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“A matemática é instrumento de justiça, porque os números não mentem”

Pedro Luiz Malagutti, coordenador do comitê de provas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), defende que “ter conhecimentos matemáticos vai além de habilidade mental e ajuda a construir um olhar igualitário”.

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Concordo.

E creio que nós, classe média da escola particular, vamos sair perdendo neste quesito.

O filho da minha empregada tem 15 dias de diferença de idade com meu filho do meio. Acompanhei o crescimento do menino, assim como ela acompanha o meu, nos últimos 8 anos e sei que às vésperas de completarem 13 anos, os dois se mostram em situações diferentes no que diz respeito às suas habilidades em comum: facilidade e gosto pela matemática.

Ela tirou o filho da escola particular quando ele completou o ciclo Fundamental 1 e por isso desde o sexto ano o garoto tem sido convidado pelos professores de matemática a participarem da Obmep. Meu filho, que até mudou de escola, mas continua em instituições privadas, não tem apoio nem estímulo da escola na sua “impaciência” para ir além na sala de aula. Resultado: um está cada dia mais animado, o outro cada dia mais distante do que lhe era tão caro.

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E parte disso, novamente, sinto dizer, depende do mestre.

O professor precisa encontrar a dose certa para que as questões “fisguem” e avaliem mais de 18 milhões de crianças e jovens. Malagutti diz que, ao lado do conhecimento matemático, o teste deve exigir criatividade e raciocínio lógico, divertindo o participante e ajudando-o a caminhar ao máximo nas respostas.

Formado em matemática pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 1979, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorado em pela Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), ele é professor associado da UFSCar, onde fundou e responde pelo Programa de Educação Tutorial (PET), além de coordenar o Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Exatas.

Sua experiência em ensino e pesquisa enfatiza equações diferenciais parciais e envolve atenção ao uso de computadores na aprendizagem, à formação de professores e à produção de materiais didáticos. Malagutti destaca a aplicação dos conhecimentos da disciplina em áreas tão diversas como música, química e monitoramento de desastres naturais, e se declara encantado com essa “força unificadora”.

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Na entrevista concedida ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, às vésperas da cerimônia de premiação da 10ª Obmep, ele discorre sobre o tema:

Como é o trabalho do comitê?

É um trabalho longo. Começa no início de dezembro, e as provas [da primeira fase] são corrigidas em julho do ano seguinte. As provas da segunda fase, neste ano, serão em 12 de setembro. É um trabalho que envolve muitas reuniões. Somos dez pessoas de vários locais do Brasil que se reúnem, em geral em finais de semana, aqui no Instituto [Nacional de Matemática Pura e Aplicada – Impa], no Rio de Janeiro. Nas reuniões, elaboramos questões que criptografamos e colocamos no site [da Obmep] e começamos a escolher questões a partir desse banco.

Depois se realiza o processo de correção, em que é necessária uma produção enorme, precisamos corrigir 700 mil provas em pouco tempo. Correções que são localizadas nos Estados e municípios, tem uma nota de corte, depois são recorrigidas. Um grupo grande fica uma semana num hotel, corrigindo provas de matemática até conseguir encontrar todos os finalistas.

Há quanto tempo o senhor participa dessa instância?

Eu era membro do comitê como elaborador de questões já vão uns sete anos. Só não participei das duas primeiras edições. Hoje, como coordenador, monto as provas, discuto com o resto do grupo o formato da prova, como serão as soluções.

Como é pensada a prova?

Nossos parâmetros são: uma questão tem que ter interesse matemático, ser divertida, motivar o aluno a gostar de matemática… Elas têm que avaliar em todas as áreas do conhecimento – desde contagem, aritmética, álgebra e geometria, a tratamento de informação – e ser encadeadas de maneira que a pessoa consiga caminhar o máximo possível na prova. Além disso, têm que ser desafiadoras, ou seja, exigir criatividade e raciocínio lógico.

O que vocês querem extrair do aluno, quando escolhem essas questões?

Queremos descobrir talentos e também que o aluno possa ver a matemática de uma maneira diferente da que tradicionalmente se vê nas escolas e na sociedade, que é de algo difícil, que só uns poucos podem entender. Queremos que a matemática seja acessível a todos e tirar esse ranço de uma coisa que é de elaborar cálculos e procedimentos numéricos. Queremos um pouco mais de arte e raciocínio dedutivo. Que a pessoa, numa situação completamente nova, tome certos rumos para achar a solução. Nós fazemos questão de que as questões da Obmep não sejam tradicionais, não sejam tiradas de livros didáticos nem de manuais. Não tem como se preparar lendo livros. Tem como se preparar resolvendo questões de outras olimpíadas, do banco de questões, sendo criativo.

Qual seria, então, a dica para os alunos que vão fazer a prova?

Temos um acervo muito grande de atividades e de questões colecionado ao longo de anos. Não são só provas, tem apostilas, vídeos, desafios. Muita coisa, sempre ligada ao site da Obmep. São materiais riquíssimos, elaborados por uma rede articulada que alimenta esse site.

20.07 - Cerimônia de premiação da Obmep 2014 (1)

O que a Obmep significa hoje para esses estudantes?

Acabo de sair de uma reunião em que convidamos dez professores e dez alunos, um grupo muito pequeno representando esse universo que a Obmep atinge. Os depoimentossão emocionantes. A Obmep de fato muda a vida das pessoas. Em geral são pessoas de escolas públicas, sem condição nenhuma econômica, social, com muitos problemas e que veem na Obmep uma maneira não de [simplesmente] terminar o ensino médio, mas de ingressar numa faculdade, de serem líderes. São pessoas que passam a acreditar em si mesmas, e isso também vale para os professores. Quando o aluno é premiado, isso enche o professor de uma alegria indescritível.

Qual é a maior recompensa de um professor que vê um aluno nessa condição?

Acho que é profissional, mesmo. Por encontrar alunos que você ajudou a formar e estão, também, ajudando a formar novos alunos. Isso não tem preço, é uma coisa maravilhosa. Já temos vários alunos no exterior, fazendo graduação ou, quem sabe, um doutorado. É algo muito recompensador. 

Como as provas evoluíram nesse período?

Fomos aperfeiçoando-as ano a ano em conversa com professores e alimentando o banco de questões. Então há, hoje, um leque de opções muito grande. Além disso, as pessoas vão ficando mais experientes, mesmo. Por exemplo, essa prova que foi realizada agora, essa primeira fase, foi bastante divertida para o aluno. A gente procura seguir esse caminho de colocar a matemática como uma coisa que aflora naturalmente.

A reunião com os 20 homenageados nesta décima edição também teve um caráter de avaliação, de balanço. O que aparece como os próximos desafios? 

São dois, basicamente. Um é fazer que a primeira fase, em que as provas são aplicadas na escola pelo próprio professor para selecionar os 5% que seguem para a próxima fase, seja um acontecimento. Que seja incorporada a uma feira de ciências, a uma semana de atividades matemáticas… Uma atividade para toda a escola. O outro, diminuir a evasão que ocorre na segunda fase. A participação é totalmente voluntária, o aluno vai segundo seu próprio desejo. A gente gostaria que isso continuasse ocorrendo, mas que houvesse o comprometimento em realizar as provas da segunda fase.

Como atividades futuras, a gente pensa em estender a Obmep para o ensino fundamental do 1º ao 5º ano, a exemplo de outras olimpíadas para crianças menores. Aí, o universo de alunos passaria de 20 milhões para 40 ou 50 milhões. E, além disso, introduzir alguma novidade como provas ligadas com informática, com tecnologia de informação e comunicação. Existem olimpíadas em que, no lugar de uma questão estática em que você interpreta uma situação, tem um software com uma certa dinâmica e você pode fazer perguntas sobre qual vai ser a evolução de um certo padrão e dispara imagens na tela num computador.  

A resolução de problemas matemáticos acaba resolvendo problemas na vida das pessoas?

Existe uma parceria, não é só uma prova que você aplica na escola, né? A Obmep é uma rede, então, é um projeto todo em que você tem que envolver o professor e o aluno em relações de afetividade, de cognição e de motivação mútua. O aluno de escola pública é muito capaz, mas às vezes não é suficientemente motivado a cumprir certas metas e superar objetivos. A Obmep dá essa oportunidade. Com os recursos que eles têm na escola, conseguem sobrepujar esses desafios todos. Isso é o grande sucesso do programa. Além disso, há uma rede de pessoas no Brasil efetivamente engajadas em transformar a escola pública numa escola de boa qualidade. São professores universitários, professores que trabalham no cotidiano da escola, no chão da escola. São redes de pessoas que acreditam que o ensino público tem que ser de qualidade. Esse sonho coletivo é que faz que a olimpíada tenha o sucesso que ela tem.

E ter a matemática como força motriz disso tudo surpreende?

A matemática é a matemática dos gregos antigos, a matemática da Idade Média, a matemática moderna… Vi um filme que diz que um diamante é para sempre. Não é verdade, o que é para sempre é um teorema. Um teorema demonstrado é para sempre. Porque é uma consequência lógica de certas hipóteses que você admite como verdadeiras.

Então, não é que a matemática se molde ao teor dos tempos. É que nós, seres humanos, temos capacidade intelectual de abstrair, de fazer raciocínios matemáticos que servem para uma grande gama de coisas ao mesmo tempo. Você pode enxergar logaritmos em música e em terremotos, em pH [índice que mede acidez e alcalinidade] na química. É o mesmo fundamento que permeia várias aplicações. É essa força unificadora da matemática que é encantadora.

Com isso, a matemática é instrumento de justiça, porque os números não mentem. Quando alguém diz que vale tal coisa e não vale, você faz as contas e demonstra que não é verdadeiro. Você ter conhecimentos matemáticos não é só questão de ser habilidoso mentalmente, é questão de ser justo com as outras pessoas, ter um olhar de igualdade. 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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