Póstumo, Rodin e Afterimage

Vi outro dia na Netflix e gostei de Posthumous (Póstumo, em português).

A premissa parece singela para essa comédia romântica:

“Um artista (Jack Huston) ganha fama após sua morte virar notícia. Só que ele está vivo, e continua com a farsa até se apaixonar pela jornalista (Brit Marling) que investiga a história da vida dele.”

Mas o filme traz mais: uma parceria que funciona, olhares honestos e personagens empáticos, uma cidade diferente (Berlin), o universo das artes plásticas (sempre curioso) e uma trilha sonora gostosa, que tem presença sem roubar a cena.

Gostei mesmo!

E me fez pensar no que artistas de diferentes épocas têm em comum, mesmo que separados por séculos.

Assiti ao filme Afterimage, super elogiado pela crítica e que finalmente chegou ao streaming (e ao meu querido #cinemaemcasa), que conta da luta do artista Wladyslaw Strzeminski para manter seu estilo e sua estética vivos depois da ocupação soviética na Polônia.


Eu costumo ensinar aos meus filhos que, no cinema, para entender a obra, é preciso partir do diretor. Neste caso, esta dica vale muito mais.

Andrzej Wajda começou a estudar cinema logo após a Segunda Guerra Mundial, na qual participou lutando com a Resistência Francesa. e tanto a história quanto a política da Polônia são dominantes em sua obra. Ele inclusive foi senador pelo país. Em abril de 2000, Wajda doou a estatueta do Oscar honorário que havia ganhou naquele mesmo ano ao Museu da Universidade Jaguelônica, em Cracóvia, a mais antiga e respeitada instituição de ensino superior do país.

Wladyslaw Strzeminski foi um questionador da ditadura soviética.

O filme foca no ponto de virada da vida do pintor, pai do movimento Construtivista polonês de 1920, tido como um dos nomes mais importantes do século XX, revelando momentos das suas aulas sempre cheias e da postura idolatrada pelos alunos.

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Mas, apesar do reconhecimento, o mestre sofreu com as consequências do governo, que humilhou-o e destruiu as suas obras para apagar da sociedade o registro de um artista tão irreverente.

A conturbada relação com a filha também aparece no roteiro, que, além da vanguarda quanto ao assunto retratado por ele, retratada os empecilhos físicos (ele não tinha um braço e uma perna) que não impediram o criativo a seguir com suas obras.

Ovacionado como o último filme de Andrzej Wadjam, a história de Wladyslaw Strzeminski, um dos artistas poloneses mais importantes e avant-garde do século XX, opositor do realismo socialista, que lutou até o fim pela sua liberdade de expressão, está disponível no Now (R$11,90), Vivo Play (R$ 11,90), Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) e iTunes (Compra US$6.99 Aluguel US$2.99).

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Sobre o estilo:

O construtivismo russo foi um movimento estético-político iniciado na Rússia a partir de 1919, como parte do contexto dos movimentos de vanguarda no país, de forte influência na arquitetura e na arte ocidental. Ele negava uma “arte pura” e procurava abolir a ideia de que a arte é um elemento especial da criação humana, separada do mundo cotidiano. A arte, inspirada pelas novas conquistas do novo Estado Operário, deveria se inspirar nas novas perspectivas abertas pelas técnicas e materiais modernos servindo a objetivos sociais e a construção de um mundo socialista.

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Sim, você já viu e até gostou de obras assim! Presta atenção:

O construtivismo foi marcado pela utilização constante de elementos geométricos, cores primárias, fotomontagem e a tipografia sem serifa. Teve influência profunda na arte moderna e no design moderno e está inserido no contexto das vanguardas estéticas europeias do início do século XX. São considerados manifestações influenciadas pelo construtivismo o De Stijl, a Bauhaus, o suprematismo, assim como grande parte da vanguarda russa.

 

E voltando um pouco mais no tempo, na mesma Europa, temos Rodin.

Quando o vi o longa me interessei porque sou da geração impactada por “Camille Claudel” (1988), de Bruno Nuytte. Rodin é vivido por Vincent Lindon, vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes com “O valor de um homem” (2015), num filme que conta a vida e a obra da mais célebre das amantes do genial escultor francês e o deixava em segundo plano. Nesta obra, Rodin ganha um filme todo seu e as mulheres que o cercam são retratadas como importantes coadjuvantes do genial e genioso escultor.

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Esse por si só é um anacronismo que em 2017 ninguém deixaria passar barato.

O filme se passa entre os anos 1880 e os 1890, período em que o artista criou algumas de suas obras mais famosas, como a monumental “Porta do inferno”, tema de “Divina comédia”, de Dante, e o “Monumento a Balzac”, escultura que homenageia o escritor Honoré de Balzac (1799-1850).

O filme detém-se na figura do escultor em seu estúdio ou fora dele, e no que ele tem a dizer ou pensar sobre a arte e a beleza das formas humanas. Mostra também o início da relação com Camille Claudel (Izïa Higelin), uma de suas pupilas, os conflitos com Rose (Séverine Caneele), a companheira de anos, e as relações de amor e amizade com artistas da época, como Paul Cézanne e Claude Monet.

Além das críticas ao filme por ser centrado nos feitos da figura masculina, Rodin me cansou porque é lento. Demorei para engatar, parei e voltei a ver. Dessa vez talvez tivesse feito muita diferença ver no cinema, imersa no filme. Mas para fãs (da escultura, do artista ou dessa época de ouro francesa) pode ser um filme importante.

Rodin está disponível no Now (R$11,90), Vivo Play (R$ 11,90), Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) e iTunes (Compra US$6.99 Aluguel US$2.99).

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.