Pelo direito ao luto e ao amor aos filhos abortados 

abortos-e-constelacao-familiar

Li no livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie uma medida para o feminismo que hoje eu trago para outro assunto polêmico: o aborto.

Em “Para educar crianças feministas“, ela diz diz:

para-educar-criancas-feministas-um-manifesto-chimamanda-ngozi-adichie“Se o seu marido dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem? Se a resposta for “sim”, então a sua decisão de perdoá-lo pode ser uma escolha feminista, já que não tem relação com o gênero.”

(prometo resenhar o livro outro dia!)

Então eu pergunto:

✔️Você defende o direito ao aborto ou se posiciona contra ele só quando a mulher decide tirar o filho?
✔️Como reage com as mulheres e homens ao seu redor que perderam naturalmente esses filhos? Dá-lhes o direito ao luto? Acolhe seu sofrimento? Inclui esses bebês na conta dos filhos que o casal tem?

sobre-o-direito-ao-luto-dos-abortos

Eu tive um aborto espontâneo antes de engravidar do meu primeiro filho e quando falo, ninguém considera. Meu marido demorou anos para admiti-lo sabem? Depois, no intervalo entre o segundo e a terceira (10 anos e meio) também perdi naturalmente, mas estava tão no começo e eu tão ocupada, que nem para minha família contei.

Mas, vejam, eu conto os filhos não nascidos das amigas, das pessoas próximas. Sempre entram na minha conta mental.

E lembro tanto das minhas avós e tias-avós falando: “teve 10 filhos, só 8 vingaram”.

✔️Será que a gente perdeu o valor da vida humana e por isso parou de contar?
✔️Ou será que, como diz o texto, não nos dão mais o direito a esse luto?

quem-faz-parte-da-familia-abortos-e-nascimentos

Tudo isso me veio ao ler esse desabafo, de onde tirei imagem que ilustra o post:

“Perguntem às mulheres que sofreram abortos espontâneos o tratamento VIP que tiveram no hospital. Nem consigo contar quantas vezes ouvi ‘Logo nasce outro’ (como se fosse fácil substituir pessoas) ou ‘Fica triste não, perder assim é normal’. Você fala assim de uma pessoa que perdeu um filho de 18 anos? Não. De um filho de 1 ano? Não. Mas de feto? Feto pode. Posso dar um milhão de exemplos de como a sociedade não considera fetos pessoas, tenham eles alguns dias ou 38 semanas.”

Contei o meu desabafo e uma amiga me indicou o livro da Claudia Pucci Abrahao, que fala com muita delicadeza da importância (pra toda a família) de honrar este não-nascimento. Em  “Canto da Terra“, ela conta da sua experiência ao dar à luz aos seus três meninos e tem um capítulo destinado àquele/àquela que não nasceu, à noite que passou sangrando, as certezas e os medos, a conversa com o marido e muito mais.

E, para mim, fica a experiência, que me deixa mais apta a entender, acolher e perceber as mulheres que vivem o mesmo, além de, ao meu modo, preservar minha Constelação Familiar, este termo tão bonito para uma coisa tão natural que é honrar a vida e a morte de quem amamos.

<3

 

P.S. A expressão Constelação Familiar tem até copyright, mas desde que ouvi falar da Constelação Familiar eu entendi como uma coisa natural do ser humano, intrínseca e muito bonita. Na técnica criada pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, a ideia é criar “esculturas vivas” que reconstruindo a árvore genealógica, o que permite localizar e remover bloqueios do fluxo amoroso de qualquer geração ou membro da família.

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.