destaque / girl up!

Uma coisa muito bonita que tem acontecido ao meu redor nos últimos anos acontece nos cabelos das minhas amigas negras ou que têm cabelos crespos. Elas estão voltando às suas origens. Às vezes passo alguns meses sem ver uma amiga e quando nos encontramos, tenho uma surpresa: ela está altiva, linda e única com seu cabelo de verdade.

Mas o processo não é fácil. Primeiro é preciso vencer a cobrança social pelo cabelo liso. Em todo lugar há uma propaganda para alisar, uma chapinha barata, um secador que faz escova sozinho, milhões de cremes, sem falar das Paquitas e Princesas que 99% das vezes têm cabelos esvoaçantes e super lisos. Depois, é preciso ter paciência porque o cabelo crespo demora muito mais a crescer e aparecer. Sei bem porque embora eu seja “japa da raiz à ponta”, minha mãe e minha filha têm cabelos ondulados e aprendo com elas. Em terceiro lugar, é preciso vencer o preconceito e suportar a inveja porque o cabelo afro quanto bem cuidado, fica majestoso e chama atenção.

tais araujo sofre preconceito pelo cabelo afro

Foi assim há poucos dias com Taís Araújo e há alguns meses com Maria Júlia Coutinho. E falar sobre o tema faz com que meninas e mulheres sintam-se seguras para contar das suas histórias (será que na primeira vez em que elas ouviram que tinham “cabelo ruim” elas tinham idade para entender?) e para se sentirem parte de um todo maior do que os preconceituosos. Se o Brasil é um país de maioria negra, imagina como ficariam acuados os preconceituosos se os negros se unissem?  Calariam a boca de todos.

Mas, embora esta seja a semana da Consciência Negra, este não é mais um post manifesto, até porque, como eu sou parte de outra minoria (os 2% de amarelos que vivem no Brasil), não me sinto apta a falar sobre este preconceito racial.

Quero contar de projetos muito legais que ajudam a resgatar os cabelos crespos.

Descobri o projeto raízes quando escrevi sobre Os heróis negros e a identidade étnica e Projeto Identidade, uma exposição fotográfica que apresenta ícones populares (originalmente brancos) representados por pessoas negras. Nas palavras da fotógrafa Maria Reis, o Raízes “tem como prioridade incentivar a mulher negra que passou pela transição capilar a amar o seu cabelo e a si mesma, se emponderar, mostrar o orgulho de carregar consigo essa cultura, desafiar a sociedade com o amor pelas suas raízes, visto que, na mídia, o padrão de beleza que predomina é o branco, que se reproduz no trabalho, na rua, na sala de aula e muitas vezes, em casa”.

Ela reune em seu site personagens inspiradoras que lembram a gente ou as amigas da gente. O intuito é mostrar por meio de relatos e fotografias, a relação da mulher negra com o seu cabelo e como ela é vista na sociedade.

“Meu nome é Elaine, tenho 18 anos. Decidi entrar em transição capilar em 2013. Eu passava pelo processo de fazer a química a cada três meses e estava cansada, porque sempre gostei muito do meu cabelo, apesar do volume, (que era o que eu não gostava) ele estava ficando detonado, sem vida e eu ficava pensando o que eu tinha que fazer…”

“Meu nome é Anna, tenho 25 anos e decidi entrar em transição quando fui para os Estados Unidos pelo Ciências Sem Fronteiras. Viajei com o cabelo liso e percebi que as negras de lá valorizam muito a cultura afroamericana, usam o cabelo natural, elas fazem questão de mostrar e foi aí que eu vi as tranças e decidi que queria fazer. “

Maria Reis contou que a ideia do projeto surgiu em várias pesquisas e se reforçou com um um grupo no Facebook chamado ‘No poo, low poo para iniciantes’, sobre a técnica capilar que usa produtos menos agressivos ao cabelo, à saúde e ainda ‘resgata’ a forma natural dos fios. Creio que a cabeleireira Lorraine Massey não focava só as mulheres negras divulgou a técnica em seu livro Curly Girl, mas foi esta proposta deutilização de pouco shampoo (Low Poo) e de produtos químicos que fez com que muitas mulheres se falassem sobre a dificuldade de fazer a transição capilar e voltar ao seu cabelo original.

E como no caso das mães que se empoderam ao conversar, as mulheres de cabelos crespos precisam se ver umas nas outras.

Entrevistados das raizes as pontas

Aqui entra o segundo projeto bonito que trago para vocês.

Das raízes às Pontas é um curta-metragem documentário que aborda o resgate das raízes negras a partir dos cabelos crespos, um filme que propõe estimular o público a se relacionar bem com o cabelo na forma natural e, consequentemente, promover a aceitação e a aproximação com a origem de sua cultura. A diretora Flora Egécia e a roteirista Débora Morais contam que “encontraram no filme uma forma de propor a reflexão do lugar de homens e mulheres negras na sociedade contemporânea, diante dos padrões de beleza atuais e a importância de pautar a história dos negros no brasil desde as primeiras experiências na infância”. E começa na infância, tanto na vida real quanto neste documentário, que a partir da vida de Luíza, uma menina de 12 anos educada de forma muito positiva pelos pais, vivendo com orgulho dos seus cachos, traz o link e o gancho para as histórias que retratam muitas mulheres brasileiras.

P.S. O tema me é caro e no começo de 2014 tive a honra de estar com grandes figuras do movimento negro do Brasil e dos EUA num encontro com o ativista Joe Beasley, do People of Color Now International, onde pude aprender mais e reforçar meus argumentos a favor de uma Boa Consciência Negra. E vi esta transição acontecer com meu querido amigo, sobrinho do coração, Renê Silva, do Voz da comunidade, que voltou de NY mudado e orgulhoso de seu cabelo. Por mais gente que faça as pessoas se sentirem lindas como elas são.

 


Comments

  1. […] como nós defendemos o #afrobetizar a cultura pop, a escola, a aparência, a universidade, as empresas, esta entrevista é perfeita para o Dia da Consciência […]

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