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A primeira escola de balé para cegos do mundo fica no Brasil. É a Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini. Leia de novo: balé para cegos.

Você já quebrou o pé, a perna, o tornozelo, alguma vez? Nas sessões de fisioterapia que se seguem sempre tem algum exercício de propriocepção, de equilíbrio — que parece bem fácil de olhos abertos… e o caos, de olhos fechados! Imagine uma pirueta de bailarina sem poder contar com a ajuda de um ponto para fixar o olhar!

Eu poderia colar, aqui, a sinopse do documentário. Mas você já entendeu bastante ao assistir ao trailer, em vídeo. Você vai chorar? Possivelmente, se for uma pessoa sensível. Tem música que acentua os momentos mais difíceis da trajetória de Geyza e Thalia? Um clássico. Você sai acreditando que não há obstáculo que impeça uma pessoa de exercer sua vocação, seu talento, seu dom? Sim. E não estou falando apenas das bailarinas, mas dos parentes que as apoiam, dos professores que dedicam-se à arte, da equipe que decide que este é um tema que vale a pena mostrar para o mundo. Isso faz do filme um compilado de clichês? Não. E é por isso que te convido a ver; “Olhando para as estrelas” estreia hoje, nos cinemas. No ano passado, o longa foi exibido na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Acho que já falei por aqui que filme bom, pra mim, é aquele que revela camadas, te faz cruzar referências, dialoga com tudo o que você já viu, fez, ouviu. E, durante a cabine de imprensa, eu só conseguia lembrar do velho que Saramago criou em “O ensaio sobre a cegueira”, aquele que escreve sem poder enxergar o que está escrevendo, para que, algum dia, alguém possa saber o que estava se passando. Lembrei também do ator japonês Yoshi Oida, que traz uma frase linda em um dos seus livros:

“Posso ensinar a um jovem ator qual o movimento para apontar a lua. Porém, entre a ponta de seu dedo e a lua, a responsabilidade é dele. Quando atuo, o problema não está na beleza do meu gesto. Para mim, a questão é uma só: será que o público viu a lua?”

Cegos ensinando cegos qual a posição certa da perna no plié. Cegos, sem poder ver a beleza de seus movimentos,  exibindo-os para os que podem ver. Cegos que são cegas e têm filhos pra olhar. O mundo cheio de sons de quem conta com aplicativos para ler e escrever, e cheio de silêncios dos colegas da turma da escola que não sabem incluir. Cegos de nascença, cegos que já enxergaram, cegos cujos olhos foram retirados.

Quando não for mais um documentário que acompanha duas bailarinas e seus desafios para passar a ser um filme que te faça sentir a brutalidade dos buracos na calçada — e a delicadeza de um dia de sol no parque –, talvez seja porque você se deixou transformar. E seus olhos estão mais abertos. É pra isso a arte! Então, olha e vê.

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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