Os tablets na família

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Fui mãe em 2000 e 2002, quando nem DVDs portáteis eram comuns e nos habituamos a comer e passear em família interagindo sem muita tecnologia, possivelmente por isso entendo quando algumas pessoas se declararam contra “a nova modalidade de sossega leão para crianças pequenas”, o iPad à mesa.

Admito que em algumas situações os aparelhos (que temos atualmente, tanto os tablets quanto o já antigo DVD para carro) teriam sido úteis. Uma vez meu caçula (aos 2) abriu o supercílio na mesa de um restaurante chinês na Liberdade e precisamos sair às pressas para ir ao hospital “costurar”, mas mesmo assim continuamos a sentar à mesa com eles normalmente e sem distrações, de tal modo que hoje eles são excelentes companheiros de refeição e de viagens.

Quanto à diversão e aprendizado, nós também vivemos a fase de bebês sem Baby Einstein ou Galinha Pintadinha, a gente cantava para eles, gesticulava, fazia brincadeiras tipo fantoche e era divertido. Por isso, quando leio reportagens como esta, da Folha de S. Paulo, eu me pergunto se com a Manu (que nasce em abril de 2013) vamos repetir o modelo familiar ou seremos como as famílias atuais com múltiplas telas a conectar seus momentos de lazer.

A pergunta “Crianças devem usar tablet?” foi tema de um encontro com pais e professores organizado pelo jornal em parceria com o Instituto Ayrton Senna, tendo como debatedores a psicóloga Rosely Sayão, autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha), Adriana Martinelli, coordenadora da área de educação e tecnologia do Instituto Ayrton Senna, Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da Safernet Brasil, Valdemar W. Setzer, professor do Departamento de Ciência da Computação, Instituto de Matemática e Estatística da USP, e Andrea Jotta, psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC de SP.

O debate era voltado à educação, repetindo uma conversa que tivemos no painel – “Pais, filhos e educação 2.0” – que moderei no Desencontro 2012 (em Fortaleza, CE) sobre as escolas incluírem o aparelho na lista de material escolar e sobre as eventuais restrições de uso de 3G ou wifi durante as aulas. Mas, ao compartilhar a notícia no meu Facebook, me surpreendi com o comentário de um pai (de uma bebê de dois anos, se não me engano), que indiretamente me acusou de ser retrógrada por defender a brincadeira e as cantigas não-eletrônicas para as crianças.

A situação me fez perceber que não é só nos seminários e debates profissionais que este assunto gera polêmica: é tudo muito novo, recente e ainda estamos tentando nos reacomodar como num trem que se movimenta em velocidade incrivelmente rápida. Desde que engravidei de meu filho mais velho (e foi em Tokyo, no meio das novidades tecnológicas) em agosto de 1999, recebemos e absorvemos tantas novas tecnologias que quando eu resumo para contar para as pessoas causo espanto na maioria dos interlocutores. Mesmo com as novidades que trouxemos do Japão, o mais velho chegou a ter filmes em VHS, seus passos foram gravados com uma filmadora de fita, fotos com filme (que precisavam ser reveladas), aparelho de CD com k7 (e teve um “Meu primeiro Gradiente”, para gravar a própria voz). O segundo, nascido apenas 2 anos e 5 meses depois, já teve fotos e filmes digitais, viu filmes infantis em DVD, ouvia suas músicas favoritas num aparelho de MP3 conectado aos aparelhos de som da casa, pois já tínhamos “ripado” boa parte do acervo do irmão. É muita mudança para uma vida tão curta!

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Com Manu, a bebê que chega em abril de 2013, eu não imagino como será. Somos ultra conectados, usamos muitos aparelhos em casa – cada um no seu computador pessoal, tablets, iPods, smartphones, videogames e docks de som, vemos filmes e programas por streaming, sem esperar comercial ou usar mídia física -, meu filho caçula faz resumo de estudo para provas no iPod como eu fazia nos bloquinhos de papel, o mais velho checa as atividades do inglês nos espaços virtuais da escola e depois me mandam por e-mail para eu participar do cotidiano deles.

Mas ainda somos muito mais conectados uns nos outros do que os aparelhos. Gostamos de conviver, desligamos os aparelhos para fazer as refeições, ainda ficamos na sala brincando de jogos de tabuleiro quando o dica fica chuvoso para ir ao clube, meus filhos tocam no violão, flauta e teclado as músicas que mais gostamos para cantarmos juntos (e estão treinando cantigas de bebê para a irmã) e ainda curtimos mesmo deitar na grama sob as árvores para ver as formas das nuvens.

Sinceramente, não creio que gostar destas coisas simples e desconectadas nos faz pessoas retrógradas nem tira meus filhos da realidade de mundo na qual eles estão inseridos já e estarão cada dia mais no mundo em que vivem. Mas nos permite conviver como queremos, sem sermos levados por “correntes” de pensamento nem por “modismos”, exercendo o que eu considero o maior privilégio de ser humano no mundo atual: o livre arbítrio.

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E vale reforçar: eu não sou contra o iPad. Pelo contrário, adoro o meu e meus filhos fazem grande uso dele e do tablet Android que têm. Como Jorge (@nerdpai) eu também vejo várias qualidades nos jogos educativos dos tablets, mas para minha bebê, que nem nasceu, espero que tablets sejam apenas mais um dos brinquedos e atividades, não o único instrumento de lazer, distração e aprendizado.

P.S. Lívia Lisboa, que não é mãe mas observa tudo, indicou este post: “Quando é legal fazer o iPad de babá“.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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