destaque / empatia / relacionamentos

(imagem daqui judyferraro.com)

O ato de ignorar o outro, por meio do uso da tecnologia, tem um nome que vem do inglês snubbing (esnobar) + phone (telefone): “phubbing”.

De acordo com psicanalista Ana Suy Sesarino Kuss, atualmente a conexão com os smartphones é tão íntima, que ela já substitui muitos objetos (calendário, agenda, despertador e câmara fotográfica) e para alguns, esse objeto de desejo passa a substituir até o interesse que se tem por outras pessoas.

“O uso excessivo do celular pode não ser a origem do desinteresse, mas é a consequência.”

Quando esse uso excessivo da tecnologia atinge os relacionamentos afetivos, pode realmente agravar uma crise. As conversas diminuem e o ato de isolar-se no mundo oferecido pelo celular fica mais frequente.

Te desafio a dar uma olhadinha no vídeo abaixo e dizer que não se identifica com nadinha!

Acha que este assunto é totalmente novo?

E o comportamento de esnobar o outro exercendo outra atividade não é recente, infelizmente. Houve um tempo em que livros e revistas eram usados para o mesmo fim. A TV ainda tem este efeito “isolador-desolador” para muitas famílias.

Da minha parte, antes mesmo da timeline do Facebook e do Instagram estarem na mão de 8 entre 10 pessoas ao meu redor (no ônibus, no metrô, na porta da escola), eu já me irritava com pessoas que ficavam usando Twitter enquanto conversavam comigo há 8 ou 10 anos atrás. O comportamento humano que busca preencher com “coisas” seu vazio existencial é assim, pode variar o “tipo de coisa”, mas parece que o “tipo de problema” e o “tipo de pessoa” não muda!

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman já alertava sobre esta linha no seu livro (que todo mundo deveria ler) Amor líquido e no conceito da “modernidade líquida”, termo que ele cunhou para explicar o momento da História em que vivemos.

Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente.

Nada é feito para durar, para ser “sólido”.

Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos.

É um mundo de incertezas.

E cada um por si.

“Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de ‘progresso’, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: ‘progresso’, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração”, afirma Bauman.

Há anos Zygmunt Bauman falou sobre nossa vida digital:

“Os contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais fácil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atrás do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, você pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que, quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior será a tendência a se desconectar.”

Lembrei desta fala de Bauman ao ouvir o podcast de Ed René Kivitz nesta semana.

“Como o ferro afia o ferro, assim um amigo afia o outro.”
(Provérbios 27:17)

Aliás, eu gosto muito deste projeto que tenho seguido durante o ano todo e que nos chama à vida ao dizer: “porque viver é muito mais do que sobreviver”. E olhem que coisa boa, o projeto Sobre/Viver de meditações diárias em Provérbios virou livro. O lançamento a segunda-feira, 11/12. E no site da editora Mundo Cristão tem informações sobre e-commerce ou livrarias.

Tem uma relação grande, querem ver?

Os tempos modernos e pós-modernos parecem ter oferecido a busca da felicidade pessoal e particular, em termos de máximo prazer e satisfação de desejos, e mínimo sofrimento, como o mais elevado propósito da existência humana. Não duvido que passaremos para a história como a geração mais fútil e vazia da saga humana.
Ed René Kivitz  

O que estou lendo neste ínterim e que tem uma afinidade enorme com o que escrevi acima, é A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas, outro livro de Zygmund Bauman, publicado pela Zahar.

😉

“A individualização se tornou o destino de todo habitante de uma grande cidade contemporânea, não uma opção. A sociedade estimula os indivíduos a agirem em função dos problemas e medos que surgem diariamente. E, ao tentar fazer com que as vidas tenham sentido, os homens tendem a culpar suas próprias falhas e fraquezas pelos desconfortos e derrotas que enfrentam. Para o renomado sociólogo polonês Zygmunt Bauman a reação só leva a mais isolamento. O pensador vai fundo nessa teoria e mostra como a sociologia pode contribuir para conectar as decisões e ações individuais aos medos e questionamentos mais profundos do ser humano.”

(Imagem de destaque daqui judyferraro.com)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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