Professores digitais – e as mudanças sociais na educação



O que vai mudar é que o professor que despeja automaticamente os conteúdos será mesmo dispensável, pois será mais caro e menos eficiente do que uma tela de computador.”
Gilberto Dimenstein, sobre os novos professores

Confesso que não lembro mais qual foi o primeiro tuite que vi citando este texto de Dimenstein, tantas foram as indicações nesta semana. E para quem não usa o “microblog” (uma rede social e tanto!), achei legal deixar aqui um trecho e o convite para que leiam o texto completo no site.  É inspirador e daqueles que merecem ser indicados para os amigos.

O texto começa contando como Bill Gates, dono da Microsoft e de uma fundação que estuda a educação, se tornou um entusiasta da educação à distância por crer em professores inspiradores como Salman Khan, da Khan Academy (o moço da foto acima).

“Filho de família da Índia e de Bangladesh, Khan tem um currículo capaz de impressionar qualquer gênio: no MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), fez matemática, engenharia elétrica e ciência da computação; em Harvard, administração. Mas o que impressiona mesmo Gates é o valor das aulas: são de graça e acessíveis a qualquer um – aliás, neste momento, se quiser, você também pode entrar na internet e receber as mesmas aulas.”

O que nos faz pensar, além da sugestão de Khan de oferecer “world-class education for anyone, anywhere” (aulas de alto nível para todo mundo, em todo lugar), é a afirmação de Gates de que seria “melhor uma boa aula desse tipo do que as dadas por professores medíocres”.

Criada até os 13 anos no interiorzão, com acesso restrito à formação avançada, entendo perfeitamente o conceito. Tive professores bons, mas boa parte deles não tinha visão de mundo para compreender (quiçá atender) meus questionamentos. Isso me causou grande sofrimento e me fez descobrir no self-study a solução para ir além. E com meus filhos tenho adotado, nesta primeira década como mãe, um misto de escola tradicional (muito mais focada no aprendizado humano, na troca que a socialização permite) e homeschooling para responder aos interesses avançados em áreas de interesse dos meus filhos e que antecipam ou avançam o conteúdo previsto pela educação formal.

Meus filhos têm mais “sorte” do que eu porque moram numa metrópole e poderíamos pagar professores especiais para eles. Mas e quem não tem esta condição? E quem mora longe destes centros?

A ideia de Khan me fez pensar no caso de Marco Gomes, dono da Boo-Box e figura que conheço pessoalmente das novas mídias há cerca de 3 anos. Soube por Marco, numa conversa por Twitter, que eu o conheço exatamente no período em que sua vida mudou radicalmente. Eu não imaginava como sua história retrata com fidelidade as dificuldades de educação dos jovens brasileiros que vivem à margem das grandes ofertas culturais e sociais. Ao conhecer sua história, contada no livro Brilliant, Crazy, Cocky, de Sarah Lacy, sobre empreendedorismo em mercados emergentes como China, India, Indonésia e Brasil, (que tem trecho traduzido para o português aqui), é inevitável pensar o que as aulas à distância de Khan poderiam fazer com um menino como Marco.

“Muita gente está levando a sério a possibilidade de as novas tecnologias exterminarem o professor como o conhecemos. Haveria uma radicalização do ensino a distância. Já há recursos para que um curso seja dado sem interferência humana. As aulas são gravadas e todos os debates, exercícios e notas são feitos por um programa de computador.”

Rodrigo Arboleda no TEDxRio falando do One Laptop Per Child

E nesta semana um destes visionários inspiradores fez muitas pessoas terem vontade de arregaçar as mangas e começar a mudar o mundo ao seu redor. Cariocas (e quem pode estar no Rio nesta terça) ouviram histórias interessantíssimas no encontro TEDxRio. No meio do encontro ouvi (eu acompanhei o evento por streaming, pela internet) o colombiano Rodrigo Arboleda, da organização One Laptop Per Child (Um computador por criança, projeto que me encanta há anos como modelo de inclusão social), que busca diminuir diferenças na educação a partir da inclusão digital. Ele fez todos pensarem no quanto a inclusão digital pode promover a inclusão social – e pensem nesta inclusão com o acréscimo de aulas inspiradoras como a do Professor Khan:

“A educação triunfa sobre a guerra e a pobreza. Se numa vila uma família só tem a pobreza, mas 2 filhos, nossos laptops serão destinados a essas crianças e por meio deles, filhos e pais terão acesso ao mundo, ao conhecimento. Ver a linguagem corporal, a alegria dos pequenos e seu interesse… não há como dizer que o paradigma social não foi alterado.”

OLPC foi citado também por Dimenstein, contando de uma conversa com Nicholas Negroponte sobre uma experiência para ser lançada em comunidades da África e da Ásia que têm alto índice de analfabetismo. Negroponte quer deixar num lugar público computadores conectados à internet para ver como e se as crianças conseguem aprender a ler e a escrever sozinhas. “Cada vez mais o conhecimento vai ser transmitido fora da sala de aula”, comentou.

Fico me perguntando, com sinceridade de coração, quais as mudanças individuais (e por que não, sociais?) que veremos graças a pequenas intervenções como esta. São muitas as possibilidades. A combinação do virtual com o presencial pode ser uma das soluções que o século XXI trará para reduzir a “pobreza de espírito” que tanto criticamos, a falta de generosidade pra compartilhar conhecimento e informação. E anseio pelo dia em que cada vez mais professores usem os recursos de internet para reavivarem sua fé na profissão escolhida e para trocar e doar informações pela rede. Como disse Dimenstein, uma situação na qual

O professor mistura as aulas expositivas com depoimentos de convidados do mundo inteiro, que, a distância, ilustram os textos curriculares. Um explica como usa a tecnologia para melhorar o ensino em áreas rurais da Índia, outro conta como cria bibliotecas em remotas vilas da Ásia ou da África. Depois da exposição, os convidados respondem às questões dos estudantes. Tudo é gravado e postado na rede.

O que veio para ficar foi o fato de as informações circularem, criando a possibilidade de que o mundo se converta numa imensa comunidade de aprendizagem.

Que assim seja!

P.S. E para inspirar, um vídeo, infelizmente ainda só em inglês, mas excelente, postado por @juliomoares na comunidade criada por @cybelemeyer no Facebook, Refletindo sobre a educação. Vale lembrar que Cybele é uma das figuras envolvidas na concretização do projeto do MEC Um computador por aluno, como ela contou aqui.

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Tags: @cybelemeyer, @juliomoares, África, Ásia, Bangladesh

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44 respostas para “Professores digitais – e as mudanças sociais na educação”

  1. Sam,

    Além dos exemplos que citou, aponto mais um: a Apple tem investido muito em seu conteúdo de educação. A maior parte do conteúdo é gratuito e disponibilizado através do iTunes para o mundo todo. São aulas inteiras dos melhores professores de Harvard e Princenton ao alcance de um clique.

    Acredito que para essa criançada que já percebe o mundo de forma diferenciada, que usa a internet em seu dia a dia, essa é uma forma sensacional de complementar o ensino formal, ainda não preparado para suas necessidades, além de ser fonte de informação para novos interesses.

    Outro fato muito importante é que a postura deles já é de compartilhar, de trabalhar conhecimento e trabalho de forma mais horizontal.

    Sam @samegui Shiraishi Reply:

    @Simone Miletic,comadre, este conteúdo do Itunes renderia posts semanais então hein? Eu baixaria tudo que vc indicasse – pense nisso! ;)
    E concordo plenamente com o que disse, a nova geração tem o conceito de compartilhar, trabalhar conhecimento e trabalho de forma mais horizontal como parte de sua forma de ser. Esta característica alimenta minha fé no futuro.

  2. Samantha Shiraishi disse:

    #postei Professores digitais – pensando colaborativamente nas mudanças sociais na educação http://bit.ly/f2o4kH

  3. http://bit.ly/f2o4kH no post de hoje sobre Professores Digitais, citei @cybelemeyer @marcogomes @juliomoraes @blogdati e o #TEDxRio

  4. Julio Moraes disse:

    RT @samegui: http://bit.ly/f2o4kH no post de hoje sobre Professores Digitais, citei @cybelemeyer @marcogomes @juliomoraes @blogdati e o …

  5. RT @samegui: #postei Professores digitais – pensando colaborativamente nas mudanças sociais na educação http://bit.ly/f2o4kH

  6. Como faz disse:

    RT @samegui: http://bit.ly/f2o4kH no post de hoje sobre Professores Digitais, citei @cybelemeyer @marcogomes @juliomoraes @blogdati e o …

  7. Ana Magal disse:

    #EuLi Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://migre.me/3TCjv #meusfeeds

  8. Tem post novo :) Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://ow.ly/1bnyaV

  9. Paulo Carmo disse:

    RT @avidaquer: Tem post novo :) Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://ow.ly/1bnyaV

  10. Ediberto disse:

    Sam fiquei extremamente feliz com seu post pois fui um dos passarinhos que “tuitou” o artigo do Dimestein. Ao ler o referido artigo escrito por alguém que faz a diferença, dito com os argumentos que ele utilizou necessita que haja uma ampla leitura e principalmente, uma reflexão do papel da escola e qual é o futuro que desejamos para nossos netos, antes eram meus filhos…

    Sam @samegui Shiraishi Reply:

    @Ediberto, que bom saber que você foi uma das almas generosas a compartilhar. A semana foi recheada de ideias inspiradoras e eu tentei reunir aqui o que vi, ouvi e o que me fez pensar. :-)

  11. Evandro Cesar disse:

    Seu post está fantástico e inspirador! Vou do começo. Professores serão sim substituídos caso não preparem melhor suas aulas e nem vou entrar na polêmica sobre como eles ganham mal e muitos acabam desanimando porque senão saiu do propósito do texto. O maluco da tecnologia é que hoje tudo pode ser aprendido por qualquer um em qualquer lugar e se na minha época de ensino médio a internet fosse o que é hoje talvez minha vida teria tomado outro rumo porque eu odiava o modelo de escola que temos, me entediava com facilidade e perdia interesse. Hoje, o que aprendo em um dia lendo e comentando por aí é impressionante, inimaginável há 20 anos atrás…
    E com a educação, o uso de redes sociais, vem o despertar das pessoas que em boa parte do mundo ainda vivem como miseráveis e em quase completa ignorância de que é possível ter uma vida até razoável. O Egito é a prova disso. Hoje escrevi um post, peço licença para deixar o link, e nele é possível vermos que as redes ajudaram a mobilizar as pessoas, só que de onde surgiu essa vontade de liberdade? Pode ter surgido da rede em anos de uso, não sei. O caso é que quando a educação fica disponível todos ganham! :)
    O link do meu post: http://paremomundo.com/2011/02/17/revolucoes-sem-lideranca-as-novas-piramides-do-egito/

    Sam @samegui Shiraishi Reply:

    @Evandro Cesar, lerei seu post ASAP. Ontem mesmo eu falava com os meus filhos sobre as mudanças no mundo árabe e a revolução do pão de queijo das escolas paulistanas, comparando-as como movimentos sociais. ;)

  12. http://bit.ly/eXKnWo "A postura (da nova geração) é de compartilhar, trabalhar conhecimento e trabalho de forma + horizontal." @smiletic

  13. Can you imagine “world-class education for anyone, anywhere”? Salman Khan did! http://bit.ly/eXKnWo #educacao #inclusao

  14. Paulo Carmo disse:

    RT @samegui: Can you imagine “world-class education for anyone, anywhere”? Salman Khan did! http://bit.ly/eXKnWo #educacao #inclusao

  15. Paulo Carmo disse:

    RT @samegui: http://bit.ly/eXKnWo "A postura (da nova geração) é de compartilhar, trabalhar conhecimento e trabalho de forma + horizonta …

  16. No blog do @avidaquer Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://bit.ly/eXKnWo texto da @samegui

  17. RT @marciaceschini: No blog do @avidaquer Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://bit.ly/eXKnWo texto da @samegui

  18. smiletic disse:

    RT @samegui: http://bit.ly/eXKnWo "A postura (da nova geração) é de compartilhar, trabalhar conhecimento e trabalho de forma + horizonta …

  19. Marcio Okabe disse:

    Olá Sam,
    Como sempre, inspirador seu post. O tema Educação à Distância dá pano pra manga, pois em geral as pessoas da geração X tendem a encontrar maneiras de justificar sua zona de conforto.
    O exemplo do Khan é espetacular e simples ao mesmo tempo, pois se ele não tem condições de pagar uma universidade como o MIT e tem acesso à internet, não há escolha: EAD é a única opção!
    Aliás, a outra opção é se manter na ignorância, mas é um opção é de cada um.
    Abraços,
    Marcio Okabe
    @marciokonfide

  20. Marcio Okabe disse:

    Olá Sam,
    Esqueci de postar o vídeo com legendas (cliquem na opção CC no rodapé do vídeo para ativar legendas).

    Abraços,
    Marcio Okabe

  21. denise rangel disse:

    Oi, Sam
    Estas possibilidades são excitantes, instigantes e preocupantes. Temo por meus colegas que não acompanham a evolução tecnológica e, por N razões, estagnaram-se. O modelo do professor tende a mudar. Acredito que muito tempo ainda vai levar para que esta realidade se concretize no Brasil, em que muitas escolas funcionam precariamente e cujas clientelas são paupérrimas e sem nenhum estímulo à estudar. Vejo, porém, com esperança, o trabalho que vem sendo feito no sentido de tornar a Educação formal mais próxima à Digital.
    É indiscutível que a EAD veio trazer uma esperança a quem não tem condições de frequentar uma Escola regular. Oxalá todas as pessoas tenham a oportunidade e a força de vontade de buscar conhecimento, e não apenas entretenimento, na Rede.
    beijo, menina

  22. denise rangel disse:

    digo, “estímulo a estudar” (sem crase…) :)

  23. Igor Lanes disse:

    RT @nerdson: Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://www.avidaquer.com.br/professores-digitais/

  24. Rodolfo Costa disse:

    RT @nerdson: Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://www.avidaquer.com.br/professores-digitais/

  25. RT @nerdson: Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://www.avidaquer.com.br/professores-digitais/

  26. denise rangel disse:

    RT @avidaquer: Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://bit.ly/f2o4kH

  27. Oi Sam,
    acertou em cheio. Amei o post. Um mundo de portas abertas com o conhecimento e o aprendizado disponível.”As pessoas sendo sujeitos do seu aprendizado e não objeto do que lhe ensinam”. O que parecia utopia está cada vez mais real por meios virtuais. Sensacional.
    beijos
    Chris
    http://invenandocomamamae.blogspot.com/

  28. Arthur disse:

    Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://bit.ly/egLZnW (via @nerdson)

  29. EDIBERTOSOUZA disse:

    Vale a pena ler…RT @samegui: http://bit.ly/eXKnWo "A postura (da nova geração) é de compartilhar, trabalhar conhecimento e… @smiletic

  30. Tiffany Stica disse:

    RT @samegui: http://bit.ly/f2o4kH no post de hoje sobre Professores Digitais, citei @cybelemeyer @marcogomes @juliomoraes @blogdati e o …

  31. RT @nerdson: Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://www.avidaquer.com.br/professores-digitais/

  32. samegui disse:

    Can you imagine “world-class education for anyone, anywhere”? Salman Khan did! http://bit.ly/eXKnWo #educacao #inclusao

  33. RT @samegui: Can you imagine “world-class education for anyone, anywhere”? Salman Khan did! http://bit.ly/eXKnWo #educacao #inclusao

  34. Geha disse:

    Professores digitais – e as mudanças sociais na educação. http://migre.me/3XGIV

  35. Marcio Okabe disse:

    Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://bit.ly/eXKnWo (via @samegui) #Inspirador (para mim ;-)

  36. marquinh05 disse:

    Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://t.co/MuJ2Cjwy via @avidaquer

  37. jackson_pires disse:

    Professores digitais – e as mudanças sociais na educação http://t.co/MuJ2Cjwy via @avidaquer

  38. Samantha, você nos perguntou se sentimos resistência dos professores em relação ao uso de tecnologia, talvez por sermos uma escola exclusiva na área de educação infantil e construtivista issto nãao ocorre aqui. Ainda não usamos o tablet, mas diversas professoras já levaram nosso laptop para sala de aula e ainda temos o espaço de informárica.

    Nas escolas construtivistas o professor não se coloca como a única fonte de informação, ele instiga a curiosidade das crianças, responde questões, as ajuda a observar, pensar. Ele é mais uma fonte de informação entre tantas outras. Talvez por isto não sinta resistência ao uso da tecnologia e toda a informação que ela hoje é capaz de trazer

  39. [...] Para entender mais do projeto, releia Professores digitais – e as mudanças sociais na educação. [...]

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