Programa Mães da Luz

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Na final da Copa do Mundo da Rússia, eu comentei aqui sobre dependência química e citei casos reais sobre tratamentos, do desabado de Casagrande até as controvérsias sobre o AA.

Hoje trago um projeto que, como no caso do Celebrando a Recuperação, tenho acompanhado e considero útil para quem não tem recursos.

O programa Mães da Luz, coordenado pela SMDHC (Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania), completou seu 1º ano de trabalho. O programa foi criado com o objetivo de acolher, informar e orientar os familiares de dependentes químicos, em especial, usuários da cracolândia, sobre os problemas relacionados ao uso de substâncias e a dependência química.

Segundo os dados da Pesquisa do LENAD Família (Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos), pelo menos 28 milhões de pessoas vivem no país com um dependente químico. A dependência química tem um efeito perturbador e prejudicial sobre a vida dos familiares. Muitas vezes os familiares sequer conhecem os problemas causados pelo uso das drogas, não sabem como lidar com o dependente e muito menos com o grave problema que se instalou em sua residência.

Enfim, é uma condição de saúde que não escolhe classe, gênero, nada. E precisamos saber como ajudar quem sofre, tanto o dependente quanto sua família.

E uma coragem do preposto: inclui o vício com tabaco, o cigarro comum.

Republico aqui uma entrevista que li com coordenador do programa, Miguel Tortorelli:

Qual a importância do Programa Mães da Luz?

O Programa Mães da Luz foi criado pela Dra. Eloisa Arruda, no início de sua gestão da SMDHC, que vendo o aumento do consumo de álcool e drogas, percebeu que não apenas as pessoas que se submetiam a esta conduta, resultado da doença a que se acometiam, sofriam o reflexo da doença, mas levavam junto suas famílias, que na ignorância desconheciam caminhos a tomar. Entendendo da importância do acolhimento e orientação a ser oferecido a essas pessoas, considerou que tal programa deveria ser conduzido por pessoas que já tivessem enfrentado o problema e assim deu-se início o Programa Mães da Luz, onde todos os integrantes do grupo que o forma,  conduzem seu acolhimento e orientação, sem julgamento de valor, conhecendo os comportamentos codependentes que esses familiares possuem, e os ajuda a reeducar, e reequilibrar suas vidas de forma a tomar atitudes que apoiem o seu familiar que enfrenta a doença, a encontrar a sobriedade.

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Por gentileza, faça um resumo desse 1º ano de trabalho, falando sobre ajuda para as mães, dificuldades encontradas, preconceitos, alegrias e outros.

No início tivemos dificuldade para que, não apenas os familiares, mas também os pares da gestão pública, entendessem qual o papel que estávamos prontos a desempenhar. Muitos nos olhavam apenas como mais um grupo que quer internar outra pessoa, mas o nosso verdadeiro papel era o de ouvir, a escuta é importante, e então baseado nas nossas experiências orientar, e até, em muitos casos, sugerir caminhos que conduzissem tanto a família, quanto o familiar no uso e abuso de droga, para apoios como Grupos de Apoio (Anônimos ou Não), Orientação Jurídica, e até a condução ao Setor de Saúde, que poderia promover a internação. Sofremos o preconceito natural de quem entra num processo continuo porem atuamos de forma distinta na sua humanização, pois já passamos pela experiência da dependência química. A alegria reside no fato de que muitos gestores públicos já entendem nosso maior objetivo, e ainda a grande alegria em verificar que inúmeros daqueles que passaram por nossa Coordenação hoje se encontram na busca de sua sobriedade. Em verdade, ao termino desses 12 meses promovemos 8813 atendimentos que agregaram valor na vida de cada pessoa que conosco compartilhou dessa experiência.

 

As mães e os familiares que procuram o programa são incentivados a participar de grupos de apoio, como funciona e qual seu objetivo principal do grupo?

Para que uma pessoa ajude a outra, ela precisa estar saudável. Esta é a máxima de qualquer situação de apoio a outrem. Se você quer que o seu familiar pare de usar drogas, você precisa, inicialmente, não estar tão doente quanto ele. Se uma pessoa usa uma droga que altera o seu padrão de comportamento, ela precisa orientação para que cesse o uso dessa droga. Muitas vezes ela se submete a internação, para reeducar seus hábitos, entendendo mais sobre o que acontece com seu corpo a medida que usa tal substância, e com isso apoiada pela orientação técnica, e por um grupo de pessoas que enfrentam a mesma situação, ela buscará a sobriedade. As famílias não usam a droga, mas transformam o seu familiar na sua “droga”, e a partir desse momento alteram o seu padrão de comportamento, atingindo a condição de doente, no que chamamos Codependência. Na tentativa de controlar e decidir o rumo do outro, perdem o rumo de sua própria vida, e claro a do outro também, por isso exigimos que todos os familiares que acessam nosso serviço participem de Grupos de Apoio (Anônimos ou Não) para que possam rever seus comportamentos e encontrar caminhos que os ajude a atingir uma sobriedade suficiente para apoiar o seu familiar no mesmo caminho.

 

A equipe do programa está sempre motivada e todos falam do trabalho com emoção, qual o segredo para mantê-los motivados?

Por existir, na história de vida de cada um dos integrantes, o enfrentamento da dificuldade, e dos males da dependência química (como se diz “sentir na pele”), todos se dedicam de corpo e alma para auxiliar àquelas pessoas que precisam, e procuram o Programa Mães da Luz. Essa experiência pessoal moldou cada um a entender que a melhor forma de tratar essas pessoas, sejam os próprios dependentes, ou suas famílias, é com amor, paciência e limites para aguardar o tempo de cada um. Um “amor que orienta, exige e educa”. Essa é uma das maiores lições de vida, que motiva a equipe a fazer o que faz. Alias essa máxima sobre o amor, é a base de orientação que os membros do Programa possuem, já que todos são oriundos do Amor-Exigente, um Programa de Qualidade de Vida, cujo objetivo maior é resgatar o equilíbrio familiar, reeducando seu comportamento.

 

Caso alguém tenha perdido contato com o seu familiar por causa do uso de drogas, o Mães da Luz conta com uma equipe que faz a busca nos bancos de dados de outras pastas municipais para auxiliar na localização. Como vem sendo realizado esse trabalho?

Possuímos um serviço de apoio a famílias que buscam seus familiares em zonas de risco, e que tem mostrado bom desempenho. Esse serviço está agregado a outros órgãos públicos – Saúde e Segurança Pública, que nos apoiam de forma e tem a sua base na nossa Secretaria com um Departamento de Localização de Desaparecidos.

Acompanhe a fanpage do Programa Mães da Luz:  https://www.facebook.com/maesdaluz/

Quem se identifica com o tema está aguardando o filme Beautiful Boy (Querido Menino), baseado no aclamado livro autobiográfico de David Scheff, que conta a delicada história de um pai tentando recuperar o filho dependente químico.

Baseado em pesquisas, como a indicação de que filhos de pais separados têm maior propensão ao uso de drogas pesadas, o autor vai escalando os degraus doloridos que seu filho sobe. Mas, antes, ele relembra a infância de Nic e narra a vida de uma criança tranqüila, alegre e carismática.

O problema é quando o menino dedicado, estudioso e inteligente começa a demostrar sinais de distração, irritabilidade e outros comportamentos que diferem de quem ele era.

O pai pergunta: o que está acontecendo com meu filho? Descobre: aos 12 anos Nic começa a fumar maconha e aos 17 passa a usar drogas pesadas, como cocaína e metanfetamina.

O pai tem a impressão que vai perder seu filho para as drogas e resolve travar uma batalha. Interna o filho diversas vezes (em clínicas com tratamentos diferenciados: a cada internação, um método) e ouve sempre na saída da clínica: “pai, foi a última vez”. Mas, não. A cada recaída do filho, o pai não dorme, se culpa, tem um derrame cerebral (se salva) e tenta achar a explicação, o porquê de isto ter acontecido com seu filho – tão bem criado. Não há respostas, diz o próprio autor, só alternativas.

São elas, as alternativas para aliviar a dor e o sofrimento, que o autor vai oferecendo no decorrer do livro. Querido menino é o relato emocionado de um pai-autor que ainda sofre com o drama do filho.

O afeto que sinto pelo meu filho é temperado pelo medo que sinto dele”, diz David Sheff.

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.