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Ao contrário do que acontece com as mulheres, o tempo extra dos homens não se converte em maior dedicação a afazeres domésticos. A jornada deles dentro de casa permaneceu a mesma de dez anos atrás: dez horas semanais. No mesmo período, as mulheres mantiveram seu ritmo de trabalho fora de casa em 35 horas e meia. Dentro de casa, porém, a jornada delas chega a 21 horas e 12 minutos por semana, mais que o dobro da dos homens.  A culpa disso, minhas amigas, é nossa!

No começo da Semana da Mulher, lembrei de um levantamento que li recentemente e que dava conta que nos últimos dez anos, os homens viram sua jornada fora de casa cair de 44 horas semanais para 41 horas e 36 minutos, num resultado influenciado tanto pela formalização do mercado de trabalho quanto pelo aumento do número de homens inativos nos últimos anos. Os dados são do IBGE e tratavam da estagnação econômica de 2014.  Mas eles também traziam à tona uma realidade brasileira que a gente finge não ver:

Ao contrário do que acontece com as mulheres, o tempo extra dos homens não se converte em maior dedicação a afazeres domésticos. A jornada deles dentro de casa permaneceu a mesma de dez anos atrás: dez horas semanais. No mesmo período, as mulheres mantiveram seu ritmo de trabalho fora de casa em 35 horas e meia. Dentro de casa, porém, a jornada delas chega a 21 horas e 12 minutos por semana, mais que o dobro da dos homens.

A culpa disso, minhas amigas, é nossa!

É de cada mulher que sente-se culpada quando a casa não está arrumada, a comida na mesa, a roupa limpa nos armários. A culpa é nossa quando pedimos para o companheiro “ajudar”, quando achamos errado sobrecarregar os filhos (os meninos, em especial), quando servimos café para o pai ou sogro no almoço de domingo e achamos normal a mãe e a sogra estarem em pé servindo sobremesa ou lavando a louça. 

Precisamos mudar isso? Com certeza! Mas só com uma mudança estrutural na forma como nós enxergamos nosso papel na família, nosso direito individual e nossa participação no contrato coletivo da família. E é um contrato que a gente deveria ver com certa frieza, como vemos os acordos de trabalho (e se você ainda não se vê de modo igual no trabalho, está na hora de rever isso também!).

E notem: não estou falando de parar de ser gentil em casa, de tratar seu amor com carinho e ter prazer em fazer coisas para os filhos. Eu faço isso o tempo todo. Estou falando de culpa por não conseguir fazer tudo. Estou falando de assumir sozinha uma obrigação que deveria ser compartilhada. 

“Apesar de a mulher ter conquistado seu lugar no mercado de trabalho, ela ainda não se libertou do trabalho doméstico. Isso só pode mudar via educação. O trabalho doméstico é responsabilidade de todos. O problema é a dificuldade de os homens aceitarem uma ocupação que não é remunerada.”
Regina Madalozzo, especialista em economia de gênero do Insper

O triste é saber que a desigualdade persiste mesmo entre os casais mais escolarizados. Entre as mulheres que têm ensino superior, a jornada é 4 horas e 12 minutos maior que a do homem. Entre as mulheres que têm ensino fundamental incompleto, a diferença é de 4 horas e 48 minutos em relação ao homem. Mas sim, o estudo ajuda: os números garantem que ter mais estudo faz a mulher trabalhar 36 minutos menos por semana. Mas não muda a realidade atual (de 2016) de que, no geral, a ajuda masculina se limita às compras, ao cuidado dos filhos, principalmente no fim de semana e nos momentos de lazer, no trato dos animais. O trabalho mais pesado de faxina, cozinha e cuidados recai sobre os ombros da mulher. E daí “a saída que as mulheres encontraram para dar conta de todo o trabalho é ter menos filhos”, explicou numa entrevista Neuma Aguiar, socióloga da UFMG, e uma das poucas pesquisadoras no país a tratar do uso do tempo. Mas a socióloga crê que a nova geração vai conseguir diminuir essa desigualdade.

Eu sempre digo que meu marido é diferente da maioria (porque aqui em casa não tem esta de divisão de tarefas por gênero, faz quem pode) porque minha sogra trabalhou fora e porque minha mãe também. Fomos formados para sermos os donos da casa juntos. 

Mas isso é raro. Dados do IBGE apresentados pela economista Cristiane Soares num seminário da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), confirmam o que a gente desconfia quando é solteiro:

“O casamento faz a mulher trabalhar mais. Quando não é casado, o homem costuma terceirizar o serviço doméstico. Quando casa, transfere para a mulher.”
Cristiane Soares, economista e pesquisadora

Estudo mostra que em qualquer tipo de família, seja com filhos, com idoso, com pessoa doente em casa, a mulher trabalha mais se for casada, indicando que o marido dá trabalho ao invés de poupar a mulher. No caso dos homens, a situação é completamente inversa: o casamento livra o homem das tarefas domésticas. São mais indicadores que mostram a desigualdade de gênero no Brasil, onde a mulher ganhava em média 26% menos que os homens em 2014. Dez anos antes, ganhava 30% menos.

De acordo com os números apresentados pela pesquisadora, um homem solteiro que tem filhos pequenos e um idoso doente em casa dedica quase 20 horas semanais para o trabalho caseiro. O casamento o livra de mais de nove horas de trabalho: a jornada cai para 10 horas e 42 minutos. A mulher, na mesma composição familiar, dedica 25 horas e 36 minutos quando não tem companheiro. Ao se casar, o tempo dispendido sobe para 26 horas e 6 minutos, jornada meia hora maior ao dividir a vida com um homem.

Os números assustam muito e até desanimam. Mas não desista. Compartilhe, divulgue e mude esta realidade, começando pelo seu lar e pela forma como você age com as mulheres e homens ao seu redor.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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