Uma cidade (quase) sem carros!

Exatamente numa tarde em que estou no terceiro dia de inalação por uma crise de bronquite, vejo esta notícia:

Estudo do IBOPE Inteligência encomendado pela Rede Nossa São Paulo mostra que 44% dos paulistanos têm ou já tiveram problemas de saúde relacionados à poluição. 

Minha crise não é 100% do trânsito, embora eu tenha piorado muito dos meus problemas respiratórios depois que mudei para uma avenida que tem linhas de ônibus e muito trânsito, uma daquelas que ligam duas vias rápidas na maior cidade da América Latina.

O trânsito é uma questão importante para a qualidade de vida como um todo. 

Vejam o que conta a pesquisa realizada entre os dias 15 de agosto e 3 de setembro de 2018, com 800 moradores da cidade de São Paulo com 16 anos ou mais:

  • O paulistano gasta, em média, 2 horas e 43 minutos por dia para fazer todos os deslocamentos que precisa na cidade de São Paulo neste ano. O tempo é menor que a média de 2017, de 2 horas e 53 minutos, mas maior que as 2 horas e 38 minutos diárias registradas em 2015.
  • O levantamento também apontou que o paulistano leva 1 hora e 57 minutos para se deslocar, ida e volta, pela cidade para realizar a atividade principal, como trabalho ou estudo. No ano passado, esse tempo médio foi de 2 horas, ainda longe da 1 hora e 44 minutos registrada em 2015.
lailtonaraujo / Pixabay

Uma alternativa seria investir em transporte público?

Em toda eleição, os candidatos dizem que sim. Mas eu me pergunto quem realmente mudaria sua vida “tranquila” com carro para uma vida com transporte público.

(eu mudei, estamos sem carro há 11 meses, mas isso é assunto para outro post)

O que os paulistanos dizem sobre os meios de transporte?

Veja a seguir, em ordem de preferência:

  1. Ônibus municipal – Em 2018, 43% dos paulistanos afirmaram ter o ônibus como o meio de transporte que mais usam para se deslocar pela cidade de São Paulo. No ano passado, esse número foi de 47%. O levantamento também aponta que 49% usam ônibus municipais de uma a cinco vezes por semana. Entre os entrevistados que não usam ônibus, a lotação do coletivo aparece foi citada por 37% dos entrevistados como motivadora para não escolher este meio de transporte. O uso do carro para se locomover aparece como motivação para 32%, mesmo percentual dos que justificaram a demora do trajeto. Entre os usuários de ônibus municipais, 88% dos disseram que levam até dez minutos de casa até o ponto de ônibus; e 44% dos entrevistados afirmaram que esperam até 15 minutos pelo ônibus.
  2. Carro – Esta é a opção de transporte usada por 24% dos entrevistados neste ano. Em 2017, carro foi a opção de 22% dos paulistanos entrevistados; 47% dos entrevistados respoderam que usam carro com a mesma frequência de antes.
  3. Metrô – É a terceira opção mais usada. Em 2018, 12% dos entrevistados preferiram esse tipo de transporte, ante 13% em 2017.
  4. A pé – 7% dos entrevistados responderam que preferem se locomover a pé pela cidade neste ano. Em 2017 foram 8%. Segundo a pesquisa, 88% dos pedestres paulistanos se sentem pouco ou nada seguros.
  5. Transporte por aplicativo – 5% dos entrevistados disseram que esse é o meio de transporte que mais usa em 2018. No ano passado foram 2%.
  6. Trem – Em 2018, essa é a opção para 3% dos paulistanos. Em 2017 foi de 4% dos entrevistados.
  7. Bicicleta – Em 2018, apenas 2% dos paulistanos afirmam se locomover dessa maneira. Em 2017 foi a opção de 1% dos entrevistados. Segundo levantamento, apesar da queda da menção da bicicleta como opção de transporte, a segurança dos ciclistas aparece como ponto prioritário para 30% dos paulistanos. Para 48% dos entrevistados a manutenção das ciclovias é ruim ou péssima.
  8. Táxi ou táxi por aplicativo – Em 2017, nenhum entrevistado afirmou usar esse tipo de modal. Em 2018 apenas 1% respondeu que usa esse tipo de transporte.
  9. Motocicleta – Esta não é opção de transporte para os entrevistados. No ano passado foi pra 1% dos entrevistados.

E sobre o tema, uma inspiração:

Uma cidade (quase) sem carros!

 

Imaginem a situação: um cara consegue ser eleito prefeito de uma cidade, depois de 12 anos de militância na oposição e logo de cara assina um decreto para eliminar todas as 500 vagas de estacionamento que existiam no centro histórico. Em seguida, numa única tacada, fez a pedestrianização de 300 mil metros quadrados desse centro.

Parece ficção mas é verdade.

Miguel Anxo Fernández Lores chegou ao poder em julho de 1999 e as medidas que tomou no mês seguinte a sua posse foram imediatamente questionadas, com campanhas e ações judiciais, mas acabaram sendo acolhidas pela população. E todos os recursos foram arquivados.

Também contra tudo o que se fez em toda a Espanha (e também no Brasil), nessas duas décadas em Pontevedra não se implantaram grandes shoppings ou outros centros comerciais fechados.

72% dos moradores (e visitantes) faz suas compras a pé e só 30% dos habitantes vão ao supermercado de carro.

(antes que achem impossível, é possível, eu faço praticamente todas as minhas compras a pé, só uma ou 2 vezes por mês vou ao mercado – a pé – e volto de uber/taxi) 

O centro da cidade ganhou mais 12 mil habitantes desde 2009 e cerca de 2 mil crianças de seis a doze anos vão todos os dias para a escola a pé, a maioria sozinhos.

Lembram-se do projeto Carona a pé? Tanto sonhei que hoje é a realidade da minha filha de 5 anos e do meu filho e 15 anos. 

Um projeto encantador: Carona a pé

A filosofia do prefeito da cidade de Pontevedra, na Galícia, Espanha, é simples:

Ser dono de um carro não lhe dá o direito de ocupar o espaço público.

Segundo li, Pontevedra é uma cidade compacta, com apenas seis quilômetros quadrados, e o trajeto mais longo se faz a pé em meia hora e quase todos os bairros estão a quinze minutos do centro. A cidade fica no noroeste de Espanha, tem 117 km² de área e em 2016 a população do município era de 82 549 habitantes.

Eles adotaram um mapa, o Metrominuto, que copia os padrões normalmente usados nos metrôs das grandes cidades para indicar as distâncias e tempos de caminhada entre diferentes locais.

Talvez isso seja um ponto em comum que meu bairro tem, pois ouvi dizer que em área a Mooca é um dos menores bairros da capital paulista. Eu caminho uns 7km por dia (para me exercitar) e atravesso mesmo o bairro na maior parte das vezes 🙂

O coletivo Sampapé fez um mapa semelhante aqui em São Paulo, está aqui (em PDF para baixar).

Quer ver estas coisas na sua (ou na nossa) cidade?

O prefeito de Pontevedra deixa a dica:

A mobilidade deve inspirar toda a política municipal. Devemos estar todos, políticos, polícia municipal e vizinhança sintonizados. E o mesmo ocorre com os trajetos escolares. Uma vez que o tráfego se ordena, que a velocidade está limitada a 30 km/h, esses trajetos são seguros para todos e, portanto, os pais podem confiar que seus filhos sigam sozinhos para a escola.”

Taí uma boa causa para lutar, né?

P.S. 22 de setembro é o Dia Mundial Sem Carro.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.