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O debate sobre a relação de crianças com a tecnologia é longo, cheio de detalhes e pormenores, mas importantíssimo. Afinal, sabemos que a tecnologia não é algo nada neutro – ela tem muita influência sobre o como nos relacionamos, aprendemos e nos formamos.

Quando levamos essa discussão para dentro das escolas, onde os tablets começam a serem testados também como ferramenta educativa, há mais elementos ainda em jogo. Afinal, quais são os impactos de tirarmos as crianças de uma atividade em que elas poderiam estar fazendo uma infinidade de coisas para deixá-las mexer em um tablet?

Tiago Mota, amigo e pesquisador muito interessado em educação e em jogos digitais, está levando parte desse debate para a sua dissertação de Mestrado na PUC-SP. Ele tem acompanha a inserção de tablets em uma escola particular de nível alto em São Paulo, onde o uso da tecnologia, com jogos digitais, está no programa disciplinar de alunos do 1º ano do ensino fundamental.

No último mês ele apresentou os resultados parciais de sua pesquisa no Interprogramas de Mestrado da Cásper Líbero. Pude ver a apresentação, bastante elogiada, e quis bater um papo com ele para trazer algumas de suas reflexões aqui no A Vida Quer. As respostas estão um pouco longas, mas são bastante importantes para aprofundarmos o debate e pensarmos de forma crítica o que, afinal, significa darmos um tablet para crianças na escola. Confira:

Crédito: Speed of Creativity

Crédito: Speed of Creativity

1) De que maneira os tablets afetam a educação como um todo?

Bastante ampla, mas pertinente essa pergunta! Antes de qualquer coisa, precisamos partir de uma concepção de Educação que considere o ambiente ou o contexto.

Dizer que a tecnologia é neutra faz sentido só até a página dois – o uso que damos à tecnologia, como nos apropriamos dela e os comportamentos que ela incentiva ou proporciona, agenciam transformações em nossos ambientes, espaços e tempos.

Eu tenho dado particular atenção às transformações que a apropriação do tablet  por crianças do 1º ano do ensino fundamental, causa na escola. Um primeiro ponto é que, com o tablet em mãos, as crianças rompem a linearidade que sempre pressupôs o modelo escolar. Aquela ideia de que o professor é um transmissor de conhecimento, hierarquicamente acima dos alunos, se torna relativizada. Geralmente, os professores não têm tanta facilidade com os tablets quanto seus alunos.  As crianças, que muitas vezes já conhecem a tecnologia, raramente pedem por auxílio com o aparelho. Este é o indício de uma de uma nova apropriação do ambiente escolar que parte delas, e passa a resinificar espaços e costumes.

Ainda não é possível dizer até onde essa apropriação vai levar a escola, ou em qual ponto as escolas regulamentarão essa apropriação. O que podemos dizer, sem dúvida, é que a escola passará, ou já passa, por um processo de reconstrução de si.

Seria audacioso da minha parte dizer o que ela irá virar. Mas adianto que o tablet, ou qualquer uso da tecnologia por si, não fará das nossas escolas melhores. O “Sonho Moderno de Educação Universal” é, em grande parte, revivido pela nossa tecnologia de hoje. Penso, porém, que esse sonho pode nos levar a criar novos monstros de homogeneização cultural e adestramento do pensamento e da criatividade.

 

2) Como as crianças se relacionam por meios digitais? As tecnologias na escola as aproximam ou as afastam?

O tablet tem um poder hipnótico nas crianças. Ou melhor, a tecnologia tem esse poder sobre todos nós. É evidente que o tablet centraliza os sentidos de visão, tato (via toque de tela) e audição (principalmente quando usam fones de ouvido) das crianças.

Tenho percebido que, na escola, especialmente quando as crianças estão sentadas em fileiras, o uso do tablet acaba promovendo um forte isolamento delas. Isso passa primeiramente pelo sensorial: elas só têm olhos, mãos e ouvidos para o seu aparelho e assim permanecem em silêncio e sentadas a aula toda.

Essa é uma das preocupações inseridas quando uso o termo “adestramento”. O isolamento é quebrado várias vezes, mas por iniciativa das crianças – quando querem dividir uma vitória ou comentar sobre uma fase de um jogo. No entanto, ele volta porque, em grande medida, há um prazer nesse isolar-se compenetrado no tablet.

Isso também ocorre muito em razão da própria programação do ambiente escolar: carteiras em fileiras privilegiam o isolamento, o adestramento; e, quando os pequenos se empolgam com o tablet, se levantando para mostrar para os amigos alguma coisa, o professor(a) os repreende. A coisa muda de figura quando elas usam os aparelhos todas no chão, em círculo, por exemplo. Nessas ocasiões, o contato entre elas é rico e vinculador: jogam juntos, conversam bastante, dividem experiências, etc.

Como disse, não podemos pensar na tecnologia fora de um ambiente ou contexto. Só assim que percebemos as oportunidades e os perigos dessas tecnologias. Esse trabalho de contextualização é o principal papel da escola na era digital. É lá que nós vamos pensar meios de, com as tecnologias, promover o encontro das crianças com as suas outras, formando-as para a alteridade e solidariedade, de criar um forte senso de comunidade, de servir ao seu bairro ou a sua cidade, de trazer o corpo para o ambiente escolar e de construir conhecimento colaborativamente e horizontalmente.

 

3) Que cuidados pais e professores devem tomar ao inserir um tablet ou um videogame na educação?
Tenho percebido que pais e professores gostam do poder adestrador do tablet e outras tecnologias. Ele aquieta as crianças, as deixa sob controle. Mas, acredito que seja justamente este adestramento que devamos evitar.

É preciso que deixemos as crianças explorar o mundo e os aparelhos de forma mais livre e criativa, permitindo a eles que errem e tentem de novo. Isso tudo é ambiente, isso tudo é contexto. A simples ação de permitir que elas brinquem com seus tablets no chão em vez de sentadas nas carteiras já desencadeia esses processos de apropriação, nos quais as crianças são os principais agentes.

Neste ponto, o Uruguai, com o plano Ceibal, que entrega computadores para todos os estudantes em todos os ciclos de ensino de escolas públicas, está assumindo a vanguarda dps processos.
4) Você acha que deveria haver uma idade mínima para as crianças terem contato com o tablet?

Em tempos de tecnologia digital onipresente, serão as crianças que vão nos dizer os seus próprios limites. Como disse, precisamos permitir o erro, que é parte fundamental do aprendizado. Não é mais possível tentar barrar o ao digital.

Vejo escolas introduzindo os tablets somente no ensino médio. Outras, logo no primeiro ano fundamental, no período de alfabetização. Não me atreveria a estabelecer uma regra.
5) A longo prazo, quais são as consequências que ficam dessa iniciativa de inserir meios digitais na educação?

A questão é: nas nossas escolas, queremos que os alunos usem tablets ou outra coisa sempre sentados e hipnotizados por uma tela? Isso não é somente uma questão de saúde, se você está pensando em obesidade. Mas, se toda comunicação e vinculação parte do corpo, a ausência total de corpo conduziria uma ausência de vínculo de nós entre nós e de nós com o mundo.

O pensamento do filósofo Vilém Flusser nos alerta para estes caminhos perigosos. E se nós nos deixarmos levar pelos sonhos da era digital, pela e-topia, nós ignoraremos estes perigos. Não quero dizer, porém, que a tecnologia é a vilã a ser combatida. Mais uma vez, insisto que seja uma questão de contextualizá-la, promovendo o encontro, sem deixar que o nosso corpo fique perdido no processo. E a escola tem, acredito eu, a vocação para ser o lugar de encontro por excelência para essas crianças.

6) Em sua pesquisam você trabalha o caráter lúdico. Acredita que jogos são uma forma eficiente de engajar os alunos?

Jogos têm se mostrado como uma oportunidade contextualizar a tecnologia neste ambiente escolar sendo resinificado. Trabalho com o lúdico como uma força arcaica da cultura. Brincar é uma primeira maneira de reconhecer o mundo e de torná-lo familiar.

Brincando e jogando, nós interiorizamos, nos apropriamos, e encontramos certeza no mundo. Também brincando, formamos com os outros nossos primeiros vínculos. As imagens do nosso imaginário são formadas, também, nos espaços de brincadeira.

Isso tem grande valor para o ambiente escolar e para os processos de educação. Jogos e brincadeiras sempre foram formas de educar.  Jogos digitais, por sua vez, podem ser formas de educar em ambientes com tecnologia, justamente por dialogar justamente com esta arcaica forma de apropriação do mundo. Não são, porém, salvadores da pátria. Games também são abstrações, e também precisam ser contextualizados.

Os games pedagógicos que tenho encontrado focam muito no jogo individual e não se esforçam em trazer a escola ou mesmo os lares para dentro de sua atividade. Sobre o pretexto de que podem ser jogados tanto em casa como no colégio, eles desmancham, penso eu, o potencial vinculador de ambos os ambientes, colocando a criança centrada em si, sem contato com outros, hipnotizada pelo seu aparelho.

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Por outro lado, as crianças encontram meios de quebrar essa forma de adestramento porque, em algum momento, se entregam à necessidade, que há no próprio corpo, de procurar por um outro que lhe dê atenção e afeto. Assim como nós, gamers, não aguentamos só jogar sozinhos e, em algum momento, precisamos nos encontrar com outros gamers para conversar e trocar experiências.

Resumindo, jogos são uma excelente oportunidade, mas de que maneira trabalhamos com eles? São eles só mais uma boa forma de manter nossas crianças sentadinhas, quietinhas e sem incomodar?

Jogos são uma boa oportunidade para o ensino, mas não pelo jogos em si, mas pela potencialidade que há neles de, quando apropriados, formar ambientes vinculativos de construção de conhecimento em relações entre as crianças umas com as outras, com seus pais ou com os educadores.

8) Quais são suas considerações finais?

Devo salientar, talvez já sendo repetitivo, que as forças da cultura e as maneiras como nos apropriamos do mundo, dos objetos e dos outros são sempre ambíguas. Não há “maldade” no adestramento, nem “bondade” na livre fruição.

Trabalho com a hipótese de que são, sim, movimentos da cultura: ora sentimos prazer em nos deixar adestrar, ora sentimos prazer na resistência ao adestramento. Assim também as crianças, que sentem prazer em ficar sentadinhas e quietinhas com os tablets em mãos, mas também sentem o prazer em levantar, chamar atenção do amigo e fazer uma dancinha da vitória quando passam de fase.

Por isso penso que o problema não é a tecnologia em si, mas os ambientes em seu entorno. A escola, enquanto instituição, ritual e programa sociocultural privilegia o movimento de adestramento nas crianças, e, nesse contexto, o tablet é uma ferramenta que o reforça. Todavia, a criança, pela necessidade que lhe é corporal de vínculo, por vezes é capaz de virar o jogo e, contrariando o programa, se apropria daquele espaço de forma criativa e inventiva. E é nessa hora que a escola muda: não por iniciativa própria, mas por necessidade imposta pelas próprias crianças.

Tenho desenvolvido que devemos incentivar essas forma de apropriação de modo a pensar a escola não enquanto função, mas enquanto ambiente. Essas são ideias que vou consolidar ao longo da pesquisa, mas, neste ponto dos meus trabalhos, acredito que tais movimentos sejam perceptíveis no cotidiano das escolas.

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Jornalista e pesquisador falando aleatoriedades. Umas tags: #games #tech #música #sustentabilidade.

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