Quais as qualidades mais valorizadas nos dias de hoje?

Li ontem, na Folha, um texto de Danuza Leão que me chamou atenção porque segue exatamente a linha de raciocínio que usei, há cerca de um ano, na minha apresentação de “case de sucesso” da implantação do relacionamento da rede de blogs MdeMulher (da Abril, da qual fui curadora por dois anos): a de que caráter e conteúdo trariam, inevitavelmente, relevância.

Vejam, não falo de sucesso. Afinal, sucesso é uma coisa para as massas, funciona bem com o que Nelson Rodrigues chamou de “turba enfurecida” e que (palavras dele também) é facilmente levada pela “unanimidade burra”. Se tornar fã de última hora de um visionário da tecnologia ou criticar repetidamente determinado político são duas atividades que coloco na linha destes modismos que caracterizam a turba, que segue mais o grito da torcida do que o campeonato de fato. Pode até ter sentido, mas carece de profundidade e engajamento real, duas qualidades que eu aprecio e às quais estão condicionadas minhas escolhas. 

Pois Danuza perguntava neste domingo: “Quais as qualidades mais valorizadas nos dias de hoje?

E eu, como gostei demais do texto e já palpitei mais do que devia, republico-o abaixo para pensarmos juntos.

A caminho da Otagai Mídias Sociais nesta manhã, vejam que imagem linda numa calçada da Mooca.  Pequenas surpresas da natureza "que só viram os levantaram para trabalhar no alvorecer, que foi bonito..."
"Além da bondade, quem ainda tem coração para apreciar as pequenas belezas do cotidiano? Preste atenção nestas pessoas à sua volta, elas podem ser as mais generosas que você encontra!"

 

“Quais as qualidades mais valorizadas nos dias de hoje?

Bem, como tudo mudou, vou falar de algumas, as que dão mais ibope, e não pela ordem.

É preciso ser ligado, antenado e sobretudo bem informado; é aquele que presta atenção a tudo, a quem nada escapa.

Com esses predicados, é possível abrir as portas para uma carreira brilhante e um futuro promissor, e se tiver também alguma inteligência, o sucesso é garantido. Afinal, é por meio das boas informações que são feitos os grandes negócios e as tramas políticas acontecem.

Mas é preciso também ser esperto para usar essas informações na hora certa, com a pessoa certa.

Esperteza, essa sim, uma enorme qualidade. Quem tiver esse dom pode se tornar milionário e poderoso, o objetivo supremo de toda a humanidade -de quase toda, digamos.

Cultura já esteve mais em alta, mas tem sua vez em algumas rodas, e conhecer profundamente um assunto -mesmo só um- costuma deixar as pessoas de queixo caído.

Mas não se esqueça: seja ele qual for, vá fundo e mostre-se um expert. Que seja algo de original: a civilização egípcia, por exemplo. Como poucas pessoas viram uma múmia de perto, esse é um belíssimo tema para ser jogado num jantar de seis pessoas -elas vão babar de admiração, e você vai brilhar sozinho.

Os mistérios do fundo do mar e a vida sexual dos cangurus também podem agradar, mas fuja da astrologia e da psicanálise, que já deram tudo o que tinham para dar. Astronomia, quem sabe? Vinhos, melhor beber do que falar deles, e de viagens, nem pensar.

Outra qualidade muito valorizada é a dos que leem os jornais -bem. Todos os do Rio e de São Paulo, claro, e talvez de mais uns quatro Estados. Mas tem que ser falado a sério, para poderem dizer, como quem não quer nada, que concordam -ou discordam, isso não tem a menor importância- com a divisão dos royalties do pré-sal.

Saber esgrimar com as palavras também faz grande sucesso, mas é perigoso: sempre pode haver alguém mais talentoso e ferrar você de vez.

Mas quando quiser falar mal de alguém, seja irônico -é mais cruel, não compromete, não dá processo- e nunca diga nada que possa ser repetido: fale bem, mas usando tons de voz e sorrisinhos que vão arrasar, de vez, aqueles de quem você não gosta.

Mas um dia você se lembra de que há muito, muito tempo, existiam qualidades bem diferentes dessas, e que hoje não fazem o menor sucesso. Tem sentido, hoje em dia, dizer de uma pessoa que ela tem um excelente caráter? Que é sincera? Que nela você pode confiar? Se você gosta de verdade dela, é melhor ficar calado, pois pega até mal dizer essas coisas de um amigo.

E existem ainda outras de que não se ouve falar há tanto tempo, mas tanto, que já virou até coisa de época. Passa pela cabeça dizer que uma pessoa é sensível, terna, delicada, bem educada, que tem um grande coração? Pega até mal; e passa pela sua cabeça que uma pessoa é bondosa?

Procure lembrar há quantos anos você não ouve falar de um gesto de bondade, não recebe um olhar de bondade, não ouve nem pronuncia a palavra bondade -se é que isso ainda existe.

Se não souber do que se trata, procure no dicionário, e talvez encontre; talvez.”

P.S. O evento do qual falei é o ThinkWeb, em Campinas, e eu escrevi sobre ele em Pessoas bem resolvidas não tem medo de compartilhar conhecimento.

Quem tem caráter é uma pessoa bem resolvida e consegue manter um relacionamento estável e duradouro, quem tem conteúdo não tem medo de compartilhar conhecimento (mesmo que entre seus pares), quem tem os dois (caráter e conteúdo) fatalmente terá relevância onde quer que se insira.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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