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Essa discussão parece não ter consenso. O que vale mais: a aparência perfeita do ator ou sua capacidade de interpretar o personagem?

Se pequenas mudanças físicas podem criar confusão quando se trata de figuras famosas, quando a questão racial surge tudo fica mais complexo.

Eu, “haafu” (mestiça meio sangue) que sou, sempre acusada de ter poucas características “comuns” de japonês mas com 50% de sangue vindo da Terra do Sol Nascente (os pais do meu pai vieram de Niigata e Fukuoka), gostei do personagem. Mas muito “junsui” (japonês puro) não achou digno um não oriental fazer o papel.

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Veja também o post sobre as misses japonesas que são mestiças e sofreram com comentários preconceituosos por isso.

Regionalmente isso acontece agora com a novela Sol Nascente, da Rede Globo. A trama envolve duas famílias de imigrantes que chegaram juntos ao Brasil, um italiano e um japonês.

Ninguém questionou que o casal italiano, além de Francisco Cuoco, tem uma “nona” que na verdade descente de Armênios, a querida atriz Aracy Balabanian.

As críticas recaíram sobre a possibilidade de Giovana Antoneli passar por mestiça e de Luís Mello interpretar o patriarca japonês. Nos primeiros capítulos já se explica: ela é adotiva e ele neto de um americano, portanto, já sangue misturado. Mas mesmo assim, o caso dei o que falar e suscitou reação coletiva de 200 atores de ascendência oriental.

As críticas recaíram sobre a possibilidade de Giovanna Antonelli passar por mestiça e de Luís Mello interpretar o patriarca japonês. Nos primeiros capítulos já se explica: ela é adotiva e ele neto de um americano, portanto, já sangue misturado. Mas mesmo assim, o caso dei o que falar e suscitou reação coletiva de 200 atores de ascendência oriental.

Este ponto, do esteriótipo, eu questiono há anos. E também me incomodava porque a “colônia” nunca reagia. Que bom que agora se agita para buscar representatividade.

Ainda da novela “Sol Nascente”, os artistas questionam o personagem de ascendência japonesa caracterizado como nerd, num clichê em produções de teledramaturgia, em que os homens nipo-brasileiros são representados como assexuados.

Ainda da novela “Sol Nascente”, os artistas questionam o personagem de ascendência japonesa caracterizado como nerd, num clichê em produções de teledramaturgia, em que os homens nipo-brasileiros são representados como assexuados.

Mieko (Miwa Ianagizawa), também ficou viúva e veio morar com o irmão, Kazuo Tanaka (Luis Mello). A japonesa é mãe de Yumi (Jacqueline Sato), Hirô (Carol Nakamura) e Hideo (Paulo Chun), primos (por adoção) de Alice (Giovanna Antonelli).

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Choquei-me também com a postura absurdamente caricata da irmã do patriarca japonês, que se comporta como uma mulher do período feudal. Minhas tias, nascidas entre 1925 e 1939, nunca tiveram essa postura! E nem no Japão, onde morei entre 1998 e 1999, conheci mulheres nascidas no pós Guerra que se portavam assim.

Espero que o assunto não “suma”, que persista e tenha força para alterar a trama da novela que está só no começo é que faça história!


E por falar em história, no lançamento do manifesto e do vídeo, também aconteceu discussão sobre a representatividade étnica nas produções audivisuais brasileiras com os cineastas Paula Kim e Sandro de Andrade, o antropólogo Alexandre Kishimoto e o curador Yudi Rafael, os dois últimos, integrantes do grupo Estudos Asiáticos-brasileiros. Kishimoto criticou o imaginário estereotipado veiculado pela indústria televisiva, citando um artigo do produtor de TV e professor Gabriel Priolli, publicado em 2003. Segundo o professor a TV e os noticiários veiculam “uma determinada imagem do Brasil , e de suas características, inteiramente construída no Sudeste e, por um número bastante reduzido de pessoas, os roteiristas, redatores e artistas de meia dúzia de emissoras, no máximo”.

 

O antropólogo apresentou um caso histórico semelhante ao episódio da escolha do ator Luís Mello para interpretar um japonês: em 1969, o ator (branco) Sérgio Cardoso foi chamado para interpretar o velho (negro) Pai Tomás. A escolha trouxe muitos protestos, boicote e um incêndio no estúdio de gravação, abreviando a duração da novela.

“Nos anos 1970, com a novela Escrava Isaura, mais uma vez se tentou o blackface, com a escolha da atriz Lucélia Santos, para interpretar uma heroína afro-brasileira, numa reconstituição adocicada da história da escravidão. O argumento do produtor da novela, Walter Avancini, era o mesmo de hoje: não havia atrizes negras preparadas para fazer o papel.”


E Somente em 2004, na novela Da cor do pecado, Taís Araújo viria ocupar o posto de primeira protagonista negra em 40 anos de história dessa emissora.para reforçar o debate, Kishimoto destacou que poucas foram as novelas que apresentaram personagens negros de classe média: Vidas em Conflito, (1969), Corpo a corpo, (1985), e A próxima vítima (1995).

“Somente em 2004, na novela Da cor do pecado, Taís Araújo viria ocupar o posto de primeira protagonista
negra em 40 anos de história dessa emissora.”

Para o pesquisador, o branqueamento na televisão brasileira afeta não apenas os asiático-brasileiros, mas diversos grupos sociais e minorias étnicas : afrobrasileiros, indígenas, bolivianos, africanos, nordestinos, LGBTS, mulheres, os sem teto e os excluídos.

“Trata-se de um sistema social que discrimina, segrega, estigmatiza e hierarquiza social e racialmente. Que representa os afro-brasileiros com estereótipos como da empregada doméstica e do bêbado; o índio como vagabundo; o asiático como o abobado que não sabe se expressar em português; o nordestino como ignorante, o ativista do movimento social como baderneiro.”

Integrantes do Coletivo Oriente-se.


Para reverter o quadro da discriminação, Kishimoto diz que é preciso criar novas narrativas da perspectiva dos asiático-brasileiros:

“Para isso é preciso estimular, valorizar e se conectar com o trabalho de roteiristas, fotógrafos, artistas plásticos, cineastas, documentaristas, historiadores, antropólogos, dramaturgos e teledramaturgos asiático-brasileiros.”


Citou o surgimento de iniciativas independentes, como o do coletivo Oriente-se e o do Yo Ban Boo, além do grupo Estudos Asiático-Brasileiros que reúne historiadores, antropólogos, artistas plásticos, escritores e ativistas que discutem questões sobre identidade e representatividade.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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