com quase 40 anos de idade, necessitando por isso rediscussão urgente para preservar a saúde da população e o ambiente.

Então é um assunto para ficarmos de olho! Vem comigo?


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